domingo, 18 de janeiro de 2026

A genealogia de uma informação errada sobre crianças mortas por fome no Brasil

Investigamos a origem de um falso balanço de óbitos que circula com frequência nas redes sociais

Volta e meia surge uma postagem nas redes sociais com uma afirmação assustadora: que a fome matava 300 crianças por dia no Brasil na virada do milênio (mais de 100 mil por ano!). É um caso emblemático que me tomou literalmente anos para descobrir a origem.

Tudo começou em junho de 2001: o Jornal Nacional exibiu uma série retratando a fome no Brasil, na qual o repórter dizia que “a cada 5 minutos, morre uma criança no Brasil, a maioria de doenças da fome". Peço que guardem este termo “a maioria”, pois ele é importante para entender o imbróglio.


Em seguida, surge o médico sanitarista Flávio Valente dizendo que eram de 280 a 290 mortes por dia, o que é coerente com o que o repórter dissera. O vídeo apareceu no YouTube em 2009, mas sem comentários de usuários naquela época.

Corta para outubro de 2014, a três dias do segundo turno da eleição presidencial. A deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ) publicou esta postagem em seu Facebook:

Em seguida, surge o médico sanitarista Flávio Valente dizendo que eram de 280 a 290 mortes por dia, o que é coerente com o que o repórter dissera. O vídeo apareceu no YouTube em 2009, mas sem comentários de usuários naquela época.

Corta para outubro de 2014, a três dias do segundo turno da eleição presidencial. A deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ) publicou esta postagem em seu Facebook:

Percebam que surgem duas novidades: todas as 300 mortes por dia em 2001 seriam por fome
infere culpa ao governo FHC
A repercussão nas mídias sociais foi enorme, afinal, ela citava uma fonte fidedigna, e muita gente aceitou esta versão como real, tanto que entrou na memória coletiva e se mantém viva até hoje (o vídeo do YouTube que mencionei anteriormente está repleto de comentários, mas todos em anos recentes) - a despeito da flagrante contradição entre o texto da deputada e o conteúdo da reportagem (que dizia que a maioria seria por fome, jamais o total). Em nota, a deputada diz ser “forçada a tentativa de acusá-la de distorção deliberada” (leia mais abaixo).

Mas de onde vieram os números? E eles fazem sentido?

Pelo DataSUS, tínhamos em 2000, 218 mortes de crianças menores de 5 anos de idade por todas as causas naturais somadas - bem distante do valor apresentado. Mesmo se considerarmos o total de óbitos até 9 anos ou até 14 anos, não chega a quase 300 por dia.

A única forma de chegar a este número é somando todos os óbitos por todas as causas (incluindo aí também as externas) dos 0 aos 19 anos - mas isto não fazia sentido algum. Não era apenas sobre crianças e muito menos sobre doenças relacionadas à fome. A fonte usada pelo Jornal Nacional tinha de estar em outro lugar (procurados, o médico ouvido disse que não se referia ao total de crianças com fome e a TV Globo informou que a equipe da reportagem não trabalha mais na emissora).

O mistério perdurou anos para mim - até que, por acaso, encontrei uma entrevista de março de 2003 concedida pelo epidemiologista César Gomes Victora, da UFPel, à Folha de São Paulo que trouxe a luz que faltava para desvendar o tema.

O artigo menciona um estudo divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) no ano de 2000 que, já na introdução, diz que “a desnutrição é uma causa associada em cerca de metade de todas as mortes que ocorrem entre crianças em países em desenvolvimento”. Isto daria embasamento à matéria do Jornal Nacional, já que o Brasil é um país em desenvolvimento.

Mas faltou ler o que vinha depois: a fonte citada era um estudo de David Pelletier de 1994, que mencionava apenas alguns países extremamente pobres da África Subsaariana e da Ásia, com mortalidade infantil múltiplas vezes superior à brasileira (lembrando que o estudo de 2000 tampouco falava da porcentagem de mortes atribuíveis à fome no Brasil).

Por outro lado, a publicação de 94 cita o estudo Padrões de Mortalidade na Infância, de 1973 (indisponível online), que dizia que a desnutrição era fator contribuidor para cerca de metade dos óbitos de crianças entre 1 e 4 anos em vários países latino-americanos no início daquela longínqua década. Aqui vale colocar o contexto: no início dos anos 70, a mortalidade infantil estava na casa de 130 /1000 nascidos vivos no Brasil, muito acima dos cerca de 30/1000 nascidos vivos na virada do milênio.


Mas afinal, qual a porcentagem das mortes infantis era relacionada à fome? Na entrevista à Folha, o epidemiologista César Victora disse que a situação brasileira era diferente. Nos países mais pobres do mundo, a maioria das mortes era causada por doenças infecciosas e, no Brasil, a maioria das mortes de crianças se dava no período neonatal. Ainda segundo o acadêmico, as mortes decorrentes da fome e desnutrição, dependendo da metodologia usada, estariam entre 2% e 14% do total (na virada do milênio).

E sobre o número total de crianças mortas (independentemente da causa)? Vejam no gráfico a seguir que, segundo o Unicef, eram 120 mil por ano, bem acima das 79,4 mil anuais registradas no DataSUS. O motivo é simples: a mortalidade infantil é um indicador que considera não apenas os óbitos registrados, mas também uma estimativa dos óbitos não registrados (para contornar a subnotificação). Vale lembrar que, por ser estimativa, imprecisões e diferenças são possíveis (a do IBGE é sutilmente mais baixa que da Unicef).

Assim, ficou claro que o total de crianças que morriam por dia (citado na matéria do JN) veio da estimativa de mortalidade infantil e não do DataSUS. A menção à maioria ser por fome veio de um estudo divulgado pela OMS que se refere não ao Brasil, mas a alguns dos países mais miseráveis do mundo. Quatorze anos depois, num contexto de disputa eleitoral, uma deputada divulgou o vídeo inserindo em sua postagem duas afirmações que não estavam na reportagem: que todas as vítimas seriam por fome e inferindo que isto seria por culpa do partido do governo anterior (que era adversário político).

O que começou com uma reportagem que fez uma leitura incorreta dos dados quantitativos, depois foi distorcido e amplificado por uma deputada federal que tentou obter vantagem eleitoral, gerando assim uma das fake news mais persistentes em redes sociais. Não é este o Brasil que queremos.

Nota: o médico Flávio Valente afirma, em nota que os números citados por ele não se referiam ao total de mortes de crianças por fome no Brasil na época. A intenção, segundo o sanitarista, era comparar a repercussão pública desse problema com a de óbitos em acidentes, como a queda de um avião.

Texto de Franklin Weise no Estadão
Engenheiro, co-criador do site DesvenDados e conhecido nas redes sociais como Frankito, o curioso. Usa embasamento quantitativo e visualização de dados para falar de temas relevantes à sociedade.

https://www.estadao.com.br/ciencia/frankito-o-curioso/a-genealogia-de-uma-informacao-errada-sobre-criancas-mortas-por-fome-no-brasil/