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sábado, 2 de abril de 2016

Brincando de médico

Alguns comportamentos de crianças pequenas -de até seis anos, mais ou menos- têm preocupado muito seus pais e professores. É um tal de a professora e/ou coordenadora da escola chamar os pais para conversar -reclamar, melhor dizendo-, sugerir um tratamento ou encaminhar a um especialista que não tem fim.
O que a escola quer é pedir alguma providência dos pais para que o comportamento não persista no espaço escolar, mas o que consegue mesmo é deixá-los em estado de atenção e de tensão.
É quase um vale-tudo nessa área: vale criança irrequieta, criança que faz birra, criança imatura -céus, o que é isso?- criança que briga, criança passiva, criança que ainda não fala, que troca letras, que não para de falar, criança que berra, que briga, que morde etc e tal.
Todos esses comportamentos são típicos de crianças dessa idade e, na maioria dos casos, apenas exigem atitudes educativas diversas, nada mais.
Mas, em tempos de medicalização da vida e da educação, acreditamos que eles exigem atenção profissional especializada e ficamos tentados a diagnosticar e a usar com rigor a cartilha do que é e do que não é normal.
Hoje, quero conversar a respeito de um tipo desses comportamentos ou brincadeiras das crianças, que ocorrem tanto na escola quanto em casa, e que eleva a preocupação dos pais a mil, com direito a luz vermelha piscante e sirene.
São comportamentos ou brincadeiras que, de algum modo, remetem à sexualidade.
Há pais e escolas que perdem o bom senso quando testemunham brincadeira de médico ou de "papai-mamãe", por exemplo, ou flagram crianças abraçando e/ou beijando, na boca, inclusive, outras crianças -esta situação fica pior quando elas são do mesmo sexo- e mostrando ou querendo ver os genitais dos colegas.
É que, em tempos de "O Desaparecimento da Infância" -título de um livro de Neil Postman-, olhamos para as crianças e as vemos a nossa imagem e semelhança, ou seja, entendemos que o sentido do que elas fazem é o mesmo sentido que o dos adultos, que elas ainda não são.
Não. Crianças dessa idade brincam assim e agem desse modo porque estão descobrindo o corpo e suas sensações -de prazer, inclusive- , porque são curiosas e já viram adultos fazerem algo semelhante.
Precisamos reconhecer: além de essa fase ocorrer naturalmente na vida das crianças, com diferenças porque elas não são iguais, os mais novos vivem num tempo em que o erotismo as rodeia intensamente.
Desse modo, beijar na boca, inclusive colegas de mesmo sexo, simular o ato sexual, que eles entendem à maneira deles, e tirar a roupa para os colegas ou pedir que eles façam isso, em geral são comportamentos que eles já tiveram a oportunidade de ver, mesmo de relance, e que os interessou.
Mas não da mesma maneira que isso interessa aos adultos.
Todas essas brincadeiras e comportamentos das crianças não devem alarmar os pais, não precisam ser motivo para preocupações. Basta fazer a contenção necessária, quando for o caso, sem repreensão, recriminação ou discurso moral.
E quando a escola chama os pais para falar a esse respeito do filho, é bom perguntar quais atitudes educativas lá se pratica a esse respeito. Se ela não tiver um sólido projeto a respeito, aí sim, os pais têm motivo para se preocupar.
Com a escola, e não com o filho.

Texto de Rosely Sayão na Folha de São Paulo de 01/04/2014
http://www1.folha.uol.com.br/colunas/roselysayao/2014/04/1433938-brincando-de-medico.shtml

Os insepultos - o caso do assassinato de Celso Daniel

Na quinta (31), após mais um uso de bens públicos para a adulação ritual da presidente emérita, o ministro Edinho Silva empregou tons sombrios ao falar da radicalização política no país –um dos legados permanente da era PT.

Disse o petista: "Vamos baixar o tom ou vamos esperar o primeiro cadáver?". Menos de 24 horas depois, a Lava Jato, sempre ela, tratou de pagar a clarividência de Edinho com fel, trazendo à costa o corpo insepulto do nebuloso preâmbulo dos anos do PT no poder:o caso Santo André.

A volta à baila dos nomes de Celso Daniel, Ronan Maria Pinto, Delúbio Soares e Silvinho Pereira tem um gosto einsteiniano: o passado, o presente e o futuro soam como uma única história, da propina do ônibus ao petrolão, passando pelo mensalão. Apenas a gravidade, que ora joga o projeto de poder petista ao chão, distorce e simula um círculo narrativo.

O cadáver de fato, Daniel, se insinuou antes do mártir das ruas. Simbolicamente, é sua sombra que se projeta sobre o muito mais complexo esquema Schahin. As traficâncias evoluíram, mas a constante a ser assombrada por suas exumações se chama Luiz Inácio Lula da Silva.

Recado entendido, Lula deve apressar a erosão da máquina pública em nome da prorrogação da agonia de Dilma Rousseff, esbarrando na conveniência eleitoral dos velhos-novos aliados: Dnocs é ótimo para a fisiologia municipal, mas quem quer estar com o PT em outubro?

O processo é sórdido. Só a ideia de um segundo loteamento da Saúde em seis meses em troca de uma dúzia de votos, tornando a pasta depósito de indizíveis úteis em meio a emergências sanitárias, é o que pode de fato ser chamado de golpe.

O agora ex-petista Delcídio do Amaral, teria dito certa vez a Lula que o PT deixa seus "cadáveres em covas rasas". Quase todo império tem corpos em suas fundações. Alguns deles, no ocaso das eras, se materializam como epitáfios.

Texto de Igor Gielow Da Folha de São Paulo de 02/04/2016
http://www1.folha.uol.com.br/colunas/igorgielow/2016/04/1756775-os-insepultos.shtml