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domingo, 25 de outubro de 2009

Nosso Guia e a teoria petista da imprensa



Lula sabia o que estava fazendo quando disse que a imprensa deve informar, e não fiscalizar


A BATATADA de Lula em sua entrevista ao repórter Kennedy Alencar reflete, de forma tosca e resumida, a opinião do comissariado de informações do Planalto e da nação petista sobre os meios de comunicação. Ele disse o seguinte: "Não acho que o papel da imprensa é fiscalizar. É informar. (...) Essa informação pode ser de elogios, de denúncias. (...) Para ser fiscal tem o Tribunal de Contas, a Corregedoria-Geral da República, tem um monte de coisas".
Nesse modelo não haveria lugar para as recentes denúncias de torturas de presos por agentes do governo americano. Muito menos para o caso Watergate, que acabou derrubando um presidente dos Estados Unidos. Mensalão? Nem pensar. Em todos os casos foi a ação fiscalizadora da imprensa que disparou e permitiu as investigações.
Não se tratou de uma bobagem do tipo "quando Napoleão foi à China". O comissariado realmente acredita que há uma conspiração da imprensa contra o governo e sonha com a construção de um novo modelo para os meios de comunicação brasileiros.
Noves fora a tentativa de expulsão do jornalista Larry Rother, Nosso Guia jamais moveu um dedo contra alguém por conta do que disse dele ou de seu governo. Feita essa ressalva, fica o registro de que é grande a simpatia do comissariado pelas iniciativas do coronel Hugo Chávez na Venezuela. Uma compreensão paternal: "Não concordo, mas entendo".
Todos os governos acham que são perseguidos por conspirações da imprensa, mas Nosso Guia estimula seus paranoicos. Sem fiscalização, ele continuaria falando em "Corregedoria-Geral da República". Isso não existe, o nome certo é Controladoria-Geral da União e seu titular é escolhido pelo presidente.

UMA BOA CHANCE PARA O URBANISMO DO RIO
Até 2016, o Rio de Janeiro precisa construir e equipar pelo menos 18 mil quartos de hotel. O Comitê Olímpico Internacional pede 40 mil, e a cidade tem 22 mil. Esse é um dos principais desafios para os marqueses da Olimpíada.
Não se pode pensar em construir 30 hotéis do tamanho do Sheraton, pois virariam um mico. A Prefeitura do Rio trabalha com a ideia de empreendimentos nos quais o cidadão compra uma cota de um condomínio e usufrui o rendimento do hotel. É o Condo-Hotel.
Nos Estados Unidos, os proprietários podem utilizar o apartamento durante algumas semanas do ano. Em geral, os Condo-Hotéis têm cozinha no apartamento. Se esse modelo vier para o Rio, desemboca-se num sucedâneo do velho e bom apart-hotel. (Sem cozinha, ou sem possibilidade de usufruir do imóvel, será mais difícil encontrar investidores.)
No Rio, há uma mandinga contra os apart-hotéis. Teme-se que os apart-hotéis da zona sul virem cortiços. Em São Paulo, isso não aconteceu. Pelo contrário, os apart-hotéis deram vida e até mesmo segurança aos pedaços onde se instalaram.
Vigora no Rio uma lei que proíbe a construção de apartamentos com áreas inferiores a 30 ou 40 metros quadrados. Quitinete virou uma palavra maldita. A gloriosa Lapa é um paliteiro de quitinetes. Quem viu o filme "Edifício Master", de Eduardo Coutinho, aprendeu que nesses prédios moram pessoas comuns, sem cauda nem chifres.
Há uma dose de segregacionismo no horror aos apart-hotéis e às quitinetes. (Se a palavra for traduzida para "studio", dignifica-se.) No centro de Paris, há centenas de imóveis com menos de 30 metros quadrados. Em Nova York, uma quitinete de 18 metros na rua 90 está por US$ 150 mil.
Nova York e Paris são o que são porque buscaram a convivência do andar de cima com o de baixo. Quando o pessoal de cima quer ficar longe da turma de baixo, a cidade piora.

FAXINA NA INFRAERO
A investigação do Ministério Público em cima das obras e pompas da Infraero tem fortes chances de terminar com gente na cadeia.

GRANDE OITICICA
Numa época em que Lula diz que não interferiu na Vale, o secretário da Segurança do Rio reclama do governo federal e o capitão Denis Bizarro garante que não viu Evandro João da Silva estendido na rua, Cesar Oiticica, irmão de Hélio, merece uma homenagem. Ele era o guardião do acervo do artista, e a sala onde o material estava guardado pegou fogo. Houve quem reclamasse do Ministério da Cultura, do governo do Estado e até da prefeitura. Cesar escreveu um artigo onde disse o seguinte: "A responsabilidade é só nossa e não seria justo tentar dividi-la com alguém".

ARQUIVO
Na polícia do Rio tem gente convencida de que o capitão da PM Denis Bizarro sabe mais do que se presume. É grande a torcida para que ele conte.

VOLTA POR CIMA
O novo ministro de Assuntos Estratégicos, embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, passou sete anos debaixo de chumbo na Secretaria-Geral do Itamaraty. Para que não se coma lebre por gato, é bom lembrar que ele foi o único diplomata com coragem suficiente para denunciar a arapuca da Alca. Ela criaria uma zona de livre comércio do Alasca à Patagônia, e o tucanato gostava da ideia. A ousadia custou-lhe uma repreensão e o cargo de diretor do Instituto de Pesquisas de Relações Internacionais do Itamaraty, mas a Alca morreu. Com a ida do embaixador para um ministério fabricado para receber o professor Roberto Mangabeira, talvez ele vire coisa séria.

CPI DO MST
No Palácio do Planalto percebe-se uma ponta de simpatia pela CPI do MST. Apenas simpatia.

SALLY HEMINGS
O ministro Joaquim Barbosa encantou-se com um livro. É "The Hemingses of Monticello -An American Family" (Os Hemings de Monticello - Uma Família Americana). Nele a professora Annnette Gordon-Redd conta a história de uma família de escravos, os Hemings, na fazenda Monticello, de Thomas Jefferson. O pai da pátria teve um filho (ou sete) com sua escrava Sally Hemmings, 30 anos mais jovem que ele. O livro (Prêmio Pulitzer deste ano) passa polidamente pelos lençóis do presidente e é um poderoso retrato das relações da casa grande com a senzala da fazenda de um aristocrata da Virgínia. Os Hemings parecem uma invenção da lascívia de Gilberto Freyre. A mulata Sally e a mulher de Jefferson, dona Martha, tiveram o mesmo pai, que fez só uma filha com a mulher branca e seis com a escrava Elisabeth.

FORA DA LEI
Quando a PM do Rio sobe um morro e mata um cidadão, informa que se tratava de um "suspeito". Só na quarta-feira foram sete. "Suspeito" de quê? Quando dois PMs (um deles oficial) são filmados coletando os tênis e a jaqueta de uma pessoa que acaba de ser assassinada, eles continuam na corporação. É a lei. Ninguém quer que se imponha um rito sumário oportunista à dupla filmada. Pede-se apenas que não se matem "suspeitos". É a lei.

LULA, O GRANDE
Alguém precisa avisar ao Nosso Guia que os iranianos são persas, e não árabes.

Texto de Élio Gaspari na Folha de São Paulo de 25/10/09

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

A censura está de volta


ROBERTO MUYLAERT


A censura prévia dos tempos da ditadura parece ressurgir das cinzas, com renovado e descarado vigor, em pleno regime democrático

NOS 20 anos em que durou o regime militar, não era necessário ser de extrema esquerda para se defrontar com a censura a cada passo -como empresário editorial, profissional de imprensa ou mesmo como leitor.
As notícias proibidas pelos censores não podiam ser deixadas em branco no jornal, assim como não era permitido fazer menção no próprio veículo censurado às restrições impostas às Redações, onde um censor tinha sempre cadeira cativa.
Foi quando surgiram os famosos trechos de "Os Lusíadas", de Camões, no "Estado de S. Paulo" e as receitas culinárias no "Jornal da Tarde" em substituição aos parágrafos eliminados pela censura.
Na televisão, os produtores precisavam assistir aos programas novos, ainda não exibidos, com um censor sempre ao lado, que poderia interromper a exibição a qualquer momento para esclarecimentos e exigência de mudanças.
No programa "Vox Populi", criado por mim e Carlos Queiroz Telles na TV Cultura na década de 70, a entrevista sensação seria a de um metalúrgico carismático, líder sindical de São Bernardo do Campo (SP), em sua estreia na televisão.
Era o primeiro programa de entrevistas na TV permitido pelo regime militar, que partia do princípio de que, ao aprovar um programa como aquele, em emissora com audiência restrita, estaria mostrando certa liberalidade em relação ao controle que exercia sobre as mídias, ao mesmo tempo em que corria risco tolerável, não tão grande quanto se a transmissão fosse numa emissora comercial.
Aquele "Vox Populi" era aguardado com expectativa pelas autoridades do governo, que desejavam descobrir o que passava na cabeça daquele líder que julgavam de extrema esquerda, chamado Lula, e que riscos estariam correndo quando ele expusesse seus pontos de vista e a sua oratória na TV.
No estúdio da TV Cultura, num domingo à noite, com a emissora quase deserta, enquanto se aguardava, por via das dúvidas, o início da transmissão do programa já gravado, irrompe um oficial do corpo de paraquedistas exigindo, enérgico, a fita do programa, que, segundo ele, não iria ao ar de forma alguma.
Depois de vários telefonemas para as autoridades que aguardavam a transmissão, mais a interferência do governador de São Paulo, o programa foi oficialmente liberado e exibido ao impaciente oficial, que precisou se conformar, bastante irritado, com a situação de fato, embora ele fosse um livre atirador, agindo por conta de um grupo que não concordava com esse tipo de abertura.
Outro fato testemunhado por inúmeros jornalistas foi o enterro de Vladimir Herzog, conduzido com muita rapidez para evitar incidentes e presenciado por alguns presos que estavam sendo torturados nos quartéis, simultaneamente a Herzog, e que foram conduzidos à cerimônia, por tempo reduzido, apenas para provar que estavam vivos.
No culto ecumênico de sétimo dia de Herzog, na catedral da Sé, ninguém estranhou quando um "acidente" interrompeu o trânsito na av. Nove de Julho e limitou o grande afluxo de pessoas que se dirigiam à Sé.
Assim como foi considerado compatível com a situação política alguns andares de um edifício comercial contíguo à catedral estarem ocupados por uma dezena de fotógrafos oficiais, cuja missão era fazer o registro de todos os que chegavam à missa.
Todas essas peripécias precisavam ser encaradas, na época, por aqueles que deviam conviver com as restrições, por obrigação profissional, num regime de exceção.
Mas agora, num Estado democrático de Direito, torna-se quase impossível entender a censura imposta há três meses ao jornal "O Estado de S. Paulo", proibido de divulgar informações sobre Fernando Sarney - filho do senador José Sarney-, indiciado pela Polícia Federal por falsificação de documentos para favorecer empresas em contratos com estatais.
Uma clara violação do direito de livre expressão, garantido pela Constituição brasileira e por convenções internacionais subscritas pelo Brasil. O processo foi transferido para a Justiça Federal de primeira instância do Maranhão, capitania em que a família Sarney exerce reconhecida influência.
Fica assim conspurcado o direito da sociedade brasileira à livre informação sobre assuntos de interesse público, numa situação esdrúxula, em que a censura prévia dos tempos da ditadura parece ressurgir das cinzas, com renovado e descarado vigor, em pleno regime democrático.


ROBERTO MUYLAERT , 74, jornalista, é editor, escritor e presidente da Aner (Associação Nacional dos Editores de Revistas). Foi presidente da TV Cultura de São Paulo (1986 a 1995) e ministro-chefe da Secretaria da Comunicação Social (1995, governo FHC).
Fonte Folha de São Paulo de 23/10/09

Matando cachorro a grito

Segundo dados macroeconômicos do IBGE, o desemprego caiu e a renda cresceu, voltando aos patamares pré-crise.
Mas, segundo dados da realidade, colhidos pela
Folha numa quilométrica fila de inscrição de concurso no Rio, a coisa é bem feia.
São 1.400 vagas para gari. Fora tíquete alimentação, vale-transporte e plano de saúde, o salário é de R$ 486,10. O suficiente para atrair 109.193 inscritos até ontem, dos quais 45 doutores, 22 mestres, 1.026 com nível superior completo e 3.180 incompleto.
Seria uma competição injusta com os que só têm até a quarta série do ensino fundamental -o mínimo exigido para a inscrição-, não fosse a inclusão de testes como flexões abdominais e corrida, literalmente mais suados e mais úteis que títulos e canudos para uma profissão tão sofrida quanto necessária. O risco é o sujeito ou a sujeita sair com a sensação de que estudou tanto, mas nem para gari serve.
Mal tiram a beca da formatura, a engenheira corre para um concurso de fiscal da Receita, o jornalista disputa qualquer vaga em qualquer repartição pública, o administrador de empresas aceita ser digitador no Itamaraty. Advogados caem às pencas de toda parte, até de táxis e quadros de portaria.
Na posse do ministro Samuel Pinheiro Guimarães (SAE), terça-feira, Lula encheu o peito para dizer que o ProUni colocou quase o mesmo número de estudantes que as universidades federais desde elas que existem. Mas para quê?
Há muito investimento a fazer em educação, inclusive no ensino público superior e no profissionalizante, e há dúvidas sobre essa multiplicação de vagas particulares.
Enche as burras de entidades privadas e tende a frustrar profissionais com diplomas inúteis na parede da sala. Será que é assim que se melhora o IDH, a qualidade do emprego e a própria educação? PS: Ainda dá tempo. As inscrições para gari no Rio só terminam hoje.

Texto de Eliane Cantanhêde na Folha de São Paulo de 23/0909

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Analfabetismo: Futuro ainda comprometido

Futuro ainda comprometido

NÚMEROS do Ipea e do IBGE, divulgados recentemente, mostram que o país não avançou no combate ao analfabetismo. Pelo contrário. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) 2008 mostram que são mais de 14 milhões de analfabetos, 10% da população, com uma redução de apenas 7,2 pontos percentuais em comparação a 1992.
Tão grave quanto este dado é o número de analfabetos funcionais.
Correspondem a 21% da população, ou 30 millhões de pessoas. Somando-se os dois grupos, chega-se a quase 1/4 da população sem condições de ler ou compreender este texto. Trata-se de uma exclusão perversa e profunda.
Isso compromete o futuro do Brasil dada a baixa qualificação da mão-de-obra e os limites claros que impõe ao pleno usufruto da cidadania, como sei de experiência própria. Se o país não investe pesadamente em educação -e não apenas com recursos financeiros, mas com prioridade estratégica- falta algo fundamental a qualquer pretensão de se projetar no cenário internacional.
O Brasil pode se tornar a quinta economia do mundo até 2016, sem que tal conquista necessariamente se reverta em mais qualidade de vida para os excluídos. No Nordeste, houve uma redução de 13% do número de pobres nos últimos dez anos, mostram os dados do IBGE.
O analfabetismo, contudo, permanece alto e isso deveria acender um enorme sinal de alerta. A educação é o único instrumento capaz de dar autonomia às pessoas para transformar suas próprias realidades. Uma população mais escolarizada, em geral, sofre menos com violência, tem mais acesso à saúde preventiva, ganha salários maiores.
Investir em infraestrutura é necessário. O melhor investimento que se pode fazer, porém, está na própria população. Os desafios educacionais são gigantescos. E não se pode enfrentá-los sem um esforço igualmente gigantesco, histórico, que ultrapasse as barreiras burocráticas de uma política setorial e se entranhe em todos os níveis e áreas de governo e da sociedade. Dedicar a este esforço as verbas publicitárias públicas, para campanhas motivadoras e mobilizadoras, já seria um bom começo.
É preciso sair urgentemente do apego a estatísticas. Não basta alinhavar números de crianças na escola se, ao final do processo, elas se sentem humilhadas pelo analfabetismo funcional. Quanto mais tempo nos conformarmos com essa situação, mais longe estaremos do Brasil que nossa população merece e do crescimento com qualidade que queremos e podemos ter.

Texto de Marina Silva, na Folha de São Paulo de 19/10/09
contatomarinasilva@uol.com.br

sábado, 17 de outubro de 2009

Reforma do Código Penal torna mais branda pena para violência doméstica

Reforma do Código Penal preocupa promotores de Justiça pelo risco de esvaziar Lei Maria da Penha

Criada em 2006 com o objetivo de endurecer a punição para crimes de violência doméstica, a Lei Maria da Penha corre o risco de ser esvaziada se a proposta de reforma do Código de Processo Penal (CPP), em discussão no Senado, for aprovada como está.

O projeto de lei, que por um lado tenta agilizar a tramitação de ações na Justiça, por outro deixa de enquadrar a violência doméstica em crime grave, permitindo que o agressor cumpra penas pecuniárias, como a distribuição de cestas básicas ou multas.

" É um retrocesso imenso, é voltar a aceitar a impunidade "

A questão mobilizou promotores do Ministério Público em 15 estados. A promotora do Juizado de Combate à Violência Doméstica contra a Mulher de Fortaleza, Fernanda Marinho, entregou pessoalmente ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva uma carta em nome do grupo, alertando sobre as ameaças à lei. Para ela, a principal conquista da Lei Maria da Penha foi estabelecer, no seu artigo 41, que a violência doméstica, mesmo para penas menores de dois anos, não pode ser considerada crime de menor potencial ofensivo.

O ponto de discórdia é a Lei 9.099/95, que instituiu os juizados especiais criminais e cíveis, favorece a conciliação e não admite a prisão em flagrante ou preventiva. O texto do projeto de lei que tramita agora no Senado (156/09), elaborado por uma comissão de juristas, integra toda essa lei ao código. Dessa forma, é revogado o artigo 41 da Lei Maria da Penha, que exclui da incidência da Lei 9.099/95 os crimes de violência contra as mulheres.

- É um retrocesso imenso, é voltar a aceitar a impunidade - afirmou a promotora.

" Vou manter no relatório a eficácia e a força da Lei Maria da Penha "

O relator da comissão que analisa o CPP, o senador Renato Casagrande (PSB-ES), porém, promete que as propostas do grupo serão acolhidas no seu parecer que será apresentado até o fim deste mês.

- Vou manter no meu relatório a eficácia e a força da Lei Maria da Penha. Vou colocar a Lei Maria da Penha como exceção e ela ficará com toda a força que tem hoje - prometeu o senador.

A senadora Serys Slhessarenko (PT-MT), que já apresentou um relatório na comissão sobre as implicações das mudanças na Lei Maria da Penha, afirmou que não há possibilidade de o código ser aprovado sem as proteções às mulheres.

- Na nova proposta, que ainda não está aprovada, essa questão foi superada. O Senado não iria cometer um retrocesso dessa envergadura. Da maneira como está, seria a destruição total da Lei Maria da Penha - apontou a senadora.

Novo código dá prioridade à conciliação em ações de violência doméstica

Apesar das propostas na comissão, o texto atual ainda preocupa. A deputada estadual Inês Pandeló (PT-RJ), presidente da Comissão dos Direitos da Mulher na Alerj, critica o uso da conciliação em ações de violência doméstica, previsto no novo CPP.

" A conciliação não é possível numa relação de submissão "

- Isso poderia gerar novas agressões, porque o homem saberia que dependeria da mulher aceitar ou não o acordo, e não do juiz. A conciliação não é possível numa relação de submissão. Seria uma derrota da lei, da conquista das mulheres e aumentaria a violência doméstica - ressaltou a deputada.

Outro problema apontado é que com a nova legislação a mulher pode desistir da ação depois de iniciado o processo. Para a superintendente do Centro Estadual dos Direitos da Mulher (Cedim) do Rio, Cecília Soares, este precedente torna-se grave no caso da violência doméstica:

- O agressor está muito mais próximo, ele muitas vezes é o pai dos filhos. O emocional faz com que ela não tenha firmeza em encarar a questão como crime. Se a Justiça diz que ela pode desistir, vai ser mais um estímulo - estimou a superintende, acrescentando que a reforma prevê que os crimes deste tipo passaram a tramitar em juizados criminais e não nas varas especializadas.

A promotora Fernanda Marinho afirma que outro retrocesso presente no texto é que crimes de menor repercussão social podem ter a aplicação de penas suspensas por um juiz.

- O que é menor para um, não é menor para outro. A violência contra a mulher é de fato de menor repercussão social. Está no âmbito da família. Então, os juízes é que vão decidir quando há punição. É uma brecha enorme - disse a promotora, ressaltando que em alguns casos a mulher vai precisar de um advogado para registrar a denúncia, em vez de relatar a violência na delegacia, como acontece hoje.

" Com a Lei Maria da Penha, as mulheres começaram a saber mais sobre seus direitos "

O novo código excluiu ainda as medidas protetivas que dão garantias às mulheres após a realização da denúncia, como saída do agressor de casa e a proteção dos filhos. Para a superintendente do Cedim, estas alterações provocariam redução do número de denúncias:

- Com a Lei Maria da Penha, as mulheres começaram a saber mais sobre seus direitos e medidas que as protegiam. Quando a Lei 9.099 era aplicada, havia mulheres assassinadas tendo feito nove registros na delegacia. A violência doméstica já é subnotificada, a volta desta situação só aumentaria.

O último levantamento da Lei Maria da Penha revelou que de setembro de 2006 ao fim de 2008, houve julgamento em 75.829 processos relativos à violência doméstica. Os dados foram compilados pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e referem-se a varas especializadas de 15 estados.

Reportagem de Thais Lobo em O Globo Online, publicada em 16/10/2009 às 19h40m

http://oglobo.globo.com/pais/mat/2009/10/16/reforma-do-codigo-penal-preocupa-promotores-de-justica-pelo-risco-de-esvaziar-lei-maria-da-penha-768082122.asp

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Vale x Planalto, um jogo a ser degustado

Nessa briga ganha-se mais estudando os dois lados do que torcendo, de saída, por qualquer um deles

HÁ MUITO TEMPO não aparecia uma briga tão interessante como a da Vale com o comissariado petista. A mineradora é a segunda maior empresa do país, emprega 53 mil pessoas e em 2008 lucrou R$ 21,3 bilhões. Seu negócio é vender minérios e a briga destina-se a decidir quem manda nela.
A Vale foi privatizada em 1997. Num lance exemplar da privataria tucana, o dinheiro da Viúva continua lá, mas a senhora não manda. Somando-se as participações de seus fundos de pensão (Previ e Funcef) à do velho e bom BNDES ela teria votos suficientes para mandar na empresa, caso se tratasse de uma padaria. Um acordo de acionistas entregou o leme da Vale ao Bradesco, que tem 21% do capital votante. Foi do Bradesco que saiu o atual presidente da empresa, Roger Agnelli, em cujo mandarinato dobrou-se a produção e quintuplicou-se o lucro.
Apesar desses resultados fantásticos, a Vale carrega a urucubaca de exportar minério e importar navio. A empresa está fechando um negócio de US$ 1 bilhão com a indústria coreana, mas quem conhece as mumunhas do cartel naval brasileiro acha que ela faz muito bem.
Lula e Agnelli estabeleceram uma relação afetuosa. O empresário entrou na vaquinha que pagou a reforma do Alvorada, recrutou diretores no BNDES e tornou-se figura fácil nas celebrações do Planalto. Esqueceu-se que Nosso Guia é um urso devorador de donos.
Em dezembro de 2008, num episódio inesquecível, Agnelli propôs o congelamento de um pedaço da legislação trabalhista ("medidas de exceção") para conjurar a crise. Em seguida a Vale iniciou uma política de demissões que já desempregou mais de 2.000 pessoas. Lula reclamou das medidas, contrariado porque não o avisaram. Olhando-se a crise pelo retrovisor, fica entendido que a diretoria da Vale apavorou-se.
Assim como sucedeu com as empresas de telefonia, os comissários dos fundos de pensão começaram a se desentender com os controladores da empresa. Como o Bradesco não é nenhum Daniel Dantas, a briga será boa. Ela melhorou com a entrada em cena de um novo ator, o magnata Eike Batista.
Batista e Agnelli são empresários-celebridade. Em uma semana o presidente da Vale fala mais que Augusto Trajano de Azevedo Antunes, o grande potentado do minério brasileiro, em todos os seus 90 anos de vida. Eike Batista, o fulgurante bilionário do conglomerado dos X, faz força para ser Warren Buffett, mas a cada dia parece-se mais com Donald Trump. Ele quer comprar uma parte das ações do Bradesco, senão todas. Numa trapaça da história, Eike é filho do grão-duque da Vale estatal, o engenheiro Eliezer Batista.
Brigas desse tipo estimulam uma tendência para se tomar partido logo que o jogo começa. É muito melhor acompanhá-las dando razão aos dois lados. A Viúva tem as ações e não manda? Os fundos de pensão querem mandar para mensalar a Vale? Eike Batista sentado no conselho da empresa terá mais a oferecer que os atuais mandarins? Ele viria a ser a esperada figura do bilionário-companheiro do PT? Se a Vale despejar dinheiro em projetos industriais brasileiros fará bem ao país ou à megalomania dos sábios do Planalto?
Uma coisa é certa: a permanência ou a saída de Agnelli na presidência da Vale é uma irrelevância diante da verdadeira briga, pelo controle da segunda empresa do país. A primeira é a Petrobras e já está dominada.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Ao mestre, com desprezo

Em março, um professor de história, filho de um amigo meu, foi desacatado em sala por três alunos num colégio em Moema, zona sul de São Paulo. O mestre deu queixa na diretoria. Esta apoiou os desordeiros. O professor pediu demissão e foi para casa, onde teve uma crise nervosa. Passa agora por uma síndrome do pânico. A orientadora da escola, única pessoa a apoiá-lo, foi demitida.
Este é um colégio de classe média, em que os alunos se sentem com privilégios pelo fato de pagar altas mensalidades. Mas, nas escolas públicas, a realidade é ainda pior. Mais de cem casos de alunos que desrespeitam professores são relatados diariamente à Secretaria Estadual da Educação de São Paulo por um sistema de registro de ocorrências do gênero. A maioria dos casos vem da região metropolitana de São Paulo.
São alunos que desprezam a liturgia da escola, saem da sala sem autorização do professor e o ofendem verbalmente quando ele ousa protestar contra a zorra. Usam toda espécie de aparelho eletrônico durante a aula, de celular a iPod, e, certos da impunidade, destroem equipamentos ou instalações da escola na frente dos colegas e funcionários. Uma das principais diversões é pôr fogo nas lixeiras.
É o terror. As escolas cogitam instalar câmeras em suas dependências, para ter provas documentais contra os vândalos e padronizar as informações, o que permitirá estabelecer estratégias de combate à violência. Mas nada impede que os cafajestes -difícil chamá-los de alunos- roubem também as câmeras e riam das estratégias.
Os jovens valentões que agrediram o professor em Moema (aliás, com o apoio da classe) foram expulsos do colégio meses depois. Mas não por indisciplina. Deixaram-se apanhar traficando drogas dentro das instalações.

Texto de Ruy Castro na Folha de Paulo de 13/10/09

domingo, 11 de outubro de 2009

O Brasil das mulheres é mais educado

As mulheres, em 2008, já tinham mais de um ano de estudo em comparação com os homens: 9,2 anos


A UNIVERSIDADE de São Paulo decidiu selecionar, neste ano, estudantes de escolas públicas do ensino médio para passar um ano dentro dos seus laboratórios, onde conviveriam com pesquisadores e aprenderiam a pensar como cientistas. Dos escolhidos para ganhar essa bolsa de iniciação científica, 80% são meninas.
Traduzindo o emaranhado de estatísticas sociais divulgadas pelo IBGE na sexta-feira passada, dá para ver que essas meninas que entraram nos laboratórios não são um fato isolado -e serve para comemorar o Dia da Criança, celebrado amanhã.
O que chama a atenção é menos as informações sobre as crianças, mas sim o que vem ocorrendo com as mulheres -ou seja, com as mães ou futuras mães.
Um dos fatos novos da paisagem social brasileira é a mudança da mulher. A mulher superou a escolaridade dos homens, não para de crescer sua posição no mercado de trabalho e consegue planejar melhor o número de filhos. O que, em síntese, significa dizer que as crianças estão menos desprotegidas.


A situação geral é ruim, como mostraram mais uma vez as estatísticas. De acordo com o IBGE, cerca de metade dos brasileiros até 17 anos viviam, no ano passado, em famílias pobres -menos de meio salário mínimo per capita. No NE, sobe para 67%. É ruim, mas seria ainda pior sem o programa Bolsa Família.
Até se verificaram avanços na matrícula em creches. Mas não passaram de 18% do total de criança. Ainda, portanto, muito pouco. Mais expressivos são os avanços da mulher, o que sugere, para o futuro, uma infância menos vulnerável.


As mulheres têm menos filhos, segundo os dados do IBGE, reafirmando uma tendência de muitos anos. Vejam os números absolutos -e aí a estatística impressiona.
Em 1998, foram cerca de 700 mil partos em adolescentes entre 10 e 19 anos; agora, são 485 mil.
Refletindo o que ocorre nos grandes centros, o movimento na cidade de São Paulo é ainda mais intenso, segundo informações de autoridades de saúde paulistas. Em 2000, registraram-se 34.608 casos de gravidez precoce; em 2007, 24.296, ou seja, uma queda de 30%. Por causa de uma série de programas como a distribuição de anticoncepcionais (inclusive pílula do dia seguinte) no metrô e estações de trem, a tendência é se acelerar.


O melhor preservativo, porém, está mesmo na cabeça. As mulheres, em 2008, já tinham mais de um ano de estudo em comparação com os homens: 9,2 anos. Em cada cem pessoas com ensino superior, 57 são mulheres -é só uma questão de tempo para ganharem mais do que os homens.
Em 2008, 47% das mulheres estavam empregadas; em 1998, 42%.


Há uma série de consequências previsíveis no fato de a mulher ter mais emprego e escolaridade. O debate sobre a qualidade de ensino só tende a crescer. Não será por muito mais tempo que provocará pouco barulho os exames mostrando que os alunos saem das escolas públicas sem ler nem escrever direito.
Tende a crescer -e muito- a pressão por mais creches. Até porque é consenso entre estudiosos sobre a importância de estimular as crianças nessa idade. Certamente haverá mais pressão para as várias ações, espalhadas em saúde, lazer, esporte, cultura, que signifiquem o desenvolvimento de habilidades.


Educação em tempo integral irá, em breve, para o topo da agenda.
Não precisará ser todo o tempo na escola, mas em alguma atividade educativa. Uma das notícias mais interessantes sobre a infância brasileira é a expansão da jornada escolar, com uso complementar dos espaços da cidade. Para a mulher que trabalha, dá mais segurança saber que o filho está menos na rua ou trancado em casa vendo televisão.
Não é à toa que os prefeitos que implantaram educação em tempo integral tiveram reconhecimento nas urnas nas eleições passadas.
Uma das mais férteis decisões de Lula (e quase desconhecida) foi criar um fundo para dar mais dinheiro aos prefeitos e governadores que ampliarem a jornada escolar.


É uma agenda, vamos reconhecer, mais sofisticada do que as dos homens. Digo isso porque, nas reuniões de pais e mestres das escolas públicas, quem vai mesmo (isso quando vai) é a mãe.


PS - Pelos meus critérios, foi muito mais importante para a paisagem do Rio ter implantado, em suas regiões mais pobres e violentas, um programa de bairros educativos, com ampliação da jornada escolar, do que as Olimpíadas. Esperem para ver.
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De Gilberto Dimenstein na Folha de São Paulo de 11/10/09

sábado, 10 de outubro de 2009

MST: nós financiamos o terrorismo

Terror que você paga

Sai do seu bolso o dinheiro de quem sobe num trator e destrói sete mil pés de laranja

O motorista era apenas um dos nossos empregados, quase um funcionário público. No Brasil de hoje, o MST é um braço oficial do Estado. E somos o único país do mundo que financia seu próprio terrorismo. Pagamos para que eles destruam plantações, invadam ministérios, depredem o Congresso e, em situações extremas, cometam até assassinatos, que chegam a ser classificados como atitudes "arrojadas" pelo ministro da Justiça, Tarso Genro.Sete mil pés de laranja no chão. Derrubados por um trator conduzido por um integrante do MST, numa fazenda invadida no interior de São Paulo. Mas quem era mesmo o cidadão anônimo, protegido por um boné, que dirigia o trator? Um lavrador, um camponês, um marginal? Não, os pés que aceleravam aquela máquina eram meus, seus, de cada um dos brasileiros.

De janeiro a setembro de 2009, diversas entidades ligadas ao MST já receberam mais de R$ 15 milhões em convênios firmados com o governo federal - nos últimos quatro anos, foram mais de R$ 50 milhões. A mais forte delas é a Associação Nacional de Cooperação Agrícola, a Anca. E o que se faz com o dinheiro, quase ninguém sabe, porque não há prestação de contas. Justamente por isso, deputados e senadores passaram a recolher assinaturas para instalar uma CPI mista sobre o assunto. Ela só não saiu até agora porque o governo, que deveria ser o maior interessado em dar transparência ao que se faz com o dinheiro público, tem usado suas verbas e o peso de sua maioria para barrar qualquer iniciativa parlamentar contra os sem-terra.

Nesse jogo, o líder da bancada do MST no Congresso tem sido o próprio presidente do Senado, José Sarney. Como ainda tem contas a pagar à sociedade e dívidas de gratidão com o governo Lula, ele passou a defender os invasores e disse ser contra a "criminalização" dos movimentos sociais. Rezando pela cartilha do PT, o senador do Maranhão tem conseguido manter intacto um dos maiores latifúndios improdutivos do País - o do setor elétrico, que é quase uma capitania hereditária concedida por Lula à família Sarney.

Intocáveis, inimputáveis e cada vez mais ousados, os líderes do MST já mandam no Executivo, no Legislativo e intimidam o Judiciário. Recentemente, o promotor de Justiça Gilberto Thums desistiu de mover ações contra o movimento por se sentir ameaçado. Recebeu gravações de suas conversas e foi vítima de um atentado. "Se a luta não for de todos, não é de ninguém", disse Thums, ao jogar a toalha. Ele fez bem. No Brasil de hoje, cada vez mais acovardado, somos todos sem-terra. Terroristas e exterminadores de pomares.

Texto de Leonardo Attuch

http://www.terra.com.br/istoe/edicoes/2083/leonardo-attuchterror-que-voce-pagasai-do-seu-bolso-o-dinheiro-153680-1.htm

Meu comentário: Na época da ditadura os salários dos terrorista de direita eram pagos pelo contribuinte, agora os contribuintes pagamos o terrorismo do MST

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Solidariedade

SE HÁ UM PAÍS responsável pela preservação de condições básicas de alguma vida saudável em nosso planeta este país é o Brasil. Não obstante, continuamos a ser o alvo preferencial de críticas de um grande número de organismos supranacionais exatamente quanto aos métodos que utilizamos na exploração dos recursos naturais. Uma das mais recentes, totalmente precipitada e sem nenhuma demonstração empírica, foi a de que "a expansão do plantio de cana é responsável pelo desmatamento do cerrado brasileiro".
Trata-se de rematada tolice, pois é sabido que a cana-de-açúcar se expande em áreas do cerrado que já eram exploradas por outras atividades, como a pecuária. O Brasil construiu a matriz energética mais limpa do planeta Terra e hoje utiliza 40% de energia renovável. Os demais países usam 10% razoavelmente limpos, e 90% sujam. Continuamos investindo na ampliação da oferta da hidroenergia e somos dos mais eficientes do mundo na substituição por energia que gera menos emissões de CO2 e, portanto, produz menor efeito sobre o aquecimento global.
Nem por isso deixamos de expandir a produção de alimentos, que está ajudando a aliviar a fome no mundo e garante a autonomia alimentar de nosso povo. Nos últimos cinco anos, aumentamos o volume físico das exportações de milho (180%), soja (70%), carne bovina (300%), carne de frango (200%) e produtos suínos (300%). E a produção de açúcar aumentou, ao mesmo tempo em que crescia a oferta do etanol.
O Brasil tem grande disponibilidade de terra, de mão-de-obra que se aperfeiçoa visivelmente e de tecnologia desenvolvida principalmente nos últimos 30 anos, desde a criação da Embrapa. Desenvolvida em nosso solo, com base nas condições do cerrado brasileiro, essa tecnologia dominou a agricultura tropical. O cerrado, que era "uma coisa inservível", transformou-se, por obra e graça das pesquisas da Embrapa, no maior ativo brasileiro e num grande acervo da humanidade.
Não avançamos muito apenas no uso da tecnologia para a solução dos nossos problemas vitais de energia e de alimentação. O Brasil vai além quando coloca à disposição de países mais pobres, na África e na Ásia, os resultados das pesquisas que possibilitaram a produção econômica de alimentos nas terras antes inóspitas dos cerrados. E, ainda, a tecnologia de desenvolvimento do etanol. Sem cobrança de royalties. É uma ação solidária importante, que nos diferencia do resto do mundo, onde nações desenvolvidas cobram fortunas para ceder um frasco de remédio que poderia evitar a mortandade pelo HIV nos países pobres.

Antônio Delfim Netto na Folha de São Paulo de 07/10/09

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Olim-Piadas 2016 - Será realmente necessario gastar tanto dinheiro,enquanto falta TUDO no Estado e no País?


OLIM-PIADAS 2016


Todo mundo feliz que o Rio vai sediar as Olimpiadas 2016. E os governantes do Rio mais ainda. São eles que vão superfaturar as obras olímpicas, passar a mão na nossa grana e investi-la no tráfico de drogas. E o povo comemora!



Nos Jogos Pan-Americanos 2007 o Rio não cumpriu quase nenhuma das promessas/exigências. Mas vamos nos alegrar! É dada uma nova oportunidade para não cumpri-las de novo!



Minha amiga Denise Dambros jura de pé junto que os responsáveis pelos fogos de abertura dos Jogos Olímpicos 2016 serão os traficantes do morro.



Ela disse também que a Olímpiada pode ser confusa. Os corredores nunca saberão ao certo se aquilo que acabaram de ouvir foi mesmo o tiro de largada.



Eu já posso até dar meus palpites de quem leva o maior número de ouro pra casa: Os trombadinhas. E os governantes e as empreeiteiras de seus compadres, claro. Já tinha falado disso no começo do texto.



Quando o atleta chegar no podium vai ter um flanelinha guardando seu lugar.



Aposto que os atletas estarão liberados do exame anti-doping, afinal, como proibir que desfrutem da maior fonte de renda da cidade?





As Olimpíadas do Rio será a prova definitiva que o Michael Phelps realmente é o melhor do mundo. Se ele conseguir bater algum recorde nadando com o colete a prova de balas, então ele é o cara.



Isso tudo é piada de mal gosto. Me perdoem. O Rio em 2016 será tranquilo e perfeito. A polícia vai fazer um acordo com os traficantes que será mais ou menos assim: “Deixem a época olímpica em paz e nós deixaremos vocês dominarem o Rio em paz durante um longo período depois”. E o povo comemora. O importante é o final feliz da novela de mentirinha, não importa que serão reféns depois que a cortina do espetáculo fechar.




Meus pais pareciam chatos e duros quando eu era criança. Mas quando eu cresci vi que eles tinham razão. Eles só deixavam eu comer a sobremesa se antes comesse todo o arroz com feijão. Isso me garantiu um crescimento saudável. Eu estaria muito feliz com as Olimpiadas no Brasil se antes disso esse mesmo Brasil tivesse uma justa distribuição de renda, ensino e saúde de qualidade e se a cidade sede dos Jogos Olimpícos não fosse também a cidade sede de tanta familia desfeita por drogas, morte violenta e fonte de hipocrisia e corrupção aliada ao tráfico de drogas. Como eu seria hoje se comesse a sobremesa sem comer antes os legumes? Banguelo, anêmico, obeso, com deficit de vitaminas e achando que posso fazer qualquer coisa quando na verdade não passo de um tremendo idiota. O Brasil devia comer mais arroz e feijão antes de provar a sobremesa.




Quando Lula disse que "não é porque o Brasil tem problemas que não pode sediar uma Olimpiadas" ele enraizou ainda mais no consciente do zé povinho o que move (ou deixa de mover) o brasileiro: A idéia que merecemos as coisas por esmola. “Não somos melhores que Chicago, Madrid e muito menos que Tóquio. Definitivamente não merecemos mais que eles... mas poxa... dá as Olimpiadas de esmolinha ai pelo amor de Deus... somos pobrezinhos... vai...”




Lula chorou quando o Rio ganhou as Olimpiadas. Ele deveria chorar quando visita um hospital público ou anda num onibus nesse mesmo Rio. E não estou dizendo do Rio Zona Sul, cartão postal, lindo, onde quem tem uma certa grana vive feliz e confortável. Estou dizendo dos outros 70% do Rio, esquecidos pelo País porque não são interessantes pra ser cenário de novela (apenas pra ser cenário de filme de chacina policial). O caminho que o turista faz do aeroporto pro hotel não passa por esse Rio que não foi retratado naquele vídeo da campanha. Fernando Meirelles desviou a camera desse Rio, assim ninguém se incomoda. No Rio das Olímpiadas o carioca desse outro Rio que estou falando é tão turista como outra pessoa qualquer.




Mas vamos comemorar! Finalmente o Brasil terá a enorme honra de ter o mundo inteiro olhando só pra ele em 2016 enquanto assiste Estados Unidos, China, Cuba, Alemanha, Reino Unido, França, Itália, Suécia... nos derrotando em nosso próprio solo.




Brasileiro se acha tão feliz e malandro mas no podium dos otários é sempre o recordista.




O progresso acontece quando você perde mais tempo se incomodando com as coisas ruins do que se acomodando com as coisas boas.


Danilo Gentili

(Danilo Gentili Júnior,nascido em Santo André, 27 de setembro de 1979) é um publicitário, humorista, escritor, cartunista e repórter brasileiro. Faz parte da nova geração de humor, a da stand-up comedy. Ganhou projeção nacional com seu sucesso como integrante do programa humorístico Custe o Que Custar (CQC), da Rede Bandeirantes. fonte : Wikipédia)


domingo, 4 de outubro de 2009

Plantas tóxicas são perigo para crianças

Veja lista de dez plantas que podem causar intoxicação

Comigo-ninguém-pode é a que registra mais casos de intoxicação.
Segundo estudo, crianças são as principais vítimas.

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Plantas usadas como ornamentais podem ser perigosas (Foto: Divulgação/CIT RS)

Azaléias, copos-de-leite, alamandas. É muito comum encontrar estas flores enfeitando casas. O que muita gente não sabe é que, embora bonitas, elas são tóxicas.


Foram quase dois mil casos de intoxicação em todo o país em 2007, segundo os dados do Sistema Nacional de Informações Toxico Farmacológicas (Sinitox). A planta mais traiçoeira é o comigo-ninguém-pode.


Rosany Bochner, responsável pelas estatísticas do Sinitox, afirmou ao
G1 que um levantamento feito no Rio Grande do Sul, também em 2007, apontou que dos 384 casos de intoxicação causados por plantas, 109 foram causados pelo comigo-ninguém-pode.


Rosany explica que a planta é famosa por "espantar o mau-olhado" e por isso é tão comum nas casas. A forma de intoxicação mais comum é através da seiva da planta, que pode entrar em contato com a pele durante da poda.

Saiba as dez plantas que causam mais casos de intoxicação, segundo estudo do Centro de Informação Toxicológica do Rio Grande do Sul (CIT/RS):

1º Comigo-Ninguém-Pode (109 casos) Características Sintomas

(Foto: Divulgação/CIT RS)

Comuns nas casas pela crendice popular de espantar o mau-olhado. Todas as partes da planta podem causar intoxicação pelo toque ou ingestão.

Os sintomas mais comuns são sensação de queimação na pele, inchaço nos lábios, boca e língua, vômitos, enjôo, diarréia, asfixia.

Quando entra em contato com os olhos, pode causar irritação e lesão da córnea.

2º Coroa-de-Cristo (26 casos) Características Sintomas

(Foto: Divulgação/CIT RS)

Muito encontrada nos cercados das casas por ter espinhos.

A intoxicação acontece quando tocada em qualquer parte ou pela seiva.

Os sintomas da intoxicação são distúrbios gastrointestinais, salivação em excesso, vômitos e queimaduras.
3º Costela-de-Adão (22 casos) Características Sintomas

(Foto: Divulgação/CIT RS)

Freqüentemente usada com fins ornamentais.

A intoxicação acontece com a mastigação e ingestão das folhas.

A mastigação e ingestão das folhas podem causar irritação de mucosas, inchaço de lábios e garganta, náuseas e vômitos.
4º Avelós (15 casos) Características Sintomas

(Foto: Divulgação/CIT RS)

A Avelós é um arbusto que pode chegar aos 5 metros de altura.

O que causa intoxicação é o látex em contato com a pele ou quando ingerido.

Quando a vítima ingere o ramo da avelós, o principal sintoma é a irritação gastrointestinal.

Já o contato com a pele causa queimaduras e inflamações.

5º Mamona (15 casos) Características Sintomas

(Foto: Divulgação/CIT RS)

É a semente da mamona que causa a intoxicação.

A bióloga do CIT/RS, Maria Gorete Rossoni, afirma que a forma mais comum de intoxicação é pela ingestão, mas não é a única. “Também pode acontecer a intoxicação em laboratórios de extração do óleo da mamona, no contato pela pele ou ao respirar o vapor”, contou a bióloga ao G1.

Os sintomas mais típicos da ingestão da semente da mamona são vômitos e diarréia.

Alguns casos mais graves podem levar à morte. Maria Gorete explica que uma proteína da semente pode causar uma diarréia muito forte, desidratando a vítima.

6º Aroeira-Brava (13 casos) Características Sintomas

(Foto: Divulgação/CIT RS)

A seiva da aroeira-brava possui princípios alérgicos.

A árvore pode chegar a sete metros.

Todas as partes podem causar efeitos alérgicos com o contato.

O contato provoca reações alérgicas na pele, como bolhas, vermelhidão e coceira.

A ingestão pode causar manifestações gastrointestinais.

7º Pinhão de Purga (12 casos) Características Sintomas

(Foto: Divulgação/CIT RS)

O que causa a intoxicação são as sementes do fruto desta árvore.

A ingestão e, principalmente a mastigação, fazem os sintomas se manifestarem rapidamente.

Os sintomas mais comuns são dor abdominal intensa, vômitos, diarréia.

O contato do látex com a pele causa dermatite.

8º Cinamomo (9 casos) Características Sintomas

(Foto: Divulgação/CIT RS)

Muito utilizada na arborização urbana.

Os frutos produzem espuma quando misturados na água.

São estes frutos que causam intoxicação quando ingeridos.

A ingestão causa aumento de salivação, náuseas, vômitos e diarréia.
9º Copo de Leite (7 casos) Características Sintomas

(Foto: Divulgação/CIT RS)

Muito utilizada para enfeitar ambientes.

Qualquer parte da planta pode causar intoxicação.

A ingestão de partes da planta causa irritação das mucosas, com dor e queimação.

O contato com os olhos pode provocar irritação.

10º Leiteiro Vermelho (5 casos) Características Sintomas

(Foto:Divulgação/CIT RS)

Arbusto com folhas coloridas de vermelho escuro.

O que causa intoxicação é o látex.

O contato do látex com a pele, pode causar queimaduras.

A ingestão de qualquer parte da planta pode ocasionar irritação gastrintestinal.

As mais perigosas


A bióloga Maria Gorete Rossoni informou ao
G1 que as plantas tóxicas mais perigosas são a espirradeira, a mandioca-brava e o chapéu-de-napoleão. A ingestão delas pode causar distúrbios cardíacos e levar à morte.


A espirradeira é uma árvore que pode chegar a 4 metros de altura e tem flores brancas e rosas, que assim como as outras partes, também são tóxicas. O chapéu-de-napoleão também é uma árvore e dela nascem flores amarelas. A ingestão das sementes do fruto causa problemas cardíacos que podem levar à morte.


A mandioca-brava é um arbusto que cresce até 2 metros. As raízes são utilizadas como alimento. Abaixo da casca do caule existe um látex tóxico, que pode causar fortes dores abdominais e coma.

Crianças


Dos 1.664 casos registrados pelo Sinitox, as crianças entre 1 e 4 anos correspondem a 676 casos.

Não é à toa que as crianças são as maiores vítimas de intoxicação por plantas. Para a bióloga Maria Gorete, as crianças são as mais afetadas porque não sabem diferenciá-las. "A maioria dos arbustos venenosos é usada em decoração. Por esse motivo, são tão freqüentes em casas e jardins, o que aumenta o perigo de intoxicação em crianças", afirma. De acordo com dados do CIT/RS, mais de 80% dos casos de intoxicação são sofridos por crianças de 2 a 9 anos.

Como se prevenir e o que fazer


A primeira medida que o Sinitox recomenda é que as plantas venenosas sejam deixadas fora do alcance das crianças. Também é importante não incentivar que as crianças brinquem com plantas, seja qual for. Em caso de dúvida se a planta possui alguma substância tóxica, ela pode ser levada aos CIT dos estados para a avaliação.


O órgão também desaconselha que se preparem chás com plantas sem orientação médica. Utilizar folhas e raízes desconhecidas como alimento também deve ser evitado. Nem sempre o cozimento elimina a toxicidade da planta.


Para evitar que a seiva das plantas tóxicas entrem em contato com a pela, é recomendado lavar bem as mãos após a jardinagem. Além disso, a bióloga Maria Gorete avisa que, sempre que possível, sejam utilizadas luvas para o manuseio de plantas. "Caso a pessoa já tenha ingerido o arbusto, é preciso levar a pessoa imediatamente para um pronto-socorro, e, se possível, com uma parte da planta ingerida para que os médicos possam identificá-la e fazer o tratamento adequado", explica.

As mulheres pedofilas


As mulheres e a pedofilia


É com uma certa frequência que, infelizmente, ouvimos falar de casos de abuso sexual contra crianças. Nos últimos anos, ficamos chocados ao ver vários homens - entre eles até padres e médicos - acusados de pedofilia. Nesta semana, a população inglesa ficou estarrecida com um caso incomum: duas mulheres confessaram ter abusado de crianças.
Além de responderem por esse crime, Vanessa George (foto), que trabalhava em uma creche, e Angela Allen também estão sendo acusadas de tirar fotos indecentes com as crianças e enviá-las para o empresário Colin Blanchard. Ele era amigo das duas no Facebook, onde os três trocavam mensagens sobre suas fantasias sexuais doentias, mas só as encontrou pessoalmente no tribunal. A investigação que culminou com a prisão dos três teve início quando uma colega de trabalho de Colin, ao usar seu computador, viu a foto de uma criança e o denunciou à polícia.
Embora Angela, Vanessa e Colin sejam acusados dos mesmos crimes, há um agravante contra Angela: ela trabalhava em uma creche e pode ter feito muitas vítimas. Os pais das 60 crianças que passaram pela escolinha Little Ted, em Plymouth, enquanto Angela trabalhava lá agora querem saber se seus filhos sofreram ou não abuso. Pelas fotos, que não mostram o rosto, não é possível identificar a maior parte das vítimas. E muitas vezes o abuso não deixa marcas físicas, especialmente quando é cometido por mulheres.
Esse caso gerou em mim total ojeriza por inúmeras razões. Uma delas é que Angela George de fato cometeu o crime de que foram injustamente acusados os donos da Escola Base, em São Paulo; e, ao cometê-lo, criou uma desconfiança generalizada entre os pais sobre as creches e escolinhas que seus filhos frequentam, um verdadeiro pesadelo. Outro motivo é porque Angela é uma mulher. Não que os homens tenham qualquer desculpa para praticar tais atos horrendos, mas pensar que até uma babá pode ser pedófila é, no mínimo, perturbador.
Mais perturbador ainda é o caso narrado em uma reportagem do jornal The Independent que li pouco tempo atrás. Ela trazia o depoimento de Sharon Hall (nome fictício), uma mulher que, durante toda a infância, havia sofrido abuso sexual por parte da própria mãe, a pessoa que, mais do que qualquer outra, deveria amá-la e cuidar dela. Quando tentou falar sobre o assunto com seu médico, já aos 30 anos e grávida de sua própria filha, Sharon ouviu que as acusações eram fantasias de sua cabeça, preocupações neuróticas de uma futura mãe.
Segundo a reportagem, há mesmo uma certa tendência a desacreditar as denúncias de abuso que recaem sobre as mulheres - talvez assim como eram desacreditadas as denúncias de pedofilia contra homens algumas décadas atrás. A mulher, vista como aquela que cuida das crianças, pode não se encaixar mesmo no estereótipo de agressor, mas isso não quer dizer que não existam casos de abusos cometidos por elas. E esses crimes precisam ser investigados e suas responsáveis, presas.
Outro fato que dificulta a situação das vítimas é as agressões acontecerem, em sua maioria, dentro de casa. São mães, tias, avós e babás que destroem a noção do cuidado e deixam completamente vulneráveis suas crianças.
Com esse post, não quero dizer que devemos olhar com desconfiança a enfermeira da creche, a babá, a tia ou a mãe, mas quero trazer à tona o abuso sexual cometido por mulheres, um tremendo tabu hoje em dia. Como demonstra o caso da Inglaterra, trata-se de um crime tão grave quanto o perpetrado por homens. E, para a pedofilia, quem quer que seja o acusado, a resposta vem da Justiça, com pena na prisão.

sábado, 3 de outubro de 2009

Cidade feliz

RIO DE JANEIRO - Há tempos, escrevi num livro que, assim como os londrinos são bons em táxi, guarda-chuva, pigarro, cachorro e consciência de classe, e os parisienses, em baguete, boina, livro usado, cigarro sem filtro e bidê, o carioca sempre se orgulhou de seu know-how em botequim, sandália de dedo, frescobol, caldinho de feijão e botar apelido nos outros. Pois logo poderá somar outro item a seu currículo: organizar grandes competições esportivas.

O Rio receberá os Jogos Mundiais Militares em 2011, a Copa das Confederações em 2013, a Copa do Mundo em 2014 (abrigará, entre outros, o jogo final, além de ser sede da seleção, da Fifa e do centro de imprensa) e, agora, a Olimpíada e a Para-Olimpíada em 2016. Ou seja, há espaço na agenda para 2012 e 2015. E, até que se acenda a chama olímpica, ainda teremos sete Carnavais e outros tantos verões e Réveillons.
Estamos numa maré boa. Nos últimos meses, o Rio ganhou o título de "cidade mais feliz do mundo" (segundo pesquisa de um instituto americano com 10 mil pessoas em 20 países), foi considerado (pelos entendidos) o "melhor destino gay do mundo" e se tornou a primeira cidade da América do Sul a merecer uma edição do Guia Verde Michelin, com 20 lugares agraciados com a cotação máxima de três estrelas e 40 com duas.
Junte a isso a boa colocação do Rio como polo nacional do audiovisual e de pesquisa acadêmica nas áreas de saúde, biologia, biotecnologia, petróleo, astronomia e humanas em geral -e, acrescento eu, da baixa gastronomia, conceito criado aqui e irradiado para as demais potências- para entender como, depois de tanto apanhar, nossa autoestima tem melhorado muito.
Mas, como diria o carioca Noel Rosa, o Rio não quer abafar ninguém. Só quer mostrar que faz Olimpíada tão bem.

RUY CASTRO

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0310200905.htm


sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Olimpíadas e aviões

As concorrências do dia
Na disputa pela Olimpíada de 2016, muita coisa sugere que a vitória verdadeira dos cariocas estará na derrota
AS DUAS CONCORRÊNCIAS que têm no dia de hoje um marco importante -uma como ponto de chegada e a outra como ponto oficial de partida- exibem três aspectos em comum: são controvertidas, têm custos desproporcionais às disponibilidades e não correspondem a necessidades reais. Olimpíada e avião de caça, não sabíamos, são bem parecidos.

Na disputa do Rio pela Olimpíada de 2016, muita coisa sugere que a vitória verdadeira dos cariocas estará na derrota. Olimpíadas exigem gastos monstruosos.


O Pan, de exigências e dimensões insignificantes em comparação com uma Olimpíada, em vez do propalado lucro deixou um fundo rombo no Rio, no Estado do Rio e no governo federal. Com esse montante jamais informado à sociedade pelos três governos, deixou também um rastro de falsos orçamentos, superfaturamento e gastos injustificáveis que ficaram na mais absoluta impunidade, mesmo nos casos comprovados pelo Tribunal de Contas da União ao fim de dois anos de protelação. E vários dos responsáveis pelo Pan são agentes da Olimpíada. Só para chegar à decisão de hoje em Copenhague, a estimativa é que já foram gastos entre R$ 150 milhões e R$ 200 milhões, o que já oferece pistas em diversos sentidos.


O Estado do Rio não tem dinheiro para bancar a sua parte em uma Olimpíada, como evidenciam as infinitas necessidades, gritantes na maioria, para as quais também não tem. Entre o disponível e as necessidades, a situação da Prefeitura do Rio não é melhor.


A Olimpíada significa, portanto, dois efeitos simultâneos sobre as duas administrações: deslocamento de verbas para os altíssimos custos e endividamento a comprometer fluminenses e cariocas por longo período. E essas obras de Olimpíada não trariam para o Rio as melhorias alegadas, porque nada têm a ver com as necessidades prioritárias. Assim como, para a cidade, as tais melhorias a serem deixadas pelo Pan só deixaram gastos.


Os quase dez meses de Eduardo Paes têm dado à administração da cidade movimentação e atenções que havia muito não se viam. Ainda nem tanto em termos de resultado, mas de clima, esse é um fator muito positivo que, em vez de ampliar-se para provocar uma grande virada, seria interrompido, pela concentração de todo o empenho municipal na preparação da Olimpíada.
E, cá entre nós, depois da grandiosidade e da beleza estupenda da Olimpíada na China, a pretensão de fazer uma por aqui não é ideia das mais equilibradas, não.



Mas interesses, é claro, são outra história.


Os nossos atletas dos negócios olímpicos foram-se para as alturas do Hemisfério Norte e de lá vieram os representantes da Boeing, que fica no extremo noroeste dos Estados Unidos, e da Saab, que é na Suécia. Estes, mais do que para fazer hoje a entrega das propostas de seus caças, por preocupação com as reiteradas manifestações do governo brasileiro pelos aviões franceses. Já os representantes da Dassault -messieurs Sarkozy, Lula e Jobim- estão despreocupados até da queda em má hora de dois dos seus produtos. Na expressão sucinta e grossa de monsieur Jobim, "não tem a ver", e ponto.


Mas tem. Nelson Jobim diz que a intenção é dar tudo por resolvido em dezembro. Encerra-se o prazo das propostas, porém, sem que a recente queda de dois caças da Dassault (Rafale) esteja explicada. O choque por erro humano é apenas presunção. A qual não exclui a hipótese, por exemplo, de que um súbito defeito levasse um dos caças a chocar-se com o outro, nos retornos que faziam juntos para o pouso. E não é pouco estranho que os radares do porta-aviões Charles de Gaulle não tivessem registrado o choque dois caças, capaz de explicar ao menos o tipo de movimento que o causou. Sem esquecer que esse novo avião teve mais uma queda, em dezembro de 2007, também sem causa divulgada.
Tudo tem a ver em uma competição limpa, e atenta para os interesses legítimos do país. Seja pensando em confronto esportivo ou confronto bélico.


Texto de Jânio de Freitas na Folha de São Paulo de 02/10/09