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quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Consequências de uma burrice

O nível generalizado de desconfiança que dissolveu instantaneamente a relação de simpatia entre a sociedade e o governo Dilma, foi a descoberta que todo o custoso marketing feito durante a campanha eleitoral era apenas um nevoeiro para esconder uma triste realidade.
A decepção se apossou dos seus eleitores, um pouco mais de um terço do total, ainda que maioria no segundo turno. Hoje estão reduzidos a menos de 10% do total.
E, pior, aparentemente confinados ao gueto do ONGoismo, dos movimentos sociais domesticados e de sindicatos, todos beneficiados ou financiados pelo governo federal. A verdade é que um pouco menos de dois terços dos eleitores já eram contra ela no dia da eleição.
Parte da rejeição ao governo é devida ao conhecimento que a presidente, para reeleger-se, acelerou a crise fiscal anunciada há pelo menos 20 anos. Esta assumiu, agora, o status superior de "estrutural", uma vez que o crescimento da receita (mesmo com os aumentos de impostos de mais de 10% do PIB no período) vão continuar a crescer menos do que a despesa, que é determinada endogenamente, pela vinculação de 90% dos gastos!
Dilma tem dificuldades de lidar com o problema, uma vez que, em 9 de novembro de 2005 –quando era chefe da Casa Civil–, chamou o plano de ajuste fiscal de longo prazo que estava sendo preparado de "rudimentar" e acrescentou que "o tal debate é absolutamente desqualificado e não há autorização do governo para ele ocorrer".
O surpreendente é que todos sabiam que ele estava sendo estimulado por Lula, por sugestão dos ministros Antonio Palocci e Paulo Bernardo.
Para sentir a gravidade da situação atual, em dezembro de 2013 o deficit nominal do governo foi de 3%, contra 6,2% em dezembro de 2014 e estima-se que terminaremos 2015, com um deficit nominal de 7% e, que a relação dívida bruta que era de 53,3% em dezembro de 2014, atingiu 58,9% em 2015 e deve beirar 62% ao final de 2015, um aumento de quase 10% do PIB em apenas dois anos!
Outra parte significativa da rejeição expressa nas "passeatas cívicas", nos "panelaços" etc. parece vir da impressão generalizada que Dilma ignorou a realidade talvez, inconscientemente, como revelou em entrevista. 
Como disse Nietzsche, "as mentiras mais comuns são as que contamos para nós mesmos; as outras são, relativamente, exceções".
É preciso muita sorte e muita arte e engenho para desfazer tal impressão. Restabelecer a confiança da sociedade, é condição preliminar (ainda que não suficiente) para a volta do crescimento econômico que corrigirá todas as coisas.

Texto de Antonio Delfim Netto na Folha de São Paulo de 26/08/2015
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/230804-consequencias.shtml 

O texto acima se completa com outra publicação que fiz aqui, sobre o possível "ajuste de contas" que poderia ter sido feito ainda em 2005, acessem e vejam
http://amorordemeprogresso.blogspot.com.br/2015/08/o-pt-que-perdeu.html


terça-feira, 18 de agosto de 2015

Educação: lição incompleta

Estamos criando uma geração que não se dá conta de que precisa assumir o processo como um todo
Visitei uma amiga que estava com a neta de nove anos e que recebera da filha, mãe da menina, a incumbência de orientar a garota para que ela fizesse todas as tarefas e estudos escolares do dia seguinte durante o período em que ficaria na casa da avó. Solicitada a colaborar, sentei com a garota para ajudá-la a se organizar nos estudos.
Perguntei o que ela tinha de fazer, e a resposta foi: "Ah, não sei, está tudo na agenda. Pode ver lá". Pedi para que ela fizesse isso e soube, então, que ela nunca via a agenda, porque era a mãe que olhava e dizia a ela o que fazer.
"Para que serve sua agenda escolar?", perguntei. "Para minha mãe saber o que eu preciso fazer, para ela escrever e ler os recados da escola e para ela saber quando eu tenho provas. E para eu copiar o que a professora manda."
Muitas escolas usam a agenda com a finalidade de informar os pais sobre o andamento da vida escolar do filho, para que eles se responsabilizem por ela. O problema é que os alunos, independentemente da idade, pouco se importam com a agenda, já que logo percebem que ela é um elo de comunicação entre a escola e a sua família.
O uso –ou o não uso– da agenda pelos estudantes é apenas um exemplo de como as escolas e as famílias não têm percebido a lição que têm deixado de ensinar aos mais novos, relacionada ao entendimento do que vem a ser um processo.
Pense em uma criança ou em um adolescente que você conheça, caro leitor, em uma situação bem corriqueira: tomar banho. Você acha que eles sabem que tomar banho é um processo que tem um começo, um meio e um fim? Não! A maioria pensa que tomar banho é o ato de tomar banho. O início e o final do processo ficam com a mãe, a empregada ou outra pessoa.
Quem tem filhos ouve com frequência a frase "Mãe, me traz a toalha?", separa as roupas que o filho usará depois do banho, coloca a toalha para secar e as roupas sujas em seu devido lugar e...
Estamos criando uma geração que não se dá conta de que precisa assumir o processo como um todo, ou que toma a parte pelo todo. Volto ao exemplo da agenda, porque quase todos nós a usamos. De que adianta anotar os compromissos se não os verificamos depois? De nada, não é? Pois assim tem sido com os mais novos.
E esse estilo de tomar a parte pelo todo não está circunscrito às responsabilidades: está em tudo, inclusive no lazer e na diversão. Ir a uma festa de aniversário para eles significa apenas e exatamente ir à festa. Providenciar um presente –quando for o caso–, pagar por ele, pensar na roupa que irá ser usada, no meio de transporte, etc.? São tarefas da mãe, é claro! Mesmo aos 16, 17 anos...
Já ouvi muita reclamação de empresários, diretores e gerentes sobre como os funcionários mais jovens deixam de cumprir muitas de suas responsabilidades exatamente por isso: falta de clareza pessoal do processo ao qual seu trabalho está integrado. Em geral, eles cumprem o que acham que lhes cabe –o equivalente a tomar banho, ir à festa etc.– e dão sua tarefa por terminada.
Você percebe, leitor, a relação entre os exemplos citados e o comportamento no trabalho? Somos nós que temos ensinado isso a eles, desde muito cedo. Podemos e devemos ensiná-los de modo diferente.

Texto de Rosely Sayão na Folha de São Paulo de 18/08/2015
http://www1.folha.uol.com.br/colunas/roselysayao/2015/08/1670082-licao-incompleta.shtml

domingo, 9 de agosto de 2015

Perfis dos corruptos

Frei Betto escreveu:
Enquanto os corruptos não vão para a cadeia, ao menos nós, eleitores, ano que vem podemos impedi-los de serem eleitos para funções públicas

Manifestações públicas em várias cidades exigem o fim da corrupção na política.

Por que há tanta corrupção no Brasil? Temos leis, sistema judiciário, polícias e mídia atenta. Prevalece, entretanto, a impunidade -a mãe dos corruptos. Você conhece um notório corrupto brasileiro? Foi processado e está na cadeia?
O corrupto não se admite como tal. Esperto, age movido pela ambição de dinheiro. Não é propriamente um ladrão. Antes, trata-se de um requintado chantagista, desses de conversa frouxa, sorriso amável, salamaleques gentis. Anzol sem isca, peixe não belisca.
O corrupto não se expõe; extorque. Considera a comissão um direito; a porcentagem, pagamento por serviços; o desvio, forma de apropriar-se do que lhe pertence; o caixa dois, investimento eleitoral. Bobos aqueles que fazem tráfico de influência sem tirar proveito.
Há vários tipos de corruptos. O corrupto oficial se vale da função pública para extrair vantagens a si, à família e aos amigos. Troca a placa do carro, embarca a mulher com passagem custeada pelo erário, usa cartão de crédito debitável no orçamento do Estado, faz gastos e obriga o contribuinte a pagar.
Considera natural o superfaturamento, a ausência de licitação, a concorrência com cartas marcadas. Sua lógica é corrupta: "Se não aproveito, outro sai no lucro em meu lugar". Seu único temor é ser apanhado em flagrante. Não se envergonha de se olhar no espelho, apenas teme ver o nome estampado nos jornais e a cara na TV.
O corrupto não tem escrúpulo em dar ou receber caixas de uísque no Natal, presentes caros de fornecedores ou patrocinar férias de juízes. Afrouxam-no com agrados e, assim, ele relaxa a burocracia que retém as verbas públicas.
Há o corrupto privado. Jamais menciona quantias, tão somente insinua. É o rei da metáfora.
Nunca é direto. Fala em circunlóquios, seguro de que o interlocutor sabe ler nas entrelinhas.
O corrupto "franciscano" pratica o toma lá, dá cá. Seu lema: "quem não chora, não mama".
Não ostenta riquezas, não viaja ao exterior, faz-se de pobretão para melhor encobrir a maracutaia. É o primeiro a se indignar quando o assunto é a corrupção.
O corrupto exibido gasta o que não ganha, constrói mansões, enche o pasto de bois, convencido de que puxa-saquismo é amizade e sorriso cúmplice, cegueira.
O corrupto cúmplice assiste ao vídeo da deputada embolsando propina escusa e ainda finge não acreditar no que vê. E a absolve para, mais tarde, ser também absolvido.
O corrupto previdente fica de olho na Copa do Mundo, em 2014, e na Olimpíada do Rio, em 2016. Sabe que os Jogos Pan-Americanos no Rio, em 2007, orçados em R$ 800 milhões, consumiram R$ 4 bilhões.
O corrupto não sorri, agrada; não cumprimenta, estende a mão; não elogia, incensa; não possui valores, apenas saldo bancário. De tal modo se corrompe que nem mais percebe que é um corrupto. Julga-se um negocista bem-sucedido.
Melífluo, o corrupto é cheio de dedos, encosta-se nos honestos para se lhe aproveitar a sombra, trata os subalternos com uma dureza que o faz parecer o mais íntegro dos seres humanos.
Enquanto os corruptos brasileiros não vão para a cadeia, ao menos nós, eleitores, ano que vem podemos impedi-los de serem eleitos para funções públicas
De 
CARLOS ALBERTO LIBÂNIO CHRISTO, o Frei Betto, frade dominicano, escritor, assessor de movimentos sociais e autor do romance "Minas do Ouro" (Rocco), entre outros livros.
Na Folha de São Paulo de 15/11/2011
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/8953-perfis-dos-corruptos.shtmlcorruPTos 

O PT que perdeu

Toda a sociedade paga hoje o preço de o PT ter se recusado a discutir uma trava nos gastos públicos

No início do governo Lula, nos anos de 2003 e 2004, o PSDB comportou-se praticamente como um partido da base de sustentação do governo. Diversos projetos importantes para o futuro do país foram apoiados pelos tucanos. Vale lembrar a minirreforma tributária, a minirreforma previdenciária, a Lei do Bem, a Lei da Inovação, todo o pacote de políticas que estimularam o crédito e a Lei das Parcerias Público-Privadas.
O então ministro da Fazenda, Antonio Palocci, costurava a colaboração com possível ingresso da oposição na base de sustentação governista. Visto de hoje, após tudo o que ocorreu, é difícil imaginar tal situação. A história é feita pelos homens e não está escrita.
Palocci perdeu para José Dirceu e Lula, e o PT escolheu antagonizar partidos da centro-esquerda à centro-direita do espectro político-ideológico: PPS, PSDB e Democratas. Essa escolha obrigou as coligações do governo no Congresso Nacional a serem muito heterogêneas ideologicamente, cobrindo da esquerda à extrema direita.
Em razão da enorme heterogeneidade das coligações na era petista, optou-se por compartilhar menos o governo. A participação do PT nos ministérios e no governo em geral passou a ser muito maior do que seu peso relativo na coligação.
A literatura recente de ciência política mostra que os dois instrumentos que o Executivo tem para gerir o presidencialismo de coalizão –compartilhar governo e moedas de troca (principalmente a liberação de recursos para emendas parlamentares)– são substitutos, e não complementares. Quem emprega muito um deles emprega pouco o outro e vice-versa.
Nosso presidencialismo de coalizão transformou-se no atual presidencialismo de cooptação, tocado quase que exclusivamente no varejão da política. Mensalão e petrolão são consequência direta dessa escolha. Essa foi a primeira derrota de outro governo petista possível.
Havia em 2005 reconhecimento por parte de inúmeros atores políticos, da situação e da oposição, de que nosso contrato social projetava trajetória insustentável do gasto público e, portanto, que o aparecimento de gargalos e constrangimentos no front fiscal era somente questão de tempo.
A conversa prosperou, e um grupo de políticos –liderados pelo então deputado Antonio Delfim Netto e pelos ministros Antonio Palocci e Paulo Bernardo– propôs que a sociedade, por meio do Congresso Nacional, discutisse o tema. O objetivo era colocar uma trava na Constituição para que o gasto público parasse de crescer sistematicamente mais rápido do que o produto da economia.
Esse debate está sumarizado na publicação do Ipea de agosto de 2005, que não veio a público, intitulada "A qualidade da política fiscal de longo prazo". Textos de Delfim, Palocci, Paulo Bernardo, Tasso Jereissati e Fabio Giambiagi reconheciam o problema e estimulavam que se avançasse na direção da construção da trava legal ao crescimento contínuo do gasto público.
Já o texto do senador Mercadante, na mesma publicação, ia na direção contrária, considerando que primeiro vem o crescimento. O ajuste fiscal seria consequência. Logo em seguida, em novembro de 2005, a então ministra da Casa Cilvil, Dilma Rousseff, torpedeou o ajuste, qualificando-o como rudimentar.
A proposta ficou para os anais da história dos bastidores da política e caiu no esquecimento. Toda a sociedade paga hoje o preço da segunda derrota de outro PT que era possível.

Texto de SAMUEL PESSÔA, formado em física e doutor em economia pela USP, é pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da FGV
Na Folha de São Paulo de 09/08/2015
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mercado/228914-o-pt-que-perdeu.shtml

Pós escrito em 16/08/2015
A hoje presidente Dilma, que abortou a iniciativa em entrevista no dia 9 de novembro de 2009 ao jornal o "Estado de S. Paulo", quando qualificou o ajuste de "rudimentar", já deixara o Ministério de Minas e Energia e encontrava-se na Casa Civil.
Aos dois agradeço a atenção. Os interessados encontrarão no blog de Mansueto Almeida (https://mansueto.wordpress.com/), em post do dia 13, o link para o texto do Ipea que acabou não vindo a público, além da entrevista ao "Estado de S. Paulo" da então ministra da Casa Civil.


https://mansueto.wordpress.com/2015/08/13/o-ajuste-fiscal-de-longo-prazo-depois-de-10-anos/

terça-feira, 4 de agosto de 2015

ANAC e PT plantando acidentes aéreos


Amadores devem ficar longe da Anac

A nomeação do genro de um senador como diretor da Anac entrará para a história como um dos momentos mais vergonhosos da nossa aviação
A presidente Dilma submeteu ao Senado dois nomes para ocupar a diretoria da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil). Tais nomeações são necessárias porque há meses o principal órgão da aviação civil no Brasil está impedido de deliberar sobre questões estratégicas, pois seu quórum mínimo é de três diretores, mas desde março, a agência conta com apenas dois.
Com as nomeações de mais dois diretores, o governo deveria corrigir o descuido de ter deixado a agência sem quórum para funcionar plenamente. O atraso demonstra o desleixo da Presidência da República com a Anac, com a aviação, com os trabalhadores, com empreendedores e usuários do setor.
Não bastasse a negligência, a Presidência da República também peca pela ilegalidade das nomeações. É fato ainda mais grave a despreocupação com a lei que criou a própria Anac –que diz que seus diretores, para serem confirmados nos seus cargos, devem deter comprovado conhecimentos no ramo.
Por ser uma função estratégica do principal órgão de Estado que regula e fiscaliza todo o setor aéreo, um diretor da Anac precisa conhecer muito bem os assuntos que estão sob a sua responsabilidade.
Qualquer país que se dê ao respeito tem entre os dirigentes de suas respectivas autoridades reguladoras da aviação pessoas que acumularam experiência comprovada, capazes de lidar com as pautas das suas equipes técnicas.
São temas que influenciam diretamente na segurança das operações, envolvem acordos internacionais, regras comerciais, estratégias, operações aeroportuárias, a aviação agrícola, a formação de tripulantes, a certificação de aeronaves, peças e oficinas, dentre outros assuntos da mais alta complexidade.
Não se espera que um diretor da Anac seja um super-herói, sabedor de tudo sobre uma área do conhecimento tão vasto e complexo como a aviação civil. O domínio geral da matéria, contudo, é requisito para quem atuará, por pelo menos cinco anos, como um dos principais líderes do órgão, com mandato definido e não substituível, a não ser por razões muito específicas.
Mas a lógica e o cumprimento da lei, como essas nomeações comprovam, não estão na pauta deste governo. A nomeação de Ricardo Fenelon Junior, um jovem advogado inexperiente no setor, que tem como principal atributo ser genro do senador Eunício Oliveira (PMDB-CE), entrará para a história da aviação brasileira como uma das suas mais vergonhosas passagens.
Especialistas do setor não são contra quem quer que seja, mas têm a obrigação de fazer com que a lei seja cumprida e com que a Anac seja dirigida por profissionais que possuam as qualificações necessárias.
Não por outra razão, rejeitamos –e rejeitaremos sempre– qualquer possibilidade de a diretoria da agência vir a ser ocupada por amadores. A Anac não é e não pode se tornar um balcão de trocas de favores partidários. Estamos falando de um órgão de Estado, se é que o governo entende o que é isso.
Faremos o que for possível para que indicações de profissionais desqualificados sejam vetadas no Senado. O normal é que os exemplos e o decoro sejam práticas vistas de cima para baixo. Não é este o caso, como se vê. Mas no que depender dos especialistas do setor aéreo, amadores ficarão fora da Anac.

domingo, 2 de agosto de 2015

VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA - violência durante o parto

1 em cada 4 brasileiras diz ter sofrido abuso no parto


ÉPOCA lança campanha #partocomrespeito para levantar a discussão sobre os direitos das grávidas e suas famílias

“Você sofreu abusos”. Quando a paranaense Kelly Mafra publicou seu relato de parto em uma comunidade no Facebook para mães, em 2014, não imaginava que o primeiro comentário que receberia seria esse. A experiência na maternidade, no nascimento do primeiro filho, havia ficado muito aquém de suas expectativas mas, até aquele momento, ela não se via como vítima. Ela havia pensado na rudeza da equipe médica como um tipo de mal inevitável. Na sala de parto, não haviam permitido a entrada do marido de Kelly, apesar de o direito ser garantido em lei desde 2005. Quando as dores das contrações chegaram, ouviu: “Na hora de fazer, não gostou?” e “Não grita, vai assustar as outras mães”.

Depois que o bebê nasceu, disseram que ela levaria o “ponto do marido”, para “continuar casada”. No parto normal de Kelly, o médico fez um pequeno corte no períneo (um grupo de músculos que sustenta os órgãos pélvicos) para facilitar a saída o bebê, a episiotomia. Recomendada em alguns casos pela Organização Mundial da Saúde (OMS), no Brasil o procedimento é regra. Kelly não foi avisada. Na sutura, o médico deu um ponto a mais para apertar a abertura da vagina. O procedimento, sem base científica, acompanha a crença de que a vagina se alargaria após o parto, tornando o sexo insatisfatório para o homem. Kelly ainda sente dores, uma vez que a elasticidade normal do órgão foi reduzida. A história de Kelly e de outras mulheres ilustra um drama vivido por uma em cada quatro brasileiras que deram à luz, segundo a pesquisa Nascer no Brasil, coordenada pela Fiocruz: a violência obstétrica.

O termo agrupa atos de desrespeito, assédio moral e físico, abuso e negligência, e só nos últimos anos vem sendo levado a sério por pioneiros na comunidade dos profissionais de saúde, administradores hospitalares e na Justiça. “Ir para uma instituição para ter filho e ser desrespeitada é um problema de saúde”, diz a obstetra Suzanne Serruya, diretora da Organização Pan-Americana da Saúde. Em 2014, a Organização Mundial da Saúde publicou um documento condenando a violência obstétrica. Ela afirma que essas práticas foram consideradas normais até o fim do século XX. Nos anos 1990, já havia atenção ao assunto entre defensores de direitos das mulheres, mas a maior parte da comunidade médica não considerava o tema merecedor de debate. O primeiro documento científico sobre falta de respeito no parto é de 2000. “Por 30 anos, as mulheres se posicionaram dizendo ‘não queremos ser maltratadas'. Finalmente, conseguiram mover instituições a tomar um posicionamento”, afirma Suzanne. Na Venezuela e no México, a legislação vigente em ambos países inclui um tópico específico sobre violência obstétrica. No Brasil, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia a Obstetrícia publicou que é preciso humanizar o parto e que produzirá uma cartilha "de boas práticas em obstetrícia". Para Suzanne, o desrespeito para com a parturiente, sua criança e sua família ainda é uma prática comum e considerada normal em muitos hospitais e maternidades.

A convite de ÉPOCA, as personagens de uma reportagem publicada na edição que está nas bancas, a atriz Grazielli Massafera e a jornalista e apresentadora Astrid Fontenelle posaram para a campanha #partocomrespeito, que ÉPOCA lança agora nas redes sociais, não apenas para as mães nem para as mulheres. Como a reportagem mostra, o parto com respeito é um direito de todos, e importante para toda a sociedade. 

Se você também sentiu vontade de abraçar esta causa, escreva sua mensagem em uma folha, tire uma foto segurando o cartaz e, na hora de compartilhar, use a hashtag #partocomrespeito. Se você foi vítima, mande sua história, com nome completo e telefone, para epoca@edglobo.com.br. As histórias dos leitores serão publicadas no site de ÉPOCA. 


Reportagem de THAIS LAZZERI na revista ÉPOCA
http://epoca.globo.com/vida/noticia/2015/07/violencia-obstetrica-1-em-cada-4-brasileiras-diz-ter-sofrido-abuso-no-parto.html

A GRANDE HISTÓRIA DO FALSO ESTUPRO

Empatia e compaixão podem borrar as regras jornalísticas e provocar erros de grande monta 
Na quinta (30), a revista norte-americana "Rolling Stone" comunicou a saída de seu editor-executivo, Will Dana, após 19 anos na empresa. O que poderia ser só uma troca de guarda, natural de tempos em tempos em qualquer publicação, marca o desfecho de um caso que deve entrar para a história do jornalismo por duas situações exemplares: a estrepitosa divulgação de um falso estupro que pôs uma comunidade universitária sob suspeita, seguida por um processo transparente, corajoso e inédito de (re)apuração e expurgação do relatado.

O inferno da "Rolling Stone" começou em novembro, com a reportagem "Um Estupro no Campus - Um ataque brutal e uma luta por justiça na Universidade de Virgínia". A história é daquele tipo que céticos profissionais considerariam ideal demais para ser verdade. Tinha drama e "timing" nas medidas certas.

Pelo menos cinco universidades americanas registravam casos de alunas que diziam ter sido estupradas por colegas dentro dos campi, e as instituições eram acusadas de tratar as denunciantes com descrédito e de tentar abafar o escândalo.

Nesse cenário, a "Rolling Stone" tirou a sorte grande: achou uma vítima que, em busca de justiça, estava disposta a contar como havia sido estuprada por sete integrantes de uma fraternidade da escola.

A reportagem foi um sucesso instantâneo, com quase 3 milhões de visitas ao site, mais do que qualquer outra sem ser de celebridade publicada até então. Mas a festa durou pouco. Nos dias seguintes, outros veículos entraram no caso e foram levantando inconsistências variadas. Virou, diz Dana, controvérsia nacional.

Atordoada, a "Rolling Stone" decidiu pedir que uma fonte externa e acima de qualquer suspeita investigasse os lapsos de apuração, edição e checagem. Steve Coll, diretor da Escola de Jornalismo de Columbia (NY) e detentor de dois prêmios Pulitzer, topou e chamou dois colegas. O trio trabalhou de graça.

A empreitada levou quatro meses e rendeu um relatório gigantesco. É leitura obrigatória para jornalistas e aspirantes, mas pode ser interessante para qualquer leitor: é uma grande história descrita a partir da autopsia de suas entranhas. A tradução integral do texto está na página digital da ombudsman.

Steve Coll mostra que a revista descuidou de procedimentos que, vistos de fora, parecem óbvios demais para escapar a repórter e editores experientes. Minha opinião é que falhas como essas ocorrem todos os dias, com consequências menos dramáticas e ruidosas.

Ditadas pela visão mais cínica, podem ser uma omissão oportunista, para não correr o risco de espantar um personagem já circunstancialmente arredio. Numa visão mais humanista, podem ser alicerçadas na crença do jornalismo como missão que ajuda a melhorar o mundo. (Ambas não são excludentes.)

Empatia, compaixão, agenda, militância tendem a flexibilizar as regras e –especialmente quando o entrevistado encarna a condição de vítima– borrar os limites do distanciamento necessário entre profissional e personagem. Num quadro delicado como o de um estupro, parece cruel demais fazer perguntas que possam denotar suspeita ou infligir mais sofrimento e humilhação a alguém que está às voltas com o trauma. Não nego que seja, mas é parte indescartável do ofício.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ombudsman/228130-a-grande-historia-do-falso-estupro.shtml