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quarta-feira, 27 de julho de 2011

Drogas: Sem idade para morrer

Está bem, Amy Winehouse morreu com 27 anos, assim como Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison, Brian Jones, Kurt Cobain e outros que ficam na geladeira, todos por problemas relacionados ao uso de substâncias. Os 27 anos são coincidência. Mas há quem veja nisto um significado transcendental, como se esta fosse uma idade fatal para roqueiros.
Vejamos. Elvis Presley morreu aos 42, em 1977; Michael Jackson, aos 50, em 2009; Jerry Garcia, do Grateful Dead, aos 53, em 1995; John Phillips, do The Mamas and the Papas, aos 65, em 2001. E há outros que, com um inacreditável passado de drogas, estão milagrosamente vivos: Ron Wood, aos 64 anos; Eric Clapton, aos 66; Keith Richards, aos 67 -periga se tornarem bisavôs antes de morrer.
No jazz, a droga também ceifou gente de todas as idades. O trompetista Fats Navarro morreu aos 26 anos, em 1950; Charlie Parker, aos 34, em 1955; Billie Holiday, aos 44, em 1959. Mas Miles Davis, bem ou mal, conseguiu chegar aos 65 anos, em 1991, e Chet Baker, muito mal, aos 58, em 1988. Sem falar em Ray Charles, que usou heroína durante décadas e morreu aos 73, em 2004, de causas naturais.
No Brasil, Cazuza se foi aos 32 anos, em 1990; Elis Regina, aos 36, em 1982; Cássia Eller, aos 39, em 2001; Raul Seixas, aos 44, em 1989; e Carmen Miranda, aos 46, em 1955. Mas o incrível foi Garrincha ter chegado aos 49, em 1983, e Tim Maia, aos 55, em 1998, pelo que abusaram de si mesmos.
Todos os citados tiveram a vida ou a carreira alterada por álcool, maconha, cocaína, heroína, ácido ou remédios "controlados" -alguns, por uma dessas especialidades; outros, por várias; e ainda outros, por todas juntas. E isso não aconteceu por eles serem artistas, mais "rebeldes" ou "sensíveis" que a média. Mas por serem humanos, famosos, e por não faltar combustível para sua morte.



De Ruy Castro na Folha de São Paulo de 27/07/2011

domingo, 24 de julho de 2011

Fome na Somália

BAN KI-MOON escreve

Para reverter a situação no Chifre da África, para oferecer esperança em nome de nossa humanidade comum, devemos mobilizar todo o mundo 

Em todo o Chifre da África, as pessoas estão famintas. Uma combinação catastrófica de conflitos, alto preço dos alimentos e seca deixou mais de 11 milhões de pessoas em extrema necessidade. A ONU está emitindo alertas há meses.
Temos resistido a usar a palavra fome -mas, na quarta-feira, reconhecemos oficialmente a realidade.
Há fome na Somália. E está se espalhando. Esse é um alerta que não podemos ignorar.
Todos os dias, escuto os relatórios angustiantes de nossas equipes. Refugiados somalis caminhando durante semanas para encontrar ajuda. Órfãos que chegam sozinhos, seus pais mortos, assustados e desnutridos, em terra estrangeira.
Dentro da Somália, ouvimos histórias terríveis de famílias que viram suas crianças morrer, uma a uma. Recentemente, uma mulher chegou a um campo de deslocados da ONU a 140 quilômetros do sul de Mogadíscio após três semanas de caminhada.
Halima Omar, que, hoje, após três anos de seca, mal sobrevive.
Quatro de suas seis crianças estão mortas. "Não há nada pior que ver sua criança morrer diante de seus olhos porque você não pode alimentá-la", disse. "Estou perdendo a esperança."
Até para os que chegam aos campos muitas vezes não há esperança.
Muitos estão muito fracos e morrem antes de terem recuperado a força.
Para as pessoas que precisam de atenção médica, muitas vezes não há remédios. Imagine a dor desses médicos, que veem seus pacientes morrer por falta de recursos.
É por isso que falo hoje -para focar a atenção global nessa crise, para emitir o alarme e pedir ao mundo que ajude a Somália neste momento de enorme necessidade.
Para salvar vidas de pessoas em risco -mulheres e crianças são a grande maioria- precisamos de aproximadamente US$ 1,6 bilhão.
Até agora, doadores internacionais deram apenas metade dessa quantia. Para reverter a situação, para oferecer esperança em nome de nossa humanidade comum, devemos mobilizar todo o mundo.
A situação é particularmente difícil na Somália. Lá, os atuais conflitos complicam os esforços de ajuda.
As condições de operação são complicadas pelo fato de o governo nacional de transição da Somália controlar apenas uma parte da capital. Estamos trabalhando em um acordo com as forças de Al Shabaab, um grupo de milícia islâmico, para permitir o acesso a áreas do país controladas por eles. Mesmo assim, ainda há sérias preocupações com a segurança.
Também devemos reconhecer que Quênia e Etiópia, que mantiveram generosamente suas fronteiras abertas, enfrentam seus próprios desafios. O maior campo de refugiados do mundo, Dadaab, já está superlotado, com cerca de 380 mil refugiados. E milhares de outros refugiados aguardam.
Na vizinha Etiópia, 2.000 pessoas chegam por dia no campo de refugiados de Dolo. Isso se combina com uma crise de alimentos enfrentada por quase 7 milhões de quenianos e etíopes em casa.
Em Djibuti e Eritreia, milhares de pessoas também estão precisando de ajuda.
Acima de tudo, nós precisamos de paz. Enquanto houver conflito na Somália, não poderemos combater efetivamente a fome. Mais e mais crianças ficarão famintas; mais e mais pessoas irão morrer desnecessariamente.
Na Somália, Halima Omar nos disse: "Talvez este seja nosso destino -ou talvez um milagre aconteça e seremos salvos deste pesadelo".Não posso aceitar isso como seu destino. Juntos, precisamos resgatá-la, bem como precisamos resgatar seus compatriotas e todas as suas crianças, desse pesadelo verdadeiramente terrível.



Da Folha de São Paulo de 24/07/2011  

BAN KI-MOON, mestre em administração pública pela Universidade Harvard (EUA), é o secretário-geral da ONU (Organização das Nações Unidas). Foi ministro das Relações Exteriores e do Comércio da República da Coreia.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Drogas: dúvidas no fumacê

O tráfico não vai esperar pela descriminalização da maconha, e já está se organizando para, quando acontecer, não ser apanhado de bermuda, boné ao contrário e chinelo. O novo status da droga exigirá alto profissionalismo em termos de produção, transporte, distribuição e venda.
As empresas que se formarão para fabricar e vender maconha precisarão passar, por exemplo, da absoluta informalidade para certas obrigações junto aos ministérios do Trabalho e da Fazenda. Como reagirão ao descobrir que, por causa de carteira assinada, contribuição ao INSS, 13º salário, férias e demais encargos, seus funcionários lhes custarão o dobro do salário que elas lhes pagarão?
Como isto aqui é o Brasil, não a romântica Holanda, pode-se esperar uma feroz concorrência. Alguns fabricantes logo começarão a oferecer o produto já enrolado, em embalagens de 20, como os maços do cigarro careta. Outros competirão pelo teor light ou "normal" de THC, e os consumidores poderão escolher entre um largo espectro de fumos, desde o "da lata" até o mais vagabundo, de estrume. Dúvidas no fumacê: haverá baseados com filtro, para usuários com garganta mais sensível? E qual marca criará a maconha com mentol, para atrair o mercado feminino?
Mais dúvidas: os baseados, livremente vendidos, sofrerão as restrições que se aplicam aos cigarros comuns? Afinal, o produto migrará das atuais bocas e biroscas clandestinas para os balcões de áreas nobres, como shoppings, cafés e tabacarias. Poderão ser anunciados em displays? As embalagens serão obrigadas a imprimir aquelas imagens horríveis e advertências do Ministério da Saúde?
Será permitido dirigir doidão? Será proibido fumar em recinto fechado? E, mesmo na rua, os fumantes passivos fuzilarão os maconheiros com o olhar mortífero que disparam contra os adeptos do oliúde? 


De Ruy Castro na folha de São Paulo de 13/07/2011
Veja o vídeo clipe Fumacê dos Golden Boys

sábado, 2 de julho de 2011

E a venda de maconha?

Volta ao pregão brasileiro a legalização da maconha. Já não se trata da descriminalização do uso em pequenas quantidades, mas de excluir essa "droga leve" do rol dos delitos. Seria a mágica criação de um mercado, com demanda, mas sem oferta.
Alguns avançam e sugerem plantar maconha familiar. São feitos vídeos com personalidades defendendo a legalização. As marchas são liberadas.
Enquanto isso, na Holanda, onde o consumo em locais determinados é permitido, desde que com apresentação de carteirinha, o caminho é o inverso. A legislação está sendo revista. Reduzem-se as quantidades criminalizáveis. Proíbe-se o turista de comprar. E se inicia um processo de definição de maconha de alta intensidade tóxica, para proibi-la.
No Brasil, é tal espécie a que mais atrai. O "polígono da maconha", no Nordeste, é para festinhas. O que importa mesmo é a paraguaia, de maior intensidade, tipo "skank", com concentração de quase 20% em comparação aos 2,5% da maconha corrente.
Os locais de venda em Amsterdã têm uma variedade de tipos, intensidade de THC, para o deleite dos consumidores.
Enquanto isso, as pesquisas nacionais e regionais disponíveis mostram que de 80% a 90% das pessoas são contra a legalização da maconha, e que este número é menor entre as pessoas de maior renda, em bairros de classe média.
Nas favelas, a porcentagem de rejeição à legalização é a mais alta, superando os 90%.
Bem, legalizar o consumo não é tarefa difícil. Mas basta uma lei. Contudo que não se arrisquem seus defensores a um plebiscito, pois tal caminho será intransponível. Seria bom perguntar aos defensores da legalização como se faz com a oferta. Afinal, demanda sem oferta seria mais uma extravagância brasileira.
Se é para legalizar, então legalize-se tudo, respondem alguns. Pelas leis de mercado, com um produto tão atrativo para setores de renda mais alta, vai valer a pena parar de produzir arroz e feijão e trocar por maconha. O incentivo às hortas comunitárias incluiria a maconha? E a publicidade?
Como a maconha paraguaia é mais atrativa, a de uso corrente deixaria de ser plantada a favor do tipo "skank".
Diria Antonieta: se não têm pão, plantem maconha. Os pontos de venda seriam liberados? Quiosques em praias, supermercados, lojas especializadas, ambulantes, "MacConha"? E as Igrejas, o que pensam? Haveria locais restritos para consumo, como na Holanda? Com carteirinha e marca de segurança, para não ser falsificada? O Paraguai, para não perder divisas, legalizaria também? E a Lei Seca seria adaptada? Como tributar?
Após os vídeos, aguardemos o texto da longa lei, seu debate público, emendas, tramitação nas comissões, na Câmara e no Senado. Um curioso uso do tempo nacional.

Texto de Cesar Maia na Folha de São Paulo de 02/07/2011

Leia outros textos sobre as drogas, aqui mesmo neste blog.
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