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terça-feira, 19 de março de 2019

Momo, o terror da internet, só é real para quem ajuda a espalhar o boato

Obra de ficção coletiva gera pânico nos pais que não acompanham os vídeos que seus filhos veem

O terceiro filme da série americana, “O Chamado 3” (2017), foi um sucesso comercial moderado, mas tremendamente desancado pela crítica. A franquia parece estar em modo pause por enquanto.

Oficialmente, pelo menos. Desde o ano passado, e mais ainda em fevereiro deste ano, os americanos de idade própria para terem assistido a “O Chamado” estão fascinados por mais uma menina demoníaca de cabelos desgrenhados e que ameaça as crianças: Momo. Como Samara, Momo seria capaz de possuir crianças e adolescentes por meio de telas.

ilustração da personagem "momo", que tem olhos esbugalhados, cabelo preto longo, ralo e liso, nariz alongado e uma boca com sorriso sem lábios nem dentes

Em uma versão de sua história, ela fascina as crianças com seu rosto chocante e então passa a lhes transmitir instruções cada vez mais mórbidas, culminando em suicídio. Versões posteriores da história avisam que ela aparece no meio de vídeos infantis, incentivando as crianças a se automutilarem. Há adaptações menores que descrevem Momo iniciando o primeiro contato ou rogando sua primeira praga através de mensagens particulares em aplicativos diversos ou chats de voz em games.

Nos últimos meses Momo foi tema de inúmeras reportagens de jornais locais, recebeu cobertura nacional alarmada com o tema de “jogos de suicídio” que viralizaram e chegou a penetrar a consciência de Kim Kardashian West, que aconselhou seus seguidores: “Monitorem o que seus filhos andam assistindo!”

Não há relatos dignos de crédito de crianças que tenham sido realmente influenciadas por qualquer pessoa que as tenha convencido a participar de um “Desafio de Momo” ou levadas a cometer suicídio pela imagem de Momo que se manifestou no meio de um vídeo de Peppa Pig.

Isso não impediu departamentos policiais, administradores escolares e veículos de mídia locais e nacionais pelo mundo afora de divulgar o fenômeno como sendo uma ameaça verificada e iminente, com base em relatos de segunda ou terceira mão de crianças aflitas, relatos esses transmitidos pelos pais das crianças. Também não está claro que qualquer dos alvos imaginados de Momo acredite que ela seja “de verdade”.

Esse pânico foi seguido por uma onda de cobertura em tom mais sério caracterizando Momo e o desafio como um “embuste”, avisando adultos crédulos que eles estavam abrindo a porta a trolls que poderiam chegar a representar elementos do mito só para assustar as pessoas, e que eles próprios estavam expondo crianças a conceitos violentos, desnecessariamente, pelo fato de estarem dando ouvidos à história.

Uma coisa é certa: o “Desafio de Momo” é um pânico moral que está se espalhando por canais novos e poderosos. Também é verdade que Momo é capaz de chamar a atenção das pessoas quase instantaneamente, aparecendo de modo assustador no meio da mídia delas. E, embora Momo realmente esteja perseguindo alguém mais ou menos das maneiras descritas, não está perseguindo as crianças, mas os pais delas.
MEDO, VINGANÇA E VIRALIDADE

O medo de Momo é intenso há anos, mas agora ela tem nome e rosto. Podemos aprender muito sobre Momo rastreando as maneiras como seu mito foi reescrito para adequar-se à sociedade em que se alastra. Um post deixado em setembro pela procuradoria geral do estado de Tabasco, no México, avisou que pessoas estavam entrando em contato com crianças no Facebook e dizendo ser “El Momo”.

Na Argentina e Índia, onde se alastraram relatos não confirmados e de origem pouco substanciada sugerindo que Momo teria levado a suicídios reais no ano passado, o “jogo” teria se proliferado no WhatsApp, aplicativo que é amplamente usado por crianças e adultos nesses países e que, na Índia, foi vinculado de maneira verossímil a assassinatos cometidos por máfias e inspirados por acusações e desinformações que viralizaram.

Consta que a Momo que melhor captou a imaginação do mundo anglófono aparece no meio de vídeos do YouTube, ou mesmo, como avisou Kim Kardashian West em seu post, no subsite para crianças YouTube Kids. Esses sites têm sido temas de reportagens crescentes e dignas de crédito sobre conteúdos violentos e perturbadores que chegariam a crianças e adultos predatórios que utilizam a plataforma.

De fato, desde que viralizou, Momo virou presença constante no YouTube, como objeto de análises, como brincadeira e como troll. Na sexta-feira (15) o YouTube anunciou que está “desmonetizando” (tirando anúncios de) todos os vídeos que contêm Momo, sugerindo que a atenção crescente anda tornando especialmente lucrativos os vídeos postados sobre ela.

E não é apenas o YouTube. Há uma Momo que supostamente assombra o Snapchat. Outra Momo invade vídeos no “Fortnite”, um game altamente popular entre crianças menores. Momo vai encontrar as crianças onde elas estão —ou, pelo menos, onde os pais delas pensam que elas estão.

Crianças e adolescentes vêm escrevendo histórias de terror há anos em vários espaços online, às vezes assinando com pseudônimos ou às vezes em um processo iterativo de grupo. Esses contos são conhecidos coloquialmente como “Creepypasta”, uma iteração do termo “copypasta”, que indica trechos ou blocos de texto ou histórias do tipo “corrente”, frequentemente copiadas e coladas em uma comunidade online dada. Os autores desses posts transmitem essas histórias para assustar uns aos outros, e, como bônus ocasional, às vezes suas histórias viralizam. (O personagem Slender Man —Homem Esguio—, que inspirou muitos games e um longa-metragem, “Slender Man: O Homem Sem Rosto”, foi popularizado por copypasta. A viralidade de Momo certamente se deve em parte a um caso de 2014 em que uma menina foi apunhalada por duas de suas amigas, que disseram mais tarde ter sido influenciadas por Slender Man.)

Momo é o que acontece quando adultos começam a escrever seus próprios textos de copypasta sobre seus próprios maiores medos: o que seus filhos estão fazendo na internet e o que a internet está fazendo a seus filhos.
VOCÊ SABE ONDE ANDAM SEUS FILHOS?

Os espaços onde se acredita que Momo se manifesta mais frequentemente já têm algo em comum: sua tendência a deixar pais ansiosos de qualquer maneira. São 22h –ou, digamos, 7h ou 17h—e os pais sabem, sim, onde estão seus filhos: com a atenção fixa sobre seus celulares ou tablets, fascinados por uma corrente de vídeos do YouTube interminavelmente recomendados, criados por desconhecidos cuja motivação é ganhar dólares com anúncios.

As crianças mais velhas estão batendo papo com seus amigos, ou pessoas que se dizem suas amigas, e passando horas incontáveis conversando entre elas em linguagem que, para seus pais, é praticamente codificada, em um game que parece se constituir em um universo social próprio. É comum que o tempo passado pelas crianças diante de telas seja contrastado com o tempo que elas passam ao ar livre ou praticando alguma outra atividade supostamente mais instrutiva ou enriquecedora. Mas o pânico em torno de Momo é inspirado por ideias muito mais antigas sobre o perigo representado por desconhecidos.

Esse pânico também tem algo em comum com os temores hoje antiquados sobre supostas mensagens satânicas secretamente embutidas em canções de rock, fenômeno esse que também só virou mais comum depois de a cultura mais ampla começar a ter medo dele. O pânico da música satânica é entendido por críticos moralizadores e pais preocupados como sendo algo que corrompe crianças e que é motivado tanto por interesses comerciais quanto por má vontade ou pelo mal propriamente dito.

Hoje, em 2019, o YouTube é visto como onipresente, poderoso e não sujeito a restrições. É um negócio que aparentemente não consegue, por exemplo, combater um problema nazista altamente visível. Vídeos horríveis já penetraram muitas vezes no YouTube Kids. A empresa acaba de anunciar que desabilitou “comentários de dezenas de milhões de vídeos que podem ser sujeitos a comportamento predatório” – ou seja, essencialmente, vídeos que mostram crianças.

Uma ONG pró-vacinas comentou que desistiu há muito tempo de usar o YouTube porque os vídeos do site estão cheios de conteúdos e recomendações contrários à vacinação. Para um pai ou mãe, o fato de o YouTube ao mesmo tempo ser uma das maiores e mais acessíveis centrais de entretenimento para crianças é no mínimo desconcertante.

O YouTube é um raro espaço em que as crianças podem passear livremente em 2019. Também é um espaço totalmente comercializado, e, pela ótica de pais, que é estocado quase exclusivamente com imagens genericamente alarmantes. Um clipe que deixa as crianças em transe e parece programá-las para fazer ou dizer certas coisas? Não é um clipe no meio de um vídeo de Peppa Pig –é o próprio vídeo de Peppa Pig. Um terceiro instruindo um espectador de olhos arregalados sobre como fazer alguma coisa no mundo real? Não é um assassino fazendo-se passar por Momo. É assim que a publicidade funciona no YouTube.

Na semana passada o YouTube disse a jornalistas: “Contrariando notícias publicadas na imprensa, não recebemos qualquer evidência recente de vídeos que transmitam ou promovam o desafio de Momo no YouTube”.

Mas o YouTube não deixa a desejar como fonte de horror psicológico. Telas e tempo passado diante delas são uma fonte de culpa e frustração intermináveis entre pais hoje em dia, e faz sentido que exista a necessidade de transferir esses sentimentos para um rosto, um personagem, alguém ou alguma coisa que tenha motivações fantasticamente perversas, em vez de para os serviços que estão, de fato, espionando para seus próprios fins o que as crianças estão fazendo. É no YouTube que as crianças podem estar assistindo sem supervisão e de repente verem um bando de crianças cantando “baby shark” repetidas vezes, amaldiçoando a elas e seus pais com uma música do tipo que não sai de sua cabeça e que, depois de sete dias, pode levar os pais a até desejar que um tubarão saltasse da tela para devorar a todos.

Uma ex-colega, mãe de uma criança pequena, me disse, falando metade brincando, metade a sério, que Momo é “o rosto de uma mãe que não dorme nem toma banho” há um tempão porque não tem tempo de se afastar de seu filho por um instante. Como todos nós, essa ex-colega não sabe nem consegue entender exatamente o que um serviço como o YouTube –ou o WhatsApp ou o “Fortnite”—quer de nós ou está fazendo a nós ou a qualquer pessoa, muito menos às crianças pequenas, mas não está preparada ou é incapaz de eliminar o YouTube inteiramente de sua vida.

O Desafio de Momo pode não ser real, mas Momo é mais do que apenas um embuste ou um pânico. Ela é uma obra bastante inteligente de ficção coletiva escrita sob o domínio de um pânico bastante estúpido, avatar de um espírito coletivo que não é tanto vingativo quanto cheio de sentimento de culpa, ansioso e impotentemente enfurecido. Ela estará conosco por um bom tempo, ou pelo menos sua franquia estará.

Reportagem THE NEW YORK TIMES na Folha de São Paulo de 19/03/2019
Tradução de Clara Allain

https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2019/03/momo-o-terror-da-internet-so-e-real-para-quem-ajuda-a-espalhar-o-boato.shtml

sábado, 2 de março de 2019

Fim do fundão da vergonha

Major Olimpio escreve:

Instituído em 2017 por meio da lei nº 13.487, o fundo especial de financiamento de campanha (FEFC) teria como objetivo principal, nos termos da justificação do projeto que deu origem a ele, “encontrar uma fonte de financiamento que viabilize as campanhas, de preferência sem impor custos adicionais ao erário, na situação de crise econômica que o país atravessa”.

Ou seja, o objetivo principal seria o financiamento de campanhas políticas no país. Porém, o que se percebe é que, com a proibição da doação privada de pessoas jurídicas para campanhas eleitorais, se procurou suprir tal vácuo com a utilização de dinheiro público, o que vai de encontro ao anseio da população brasileira.

Isso porque, em que pese em um primeiro momento ter sido previsto que o FEFC não imporia nenhum custo adicional ao erário, o que ocorre na prática é a transferência das verbas que seriam destinadas às emendas parlamentares para o financiamento de campanhas.

Ora, não me parece razoável nem moral que as verbas que seriam objetos de emendas, que iriam ter como destinação à educação, à segurança pública e à saúde, sejam utilizadas para o financiamento de campanhas.

Apenas para exemplificar, segundo o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), o valor do FEFC para a eleição geral do ano passado foi de R$ 1.716.209.431.

Precisamos nos questionar qual é a prioridade do Congresso Nacional: o custeio de campanhas eleitorais com dinheiro público ou o bem-estar de nossa sociedade, a exemplo da construção de escolas e hospitais?

Segundo o inciso II, do art. 16-C, da lei nº 9.504/97, os recursos para abastecimento do fundo são providos com 30% das programações decorrentes de emendas de bancada estadual de execução obrigatória. Ou seja, os recursos destinados pelos parlamentares federais para seus respectivos estados que são destinados à saúde, à educação, à segurança e à infraestrutura são desvirtuados para viabilizar campanhas.

Em um momento de crise como o que passamos, em que se discutem diversas reformas, nós legisladores não podemos passar o péssimo exemplo de permitir a utilização de tal fundo para o financiamento de campanhas, enquanto nossa população carece de atendimento básico em hospitais, de segurança, de escolas e de creches, que não dispõem de estrutura básica para a educação de nossas crianças, entre outras necessidades basilares em todos os estados.

Ainda é importante relembrar que a administração pública tem como um de seus princípios a moralidade de seus atos e, com toda vênia possível, não nos parece que o fundo especial atenda à moralidade pública consagrada no art. 37 de nossa Constituição Federal, sendo a vigência do FEFC uma violação a um princípio constitucional e a sua existência uma flagrante inconstitucionalidade.

Estamos vivendo um grande momento de renovação no cenário político, e isso foi demonstrado diante das urnas na última eleição, com uma renovação significativa tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado Federal. A mensagem foi de mudança. E ela deve caminhar com a transparência e o bom uso do dinheiro público.

Isto posto, desde a época que foi aprovado este “fundo da vergonha”, posicionei-me contra ele. Quando deputado, dei meu voto contrário a essa matéria e não utilizei esse recurso em campanha. Hoje, na posição de senador da República, materializei, há poucos dias, um projeto de lei (555/2019) pedindo o fim dessa vergonha que afronta a moralidade e os anseios da população brasileira, que tanto carece de dias melhores.

Texto de Major Olimpio
Senador (PSL-SP), ex-deputado federal (2015-2019) e estadual (2007-2015), bacharel em direito e policial militar reformado
Na Folha de São Paulo de 02/03/2019

https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2019/03/o-fundo-especial-para-financiamento-de-campanhas-deve-ser-extinto-sim.shtml

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Governo usa metade dos impostos para pagar a dívida pública. Mito ou verdade?

Quase 40% do Orçamento Geral da União é consumido pela dívida pública. Mas, na prática, o governo não está gastando um real sequer com ela. Entenda por quê

Dizem por aí que o governo federal usa quase metade do que arrecada em impostos, do suado dinheiro do contribuinte, para pagar a dívida pública. É mito.

Se esse boato – espalhado inclusive por alguns pré-candidatos à Presidência – fosse verdade, a dívida estaria diminuindo, e não aumentando a toda velocidade. Por outro lado, os serviços públicos estariam paralisados. Servidores, aposentados e pensionistas não estariam recebendo em dia.

Para ser preciso, o governo não tem gasto um real sequer com a dívida. O que tem feito é a antiga prática de trocar dívida velha por dívida nova. E, a partir de 2014, passou a se endividar também para cobrir despesas que antes eram bancadas pela arrecadação de tributos.

Em outras palavras, todo o “serviço da dívida” tem sido coberto com operações financeiras. Com mais endividamento.

Nem sempre foi assim. Até alguns anos atrás, o dinheiro dos impostos realmente ajudava a pagar a dívida – ou melhor, uma parte dos juros.

Essa fração do dinheiro do contribuinte que ia para a dívida se chama “superávit primário”. É o nome que se dá, no jargão da contabilidade pública, ao dinheiro que o governo consegue poupar depois de pagar todas as despesas primárias (ou seja, não financeiras, aquelas que não têm nada a ver com a dívida): Previdência, salários de servidores, manutenção da máquina pública, investimentos e outros.

Veja como foi em 2013, a última vez em que o governo fechou o ano com superávit primário:

"Resultado do Tesouro Nacional em 2013

Em R$ bilhões

Receita líquida 996
Arrecadação total menos transferências a estados e municípios

Despesa total 919
Pessoal, Previdência, custeio, investimentos

Em 2013, a arrecadação foi suficiente para pagar todas as despesas primárias, e ainda sobraram
R$ 77 bilhões para pagar os juros da dívida.

Repare no gráfico acima que, mesmo na época em que fazia superávit, o governo passava muito longe de usar “quase metade” da arrecadação para pagar juros da dívida. Os R$ 77 bilhões destinados aos juros em 2013 corresponderam a 8% da receita líquida (dinheiro que fica à disposição da União após as transferências obrigatórias para estados e municípios).

De 2014 para cá, não sobra dinheiro algum. A arrecadação tributária despencou por causa da recessão e já não cobre todas as despesas primárias. Há, portanto, um “déficit primário”. É o que mostra o gráfico abaixo:
Saldo das contas do governo federal, em R$ bilhões, de 2006 a 2016

Se há déficit primário, significa que o governo não está usando nem um centavo dos impostos para pagar a dívida. Pior: está fazendo mais dívida até para cobrir os gastos básicos, não financeiros:" 

Em 2017, o governo federal teve de pegar um empréstimo de R$ 124 bilhões para pagar salários e aposentados e manter rodando a máquina pública. Fora os R$ 386 bilhões em dívidas novas que contraiu para pagar os juros das antigas:

Resultado do Tesouro Nacional em 2017

Em R$ bilhões

Em 2017, as despesas primárias foram maiores que a arrecadação. O governo teve que pegar R$124 bilhões emprestados para pagá-las. E não sobrou nada para a dívida.

Receita líquida 1.155
Arrecadação total menos transferências a estados e municípios

Despesa total 1.279
Pessoal, Previdência, custeio, investimentos"

Se a dívida pública desaparecesse num passe de mágica, portanto, não sobraria dinheiro algum para ampliar os gastos em educação, saúde e infraestrutura, por exemplo.

Algumas pessoas pensam que se dermos o calote na dívida estaremos ricos. Mas hoje toda a dívida é financiada com operações financeiras. Mesmo com um calote, continuaremos com dificuldade para cobrir as despesas primárias”, diz a doutora em Economia Juliana Inhasz, professora da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap) e autora de uma tese sobre a dívida pública.

Mas o Orçamento diz outra coisa...
Sim, o Orçamento diz que a dívida pública consome uma fortuna. Segundo o relatório de execução orçamentária, em 2017 a União destinou R$ 986 bilhões para juros, encargos, amortização e refinanciamento da dívida, o equivalente a 39% dos gastos totais:

Execução do Orçamento federal de 2017

Em R$ bilhões

1.164 Outras despesas correntes

986 Dívida pública

304 Pessoal e encargos sociais

68 Inversões financeiras

38 Investimentos

2.560 TOTAL


Só que esse dinheiro não veio da arrecadação de impostos. A fonte aparece no relatório de receitas: são recursos levantados por meio de operações de refinanciamento ou emissão de novos títulos.

Dessa forma, se alguém quer sustentar que “quase metade” das despesas do Orçamento vai para a dívida, precisa esclarecer também que “quase metade” das receitas vêm de operações financeiras, isto é, de mais endividamento – e não de dinheiro tomado do contribuinte.

Como funciona essa ciranda?
Cerca de 99% da dívida pública federal é “mobiliária”, vinculada a títulos. Quando precisa de dinheiro, o Tesouro emite títulos de dívida e os vende a bancos, fundos de pensão de estatais, grandes investidores e pessoas físicas (via Tesouro Direto), com a promessa de recomprá-los daqui a algum tempo, pagando juros generosos.

O prazo médio de vencimento dos papéis da dívida é de quatro anos e meio. O que acontece quando um título está vencendo? Para recomprá-lo, o Tesouro emite um novo título, com vencimento mais para a frente. Pega um novo empréstimo para quitar o anterior. E assim vai “rolando” a dívida.

É claro que, a cada rolagem, a dívida cresce um tanto, como uma bola de neve.

A cada refinanciamento, cresce o custo financeiro da dívida. A conta vai ficando para amanhã”, diz a economista Juliana Inhasz, da Fecap. “Hoje a gente ainda consegue se refinanciar, mas há um limite. Se a dívida continuar crescendo sem freio, em algum momento as pessoas não vão mais querer emprestar, mesmo em troca de juros altos.”

Então não há como frear a dívida?
Há, sim. Um jeito é reduzir a taxa básica de juros (a Selic, que corrige quase metade da dívida), como o Banco Central fez a partir de outubro de 2016, autorizado pela queda da inflação. O peso dos juros, que havia chegado ao ápice de 7,8% do Produto Interno Bruto no início de 2016, caiu abaixo de 6% do PIB.

Mas não adianta os juros serem menores. É preciso pagá-los. Para isso, o governo tem de voltar a fazer superávit, reduzindo os gastos primários ou aumentando as receitas. Fazer ambas as coisas é melhor ainda, mas nada disso é muito fácil no cenário atual."

Quando o governo conseguia fazer superávit primário e pagar uma parte dos juros, a bola de neve aumentava mais devagar. Nos anos em que a atividade econômica crescia mais rápido que o endividamento em si, a dívida pública até diminuía em termos relativos.

Em 2010, por exemplo, o governo fez um superávit equivalente a 2% do PIB. E a geração de riquezas cresceu 7,5%. O resultado foi que a relação dívida/PIB – o indicador mais relevante quando se trata de endividamento público – despencou em relação ao ano anterior. Repare no gráfico 


Nos últimos anos, no entanto, ocorreu o contrário. A geração de riquezas encolheu e o resultado primário foi muito negativo, o que fez disparar a relação dívida/PIB e levou as agências de classificação de risco a retirar o “grau de investimento” do Brasil. Com isso, muitos investidores institucionais – fundos de pensão estrangeiros, por exemplo – estão “proibidos” de refinanciar o país.

O que vem por aí?
É quase nula a chance de superávit primário antes do fim da década. O teto dos gastos públicos, para funcionar, depende de uma contenção de despesas na Previdência, cuja reforma foi abandonada pelo presidente Michel Temer e é incerta no próximo governo. A Instituição Fiscal Independente (IFI), ligada ao Senado, prevê que o governo só voltará a economizar dinheiro para pagar juros em 2023.

Isso quer dizer que a dívida continuará subindo. Ela terminou 2017 em 74% do PIB e já beirava os 76% em abril de 2018. A média das previsões de mercado é que ela termine o ano próxima desse patamar, em 75,8%, mas avance para 77,8% até o fim de 2019.

A IFI tem projeção igual à do mercado para 2018, mas é mais pessimista para os anos seguintes. No cenário-base que consta de relatório publicado em maio de 2018, a instituição vê a dívida subindo a 78,7% do PIB no próximo ano e mantendo a trajetória ascendente até bater no pico de 86,6% do PIB em 2023, passando a recuar em seguida graças à esperada retomada dos superávits primários.

Essas expectativas já foram até piores, mas melhoraram um pouco após o anúncio da devolução antecipada de R$ 130 bilhões – o equivalente a 1,9% do PIB – que o BNDES deve ao Tesouro.

Apesar da perda do grau de investimento, ainda não faltam interessados em financiar o país. O problema é que, com a bola de neve avançando tão rápido, fica mais difícil baixar os juros a patamares civilizados, porque ninguém quer emprestar dinheiro barato a um devedor despreocupado.

Quem paga a fatura é a sociedade. E não apenas por meio de juros altos, explica a economista Juliana Inhasz. “Como o governo não poupa, acaba sugando a poupança de pessoas e empresas. O dinheiro privado que poderia estar financiando investimentos produtivos, em máquinas, equipamentos, infraestrutura, tecnologia, acaba financiando a dívida pública.

Texto de Fernando Jasper na Gazeta do Povo de 04/07/2017
Obs.: na versão original os gráficos estão melhor posicionados

https://www.gazetadopovo.com.br/politica/republica/governo-usa-metade-dos-impostos-para-pagar-a-divida-publica-mito-ou-verdade-0j758zvmyvkp1mntiehxo16ly/

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

A VALE É ESTATAL, nunca foi privatizada!

Vamos reprivatizar a Vale, diz secretário especial de desestatização
Salim Mattar defendeu evitar demonizar a empresa no caso de Brumadinho
Secretário especial de desestatização, Salim Mattar, responsável por tocar a agenda de privatizações do ministro Paulo Guedes (Economia), disse que a Vale será reprivatizada no governo Jair Bolsonaro.

“A Vale foi privatizada, certo? Não, a Vale não foi privatizada, a Vale é uma estatal” afirmou.

“Fundos de pensão, patrocinados pelo Estado, detêm o controle da Vale. Estamos aqui para privatizar, para reprivatizar a Vale”.

Após a declaração, o secretário foi questionado por jornalistas sobre como pretende privatizar a Vale. Os fundos de pensão são de natureza privada e os recursos pertencem aos funcionários de estatais para financiar as suas aposentadorias.

“Talvez tenhamos que melhorar o aspecto de desestatização, reduzindo um pouco a presença desses fundos nessas empresas, de forma que as empresas possam ser mais privadas e que não tivessem interferência do governo”, afirmou.

Perguntado se o governo pretende incentivar a venda de ações da Vale pelos fundos de pensão, Salim afirmou: “Não estou dizendo isso, estou dizendo que a sociedade e o governo precisam fazer uma reflexão”.

O BNDESPar, braço de investimentos do banco estatal, também detêm ações da Vale e "é natural que essas ações sejam vendidas".

"Os governos anteriores eram muito estatistas", disse, enfatizando que os bancos estatais foram orientados no passado a comprar ações de companhias privatizadas.

"Este governo veio para desestatizar. Então é natural que num período de tempo essas ações [do BNDESPar] sejam vendidas sem trazer prejuízo ao pagador de impostos, ao cidadão, então tem que descobrir o 'timing' correto para se desfazer dessa carteira e aplicar o dinheiro naquilo que é melhor, educação, saúde, segurança".

As ações da Vale sofreram uma forte desvalorização em razão do rompimento da barragem em Brumadinho e os efeitos que a reparação de danos terá sobre a expectativa de resultados da companhia.

"Não faz sentido vender as ações neste momento. Neste momento é segurar, deixar encarteiradas essas ações por não sei quanto tempo, verificar o momento em que essas ações retornem", disse.

"Mas eu pergunto? O que preferem? Que o BNDESpar tenha uma carteira de ações de Vale e outras empresas públicas, de R$ 100 bilhões, ou usemos esse dinheiro para reduzir a nossa dívida ou para escolas, educação e saúde?"

O secretário participou de evento organizado pela revista "Voto" em Brasília.

Em sua apresentação, ele defendeu evitar “demonizar” a empresa no caso de Brumadinho.

Para Salim, os responsáveis devem responder no seu CPF, mas a empresa tem que ser preservada para manter empregos e a arrecadação de impostos.

Ele disse que fez a mesma defesa da Samarco no caso de Mariana.

“Um ou dois aviões caem por ano e morrem 120, 130 pessoas. Pede-se que a diretoria da empresa caia ou se demoniza a companhia?”, disse.

“Em Brumadinho, caíram dois aviões, como seria o tratamento de uma companhia aérea e como estamos tratando a Vale?”, questionou. "Não devemos separar a empresa do dos CPFs dos responsáveis?"

Ainda durante a sua intervenção, o secretário afirmou que as quatro estatais que estão sob o guarda-chuva do Ministério da Economia: Dataprev, Serpro, Casa da Moeda e IRB serão "vendidas ou fechadas". A última teve abertura de capital concluída no governo Michel Temer, com a venda de ações na Bolsa.

No caso de estatais de outros ministérios, ele afirmou que a decisão depende do titular de cada pasta, como é o caso dos Correios.

"Então eu fico aporrinhando o ministro para privatizar", disse, enfatizando que seu mandato é reduzir o tamanho do Estado.

Reportagem de Mariana Carneiro na Folha de São Paulo de 14/02/2019 https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2019/02/vamos-reprivatizar-a-vale-diz-salim-mattar.shtml

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Justiça repassa dívida de consignado a herdeiro

Contrato de empréstimo consignado não termina com a morte do trabalhador ou do aposentado que fez a dívida

A Terceira Turma do STJ (Superior Tribunal de Justiça) decidiu que o contrato de empréstimo consignado, que é pago por meio de descontos feitos diretamente na folha, não termina com a morte do trabalhador ou do aposentado que fez a dívida.

Portanto, a obrigação de fazer o pagamento é transferida ao espólio, quando ainda não houver a partilha, ou aos herdeiros.

A dívida herdada fica limitada ao que foi deixado por quem morreu.

Na ação analisada, três herdeiros recorreram ao STJ depois que o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul atendeu ao pedido do banco e determinou que os filhos respondessem pelo débito. A mãe era servidora pública.

Os herdeiros alegaram que a cobrança violava uma lei da década de 1950, segundo a qual esse tipo de dívida era extinta quando aquele que a contratou morria.

Por unanimidade, os ministros da Terceira Turma do STJ entenderam, porém, que uma outra lei, publicada em 1990, anulava esse dispositivo e substituía o entendimento anterior.

Como tratavam, em alguns trechos, do mesmo assunto, a ministra-relatora, Nancy Andrighi, considerou que houve a revogação indireta dessa previsão de extinção.

Além disso, a relatora do recurso disse, no acórdão, ter aplicado a lei 10.820 de 2003, que regula os empréstimos consignados de trabalhadores com contratos pela CLT (Consolidação de Leis do Trabalho) e de aposentados e pensionistas do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social).

Ainda que tenha sido analisado, no recurso apresentado pelo banco, se a mãe era servidora celetista ou estatutária, Nancy Andrighi disse, no relatório, que "sob qualquer ângulo que se analise a controvérsia", a única conclusão possível era que a lei prevendo a extinção de dívida em razão da morte do consignante não está em vigor.

Os herdeiros também tentaram barrar a penhora da casa deixada pela mãe.

Sob alegação de ser o imóvel da família, a relatora considerou que a impenhorabilidade atinge somente o imóvel no qual moram, não impedindo "outros bens respondam pela dívida".

O advogado Rômulo Saraiva disse que havia entendimento que, mesmo se o espólio tivesse dinheiro, a dívida era declarada como nula.

"A pessoa, se entrasse com a ação na Justiça, se livrava da dívida. E o STJ ainda confirmava. Tem várias decisões do tribunal superior assim. Mas agora o STJ deu uma virada de mesa", afirmou.

A Febraban (Federação Brasileira de Bancos) informou que a extinção ou não da dívida, em caso de morte do consignante, varia de acordo com o contrato firmado entre o banco e o cliente.

"No entanto, de forma geral, as instituições financeiras seguem o Código Civil, segundo o qual a morte de quem contrata o consignado não extingue a dívida, que deverá ser paga com o espólio", informou.

Reportagem do AGORA reproduzida na Folha de São Paulo de 01/02/2019

https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2019/02/justica-repassa-divida-de-consignado-a-herdeiro.shtml

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Antes de Brumadinho, antes de Mariana, barragens de rejeito já causaram diversas tragédias em Minas Gerais

Resultado de imagem para barragem de brumadinho
O rompimento das barragens de rejeitos de Brumadinho e Mariana são mais dois acidentes em uma trágica história de desastres deste tipo em Minas Gerais.

Primeiro registro deste tipo de acidente foi em 1986, quando sete pessoas morreram em Itabirito.

Nós últimos anos, foram muitos os eventos com danos ambientais sérios e mortes no estado.

O mais recente foi no dia 10 de setembro de 2014, quando o talude da barragem B1, na Mina Retiro do Sapecado, da Herculano Mineração, se rompeu e deixou três mortos e um ferido. O acidente aconteceu quando seis funcionários trabalhavam na manutenção da barragem e foram surpreendidos pela onda de lama e rejeitos de minério.

Na época, o jornal Estado de Minas destacou um estudo da Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam) que indicava que mais de 40 barragens no estado não tinham garantia de estabilidade.

Antes disso, em janeiro de 2007, uma barragem com rejeitos da mineradora Rio Pomba Cataguases rompeu e inundou as cidades de Miraí e Muriaé com mais de 2 milhões de litros de lama de bauxita. Mais de 4 mil pessoas ficaram desalojadas e 1.200 casas foram atingidas. A mesma barragem já tinha causado problemas em março de 2006, quando um vazamento contaminou córregos e rios, matando centenas de peixes e interrompendo o fornecimento de água. Apesar do histórico, na época do acidente de 2007, a mineradora atribuiu a causa do acidente às chuvas fortes do começo do ano.

Pior que a tragédia ambiental de 2007, em 29 de março de 2003 uma barragem de rejeitos industriais se rompeu em Cataguases. Foi um dos piores acidentes ambientais do país: cerca de bilhão e quatrocentos milhões de litros de lixívia negra, resíduo da produção de celulose, contaminaram o Rio Paraíba do Sul e córregos próximos por 200 quilômetros, atingindo também o interior do Rio de Janeiro e deixando 600 mil pessoas sem água. Peixes, animais que viviam às margens dos rios e muito da vegetação foram devastados pelo desastre.

Mas mesmo com dimensões colossais e consequências catastróficas, o desastre de 2003 não foi lição o bastante para evitar um novo incidente em 2009 em Cataguases – dessa vez, o pior foi evitado. Para impedir o rompimento de uma barragem que despejaria de uma vez 1,4 bilhões de litros de rejeitos no Rio Paraíba do Sul, foram liberados lentamente resíduos sem tratamentos no corpo d'água, uma operação que durou até agosto de 2012.

Em 2001, cinco pessoas morreram em um acidente grave em Macacos (São Sebastião das Águas Claras, distrito de Nova Lima). Lama e resíduos de mineração encobriram dois quilômetros de uma estrada, após o rompimento de uma barragem da mineradora Rio Verde (hoje Vale). O acidente também causou assoreamento, degradação de cursos hídricos e destruição de mata ciliar.

O registro mais antigo deste tipo de acidente em Minas Gerais foi em Itabirito: sete pessoas morreram no rompimento da barragem de rejeitos da Mina de Fernandinho, do grupo Itaminas. É, por enquanto, o maior número de mortes diretamente causadas por esse tipo de acidente.

A reportagem de Marcelo Faria no Estado de Minas de 05/11/2015

https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2015/11/05/interna_gerais,705019/barragens-de-rejeito-ja-causaram-diversas-tragedias-em-minas-gerais-r.shtml

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Feliz e próspero 2019

Que 2019 seja o ano em que possamos recolocar o nosso querido Brasil no caminho do Amor, da Ordem e do Progresso!
AMOR, ORDEM E PROGRESSO

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Experts da tecnologia afastam seus filhos de tablets e celulares

Uso precoce dos aparelhos está ligado a deficits físico e cognitivo, ansiedade e depressão
Evitar totalmente o uso de celular e tablets 
é até mais fácil do que deixar apenas um pouquinho

As pessoas que estão mais perto de uma coisa geralmente são as mais cautelosas sobre ela. Experts em tecnologia sabem como os smartphones funcionam, e muitos decidiram que não os querem perto de seus filhos.

Um consenso que está em formação é que os benefícios das telas como ferramenta de aprendizado são exagerados, e os riscos de criar vício e atrasar o desenvolvimento se mostram altos.

Há um nível robusto de vidência mostrando que o uso de telas pode interferir no sono. Além disso, uso de telas está associado a deficit motor e cognitivo, além de obesidade, depressão e ansiedade. Hoje o debate no Vale do Silício, polo ultratecnológico, é sobre até onde a exposição às telas pode ser positiva.
Meninos e meninas brincam com celulares, sentados uns ao lado dos outros

Tirar totalmente o tempo de tela é até mais fácil do que deixar apenas um pouquinho, diz Kristin Stecher, especialista em computação social casada com um engenheiro do Facebook. “Quando meus filhos têm um pouco, eles simplesmente querem mais.”

Stecher, 37, e seu marido, Rushabh Doshi, pesquisaram sobre as telas e chegaram a uma conclusão: não querem nenhuma em sua casa.

Suas filhas, de 5 e 3 anos, não têm horários determinados em que podem ficar diante de tablets ou smartphones. A única ocasião em podem ser usados é durante uma longa viagem de carro ou de avião. Às sextas à noite, a família assiste a um filme.

Há um problema, segundo Stecher: seu marido, que tem 39 anos, adora videogames e acha que eles podem ser educativos. Ela discorda. “Vamos passar por isso quando chegar a hora”, disse ela, que está grávida de um menino.

Mesmo criadores de vídeo andam horrorizados ao ver que a criança pode assisti-los em quase qualquer lugar.

Questionado sobre o limite de tempo de tela para uma criança, Hunter Walk, investidor que durante anos foi diretor de produtos do YouTube na Google, enviou uma foto de um penico com um iPad anexado e escreveu: “#produtosquenãocompramos’”.

Athena Chavarria, que trabalhou como assistente executiva no Facebook e hoje está na entidade filantrópica de Mark Zuckerberg, a Iniciativa Chan Zuckerberg, disse: “Estou convencida de que o diabo vive em nossos telefones e está causando um desastre em nossas crianças”. Ela só deixou seus filhos terem celulares no ensino médio, e até hoje proíbe seu uso no carro e impõe limites estritos em casa.

“Outros pais dizem: ‘Você não fica preocupada quando não sabe onde estão seus filhos quando não consegue encontrá-los?’ E eu digo:

‘Não, eu não preciso saber onde meus filhos estão a cada segundo do dia’.”

Para alguns líderes tecnológicos, ver como as ferramentas que eles criaram afetavam seus filhos parecia um cobrança de contas de seu estilo de vida. Chris Anderson, ex-editor da revista Wired e hoje CEO de uma empresa de robótica e drones diz que “Na escala entre doces e crack, [as telas] estão mais perto do crack”

Os tecnólogos que constroem esses produtos e os jornalistas que observam a revolução tecnológica são ingênuos, segundo ele. “Pensamos que poderíamos controlá-la, mas isso está além de nosso poder. Vai diretamente aos centros de prazer do cérebro em desenvolvimento. Vai além de nossa capacidade de compreensão como pais comuns.”

Ele, que tem cinco filhos, impôs algumas regras, como nenhuma tela no quarto, bloqueio de conteúdo em rede; nada de rede social até os 13 anos; nada de iPad; e horários de tela geridos por meio do Google WiFi, que ele controla do seu telefone. Mau comportamento? A criança fica offline por 24 horas.

“Eu não sabia o que estávamos fazendo com seus cérebros até que comecei a observar os sintomas e as
consequências”, disse Anderson.

“As cicatrizes falam. Nós fizemos todos os erros previstos e acho que agimos mal com alguns dos meus filhos”, afirmou. “Nós vislumbramos o abismo do vício, e houve alguns anos perdidos, dos quais nos arrependemos.”

Seus filhos estudaram numa escola particular que adotou iPads e lousas inteligentes só para “mergulhar no caos e depois recuar disso tudo”.

Essa ideia de que os pais do Vale do Silício, polo de desenvolvimento tecnológico nos EUA, são cautelosos sobre a tecnologia não é nova. “Vovôs techs” manifestaram essa preocupação anos atrás.

O CEO da Apple, Tim Cook, disse neste ano que não deixaria seu sobrinho entrar nas redes sociais. Bill Gates proibiu os celulares até que seus filhos chegassem à adolescência e Melinda Gates escreveu que gostaria de ter esperado mais. Steve Jobs não deixava seus filhos pequenos chegarem perto de iPads.

Mas no último ano uma série de “desertores” de alto nível do Vale do Silício têm dado o alarme em termos cada vez mais duros sobre o que esses instrumentos fazem com o cérebro humano. De repente, trabalhadores comuns do Vale do Silício estão obcecados. Casas sem tecnologia surgem por toda a região. Babás são solicitadas a assinar contratos que proíbem telefones.

Os que expuseram seus filhos às telas tentam convencer os demais a deixar o vício explicando como a tecnologia funciona.

John Lilly, investidor da Greylock Partners no Vale do Silício e ex-CEO da Mozilla, disse que tenta ajudar seu filho de 13 anos a entender que está sendo manipulado pelos que criam a tecnologia.

“Eu tento dizer que alguém escreveu o código [de programação] para fazê-lo se sentir de determinada maneira —tento ajudá-lo a entender como as coisas são feitas, os valores que são inseridos e o que as pessoas estão fazendo para criar esses sentimentos.”

Há quem discorde, porém. Jason Toff, 32, que dirigiu a plataforma de vídeo Vine e hoje trabalha na Google, deixa seu filho de 3 anos brincar com o iPad, que na opinião dele não é melhor nem pior que um livro. Essa visão é bastante impopular entre seus colegas de trabalho, e agora ele diz sentir um certo estigma.

“As pessoas têm medo do desconhecido. Acho que estou falando por muitos pais que têm medo de falar em voz alta por temerem a opinião dos outros.”

Ele diz lembrar que na infância assistiu muita TV. “Acho que fiquei OK”.

Outros pais do Vale do Silício dizem que há formas de fazer um tempo de tela limitado ser um pouco menos prejudicial.

Renee DiResta, pesquisadora de segurança na diretoria do Centro para Tecnologia Humana, não permite tempo de tela passivo, mas pequenos períodos de tempo em jogos desafiadores.

Ela quer que seus filhos, de 2 e 4 anos, aprendam a escrever em linguagem de programação o quanto antes, por isso aprova sua ligação com os gadgets. Mas ela diferencia entre os tipos de tempo de tela: um jogo de construção é permitido, mas assistir a um vídeo no YouTube, não, a menos que seja em família.

E Frank Barbieri, executivo da startup PebblePost, em San Francisco, que rastreia a atividade online para enviar publicidade direta por email, tenta limitar o tempo de tela de sua filha de 5 anos a conteúdo em italiano.

Ele leu estudos segundo os quais aprender uma segunda língua em idade precoce é bom para o desenvolvimento da mente.

“Porque minha mulher e eu pensamos: ‘Para onde nós gostaríamos de viajar?’”, brinca.

Reportagem de Nellie Bowles no The New York Times
Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Publicado na Folha de São Paulo de 25/12/2018
https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2018/12/experts-da-tecnologia-afastam-seus-filhos-de-tablets-e-telefones-celulares.shtml

domingo, 23 de dezembro de 2018

Se a justiça for cega, escreveremos em Braille

"A mulher que escreve com os olhos" Alexandra Lebelson Szafir, advogada
"Se a justiça for cega, escreveremos em Braille" Grupo Vitimas Unidas, frase de Vana Lopes

Bom dia senhora Beth Szafir,, desejo a senhora um bom final de ano. Sinto imensamente por sua perda e saudades , e tem minha admiração por sua força, ,por sua solidariedade e carinho. Meus sinceros sentimentos pela falta que faz sua maravilhosa filha, a saudosa advogada Alexandra Lebelson Szafir , tanto a família como a nós brasileiros. De fato, em sua breve vida , foi uma grande humanista ,merecedora de méritos e honra e desejamos que a memoria de seu nome seja eternamente perpetuada pelo Bem .

Tristemente , percebemos que atualmente o seu sobrenome esta ligado ao escritório deste dr Alberto Zacharias Toron ,que esta defendendo um enganador, estuprador, que se dizia médium e violentou centenas de mulheres. Tivemos casos de suicídio, e atualmente agravou o trauma das vitimas ,por causa de acusações excruciantes dirigidas as vitimas por este advogado doutor Toron ,que tirânico e inclemente , não esta respeitando mulheres, e especialmente mulheres vitimas deste reu que ele defende. A tese de desqualificação das vitimas é comum, semelhante a do abuso e alienação parental e que também é a usada na defesa de casos de agressores de mulheres e do feminicídio.

Também, alem de vitima de atrocidade semelhante , sou mãe, avó, e na preocupação com a nova geração, e sabendo da sua coragem, do seu carater, gostaria se possível que se manifestasse a favor do Grupo Vitimas unidas ,que esta tentando salvar estas vidas, como sua nobre filha fazia, de forma altruísta e filantrópica. Se puder encaminhe este recado ao advogado que tem um escritório com seu honrado nome -Toron, Torihara & Szafir Advogados no site abaixo :​www.toronadvogados.com.br/advogados.asp​

Sou Vanuzia Leite lopes ,(vana) lopes ) Fui vitima de Roger abdelmassih. Escrevi o Livro Bem vindo ao Inferno- a Historia de Vana Lopes a vitima que caçou o ex medico estuprador Roger Abdelmassih,-editora Matrix, assinado por diversas autoridades e prefaciado pelo Casal Rosangela e o Juiz Sergio Moro, futuro Ministro da Justiça. Hoje , este livro é leitura sugerida tanto a magistrados, senadores , como também na Camara , depois de audiência que tivemos com a Ministra Carmem Lucia, pois sofremos descasos.
​Gostaria de me alongar para narrar a senhora ,repetindo, que justamente por ter vivido, junto com dezenas de mulheres, traumas irreparáveis , alem da violência sexual, sofri e sofro de doenças fisicas graves, consequenciais do estupro e da exposição em busca por justiça. .Ademais , tenho síndrome de pânico, ou seja, fui violentada na minha saúde física e mental ,por causa de ofensas e descredito que as pessoas cruéis costumam fazer, ao estigmatizar , ofender , e coagir vitimas, principalmente por parte de juristas impiedosos .Por fim, informo que o livro de sua luminar filha, Descasos é fonte de inspiração e exemplo de coragem para todas nós.

Fundei o grupo de apoio e orientações jurídicas Vitimas Unidas .Nossa presidente é filantrópica e benemérita dra Maria do Carmo Santos, psicóloga , mestre em historia e doutora em Educação , sensibilidade e conhecimento para tratar traumas faz mais de 30 anos .Ela quem cuida de muitas das vitimas de Roger Abdelmassih, das vitimas do Grupo Vitimas Unidas , e atualmente sendo psicóloga , ampara e ajuda de maneira bondosa e altruísta as vitimas do João do Mal, vulgo João de deus . Na esperança de que entenda nossa posição, Agradecemos e aguardamos uma rápida resposta.

Bom fim de semana para a senhora e família,

Atenciosamente ,
Vana Lopes,
Apoiando esta minha mensagem de cunho pessoal , nossa presidente Doutora Maria do Carmo Santos.

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

9 EXEMPLOS DE COMO É BOM SER PRÓXIMO A LULA



Um dos maiores indicadores de poder político é a influência para indicação a cargos e obter benefícios destinados a seus protegidos  – e isso diz muito sobre a aptidão de Luiz Inácio Lula da Silva. Condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, ele é réu em outras 7 ações e investigado em outras 2. Mesmo assim, teve sua candidatura lançada pelo Partido dos Trabalhadores e figurou acima de um terço das intenções de voto em algumas pesquisas para a presidência da República. Foi impedido por força da Ficha-Limpa, apenas. Em outras palavras, mesmo que em decadência, ele continua extremamente influente.
Desde que ascendeu à Presidência da República em 2003, estar próximo a ele tornou-se a chave para conseguir cargos de prestígio e com altos salários (muitos sem precisar trabalhar). O contato com o ex-presidente possibilitou ainda patrocínios de eventos sem viabilidade econômica, aportes financeiros para empresas, enriquecimento por causas suspeitas, entre outros privilégios.
Imediatamente ao assumir o planalto, em 2003, esposas, maridos, primos e irmãos de pessoas ligadas a Lula passaram a ser nomeadas para funções de confiança no Executivo e Legislativo – muitas sem nunca ter tido qualquer experiência que justificasse tecnicamente as indicações.
Entre os exemplos de quem ingressou em cargos comissionados de segundo escalão com a ascensão de Lula estão a mulher de José Dirceu, a esposa e o irmão de Antonio Palocci, o primo de Luis Fernando Furlan, o marido de Marina Silva (que veio a deixar o partido apenas em 2009) e as esposas de Nilmário Miranda e de José Fritsch – políticos influentes dentro do PT. Aliados que tinham pedido eleições em seus estados também foram alocados em pastas ministeriais.
Os anos seguintes vieram a mostrar que isso era apenas o início. O uso de influência política a fim de beneficiar familiares e amigos não é exclusividade do petista, mas nunca antes na história deste país tantas pessoas próximas a um presidente se beneficiaram profissionalmente por isso. Relacionei abaixo diversos casos que demonstram como Lula se utilizou de sua posição com finalidade de favorecer quem quis, e entender a forma como cada caso procedeu diz muito sobre como as coisas funcionam no Brasil, especialmente no Partido dos Trabalhadores.
1) Os cargos comissionados e a ONG milionária de Lurian Lula da Silva
Desde novembro de 2017, Lurian Cordeiro Lula da Silva é assessora parlamentar da deputada estadual Rosângela Zeidan na Assembleia Legislativa do Rio, reeleita em 2018. Recebe a modesta quantia de R$ 7.326,64 mensais.
À época, ao responder as críticas por nomear Lurian apenas por ela ser filha do ex-presidente, a deputada petista afirmou que “resumir [a nomeação] a uma relação de parentesco ou é desconhecimento ou é misoginia.”
Rosângela é casada com Washington Quaquá, presidente do PT fluminense e um dos principais defensores de Lula, com quem mantém amizade há décadas. Um exemplo ocorreu em junho de 2017, pouco antes da primeira condenação na Lava Jato, em que ele divulgou nota sustentando um “confronto popular aberto nas ruas” caso o ex-presidente fosse condenado. Não há dúvidas de que nomear a filha de Lula é uma tentativa de agradá-lo.
Embora Lurian afirme que teve apenas ônus em sua vida por ser filha de Lula, sua trajetória demonstra o contrário. Dentre os inúmeros escândalos dos dois governos de seu pai, ela protagonizou um deles ao ser responsável pela organização Rede 13. A ONG foi acusada por um ex-integrante de fechar as portas logo após receber um repasse do governo federal de 7,5 milhões de reais. Ouvido na a CPI das ONGs, Jorge Lorenzetti, o churrasqueiro de Lula e que auxiliou no fechamento da corporação, afirmou que, na verdade, ela “foi extinta sem realizar nenhum convênio(com o governo federal)”. A história nunca ficou bem esclarecida, pois a base governista era maioria na CPI e conseguiu vetar maiores apurações sobre a ONG em questão. O argumento para restringir o trabalho da comissão e deixar de fora eventuais investigações sobre a ONG de Lurian foi estapafúrdio: a possibilidade de elas atingirem o então presidente. Era o período em que o PT era hegemônico no Congresso e na opinião pública e declarações como essas vindo de um parlamentar não geravam tanta repercussão social.
Após o episódio, Lurian passou a acumular cargos de indicações políticas. Ela foi secretária de Ação Social da prefeitura de São José e Chefe de gabinete do prefeito Djalma Berger, além de assessora parlamentar do então deputado federal Gabriel Chalita, ganhando sempre salários razoavelmente altos.
2) O genro de Lula que fazia lobby no governo para empresários condenados por formação de quadrilha
Esposo de Lurian, Marcelo Sato protagonizou escândalos quando Lula ainda sentava na cadeira presidencial. Ele foi assessor parlamentar nos mandatos de Ana Paula Lima, Deputada Estadual pelo PT em Santa Catarina, que é casada com Décio Lima, Deputado Federal em exercício.
O empresário Chico Ramos, sócio-controlador da Agrenco do Brasil S/A, mantinha relações bastante próximas a Sato e Décio. À época, relatório da Polícia Federal mostrou troca de mais de 100 ligações e e-mails entre eles, com Ramos pedindo e obtendo facilitações no desenrolar de questões pendentes em órgãos públicos. Não deve ser difícil imaginar quantas portas um lobista do convívio familiar do, a época, homem mais poderoso do país, deve conseguir abrir.
Em troca dos auxílios, segundo as declarações à Justiça Eleitoral, a Agrenco doou mais de um terço dos cerca de R$ 450 mil da campanha eleitoral que levou Décio Lima à Brasília, em 2006.
Marcelo foi ainda investigado na Operação Influenza, movida pela Polícia Federal, após ser flagrado em gravações com uma quadrilha de empresários de Santa Catarina e de São Paulo, apontados como responsáveis por desfalques milionários contra os cofres públicos.
As conversas telefônicas indicavam o mesmo padrão: ele atuando como lobista junto a órgãos públicos federais. O genro do petista fazia tráfico de influência e atuava até mesmo agendando reuniões entre autoridades governamentais e os empresários, posteriormente condenados criminalmente. Em uma das conversas, Sato negociou o recebimento de 10 mil reais com o empresário João Quimio Nojiri, que chegou a ser preso.
Ao final de tudo, o genro de Lula foi absolvido porque todas as provas reunidas pelo Ministério Público contra ele foram consideradas nulas, isto é, não puderam ser levadas em conta judicialmente. Tudo isso aconteceu por um mero detalhe processual: a juíza do caso considerou os grampos ilegais por terem sido autorizados apenas pela Justiça Estadual, onde as investigações iniciaram. Como ao longo da ação penal – em virtude das matérias envolvidas – o processo passou a ser de competência da Justiça Federal e não houve novas autorizações de gravações, elas foram anuladas do processo. Sem essas gravações, ele acabou sendo inocentado.
3) A peça de teatro da neta de Lula que conseguiu patrocínio da Oi
Filha de Lurian e Marcelo, Maria Beatriz da Silva Sato Rosa é a neta mais velha do ex-presidente. Conhecida como Bia Lula, atualmente é secretária da Juventude do Partido dos Trabalhadores de Maricá. Era a aposta do partido para eleger-se em 2018, mas acabou desistindo de concorrer em virtude do receio de hostilidades.
Quando adolescente, Bia foi protagonista de um caso, no mínimo, fora da curva. Por um ano e três meses uma produtora de teatro carioca buscou junto a grandes empresas privadas e estatais, sem sucesso, patrocínio para a realização da peça A Megera Domada, de William Shakespeare.
Tamanha demora na captação de recursos indica que o evento era inviável economicamente. Apesar disso, bastou uma mudança no elenco, que passou a ser estrelado pela neta do ex-sindicalista, que a Oi decidiu patrocinar o espetáculo em R$ 300 mil. O detalhe é que Beatriz não era uma grande atriz: tratava-se, na verdade, de sua peça de estreia.
4) Os empregos fantasmas da nora de Lula e seus amigos
Casada com o quarto filho de Lula, Sandro Luís Lula da Silva, Marlene Araújo Lula da Silva recebe um salário de R$ 13.500,00 mensais para atuar no Conselho Nacional do Serviço Social da Indústria, o Sesi, em São Paulo.
Ela usava o nome de solteira, Araújo, a fim de evitar despertar atenção da imprensa, o que funcionou por alguns anos. Em 2014, no entanto, sua atuação passou a ser questionada. Embora estivesse já há 7 anos na corporação, não soube informar quais atividades exercia à reportagem da Época, além de ser constatado que ela raramente aparecia ao local de serviço. A Controladoria-Geral da União abriu processo contra Marlene e outros funcionários identificados como fantasmas nos quadros da entidade, sendo todos indicados por Lula e pelo PT, além de reberem altas remunerações.
Entre eles está o amigo do ex-presidente e, em tese, colega de trabalho de Marlene, Rogério Aurélio Pimentel, que ganhava 10 mil reais por mês sem ir ao escritório. Ele trabalhou no gabinete pessoal da presidência nos oito anos de mandato de Luiz Inácio e, após Dilma Rousseff chegar ao Palácio do Planalto, ele foi alocado neste sindicato.
O Sesi era utilizado ainda para empregar outros empregados fantasmas ligados ao PT. Entre eles Márcia Regina Cunha (esposa do ex-deputado João Paulo Cunha, condenado no mensalão), que recebe R$ 22 mil por mês desde 2003; Osvaldo Bargas, ex-diretor da CUT, que embolsa 23 mil; Douglas Martins de Souza, ex-secretário adjunto da Secretaria de Igualdade Racial no início do governo Lula, com vencimentos de 36 mil reais, o mesmo valor da sindicalista Sandra Cabral, amiga de Delúbio Soares.
5) O filho de Lula que recebia dinheiro do PT para ficar em casa
Sandro Luís também já teve seu emprego fantasma para contar história. Entre 2002 e 2005, ele era registrado como funcionário do PT paulista, sem nunca ter aparecido no partido. Ao serem questionados sobre a atuação de Sandro, os empregados que atuavam no local demonstraram não conhecê-lo e, segundo apuração da Folha de São Paulo, entraram em contradições sobre sua função e tempo de trabalho.
À época, Sandro ainda estava na faculdade, mas seu salário era de R$ 1.522 mensais. Corrigida pela inflação, a importância monetária corresponderia hoje a mais de R$ 4.500,00. Nada mau para um estagiário que, segundo o partido, “prestava serviços de informática à distância”.
6) A empresa dos filhos e da nora de Lula que mesmo sem funcionários faturou mais de 200 mil reais em um ano
O mesmo Sandro possui, junto com Marlene e seu irmão, Marcos Claudio, a FlexBR, empresa de consultoria em tecnologia da informação. Embora em 2014 tenha recolhido repasses do Instituto Lula de 114 mil reais e mais de 72 mil reais da L.I.L.S. Palestras, Eventos e Publicações (pessoa jurídica de palestras do ex-presidente), a FlexBR sequer site tem, tampouco funcionário registrado.
Atualmente, a Operação Lava Jato está investigando essas transferênciassob suspeita de serem, na verdade, ocultação de propina. O presidente do instituto, Paulo Okamotto, foi intimado em 2017 para apresentar comprovantes da prestação de serviços que justificassem esses valores.
7) A empresa do filho de Lula que quadruplicou o faturamento reduzindo seus funcionários
Da mesma forma que a FlexBR, a sociedade empresária G4 Entretenimento, em que outro filho de Lula é sócio majoritário, está sob investigação da Lava Jato por suspeita de ter sido utilizada para ocultar pagamentos de propina. A contestação se dá pela sociedade empresária ter recebido mais de 1,3 milhões de reais em repasses do Instituto Lula. Esse montante representa mais recursos que todas as demais empresas destinatárias de valores do instituto ao longo de sua atuação.
A organização presta atividades de suporte técnico, manutenção e outros serviços em tecnologia da informação. Chamou atenção dos investigadores da Lava Jato o fato de a distribuição dos lucros da G4 não observar em alguns anos a composição societária da empresa. Fabio Luis Lula da Silva, também conhecido como Lulinha, detém metade das ações da corporação, mas recebeu 100% dos lucros dela em 2012, 96% em 2013 e 62% em 2014, um indicativo de negócios ilegais.
Ademais, a despeito do vultuoso faturamento, entre 2009 e 2010 a firma sequer tinha funcionários. Em 2012 tinha três, no ano seguinte oito e, embora tenha reduzido para seis funcionários em 2014, os recebimentos da G4 vindos do Instituto saltaram de R$ 263 mil reais para mais de um milhão de reais. Por determinação judicial o instituto também precisará comprovar a prestação de serviços da empresa à organização.
8) O trabalho copiado da internet do filho de Lula que valeu 4 milhões de reais
Caçula de Lula, Luís Cláudio é dono da LFT Marketing Esportivo, negócio de consultoria desportiva. A quebra do sigilo bancário dele revelou que eles receberam quase 10 milhões de reais desde 2009. A despeito dos valores significativos, a organização não possui nenhum funcionário.
A capacidade técnica demonstrada às autoridades não parece justificar tamanho faturamento. O trabalho entregue para comprovar a prestação de serviço à empresa de diplomacia Marcondes & Mautoni foi copiado da internet. Pelo trabalho receberam 4 milhões de reais. Dessa forma, ao que tudo indica, a organização nem sequer transmite expertise em consultoria.
A Marcondes é investigada pela Operação Zelotes e é acusada de comprar medidas provisórias durante o Governo Lula e Dilma Rousseff. A pessoa jurídica de Luís Cláudio teria intermediado essas transações. Atualmente seus bens estão bloqueados judicialmente.
9) O sobrinho que enriqueceu por influência de Lula
Taiguara Rodrigues era até 2009 um pequeno empresário da cidade de Santos, sendo sócio de uma empresa que fazia fechamentos de varandas em apartamentos. Isso mudou quando ele decidiu abrir empresas e utilizar-se da influência de seu tio, à época presidente da República, para fechar contratos no exterior.
A vida modesta que levava – vivia em uma casa com quarto e sala e um carro velho na garagem – mudou. Fechou contratos no exterior e passou a ostentar viagens em várias capitais do mundo, viver em uma cobertura duplex em Santos e andar de Land Rover, um veículo avaliado em mais de 200 mil reais.
A reviravolta na vida de Taiguara ficou mais fácil de ser entendida a partir de delação de Marcelo Odebrecht à Lava Jato. Foi revelado que Lula pediu que a empreiteira contratasse a empresa de Taiguara para obras realizadas na Angola.
A criação da empresa nada mais foi que um meio de usufruir da influência de seu tio, Lula. Taiguara chegou a levar para reuniões fotos autografadas por Lula para facilitar negociação de contratos.
O valor recebido pela empresa entre 2009 e 2015 foi de R$ 20 milhões.Esses contratos envolviam ainda financiamento do BNDES, isto é, você pagou por eles. O caso é mais um em que o ex-presidente é réu e responde por tráfico de influência.

Texto de Luan Sperandio, publicado pelo Instituto Liberal na Gazeta do Povo 
https://www.gazetadopovo.com.br/rodrigo-constantino/artigos/9-exemplos-de-como-e-bom-ser-proximo-lula