quarta-feira, 26 de março de 2025

Comovente e apavorante, 'Adolescência' mostra que o perigo está dentro de casa

Série da Netflix refuta respostas fáceis ao abordar radicalização de adolescente abandonado no ambiente digital

A comoção causada pela série "Adolescência", da Netflix, que teve 160 milhões de horas assistidas em apenas 13 dias, é sintoma de uma revelação inconveniente: a de que o perigo está dentro de casa.

No enredo, adolescente Jamie Miller, 13, é o autor de um homicídio. Ele esfaqueou Katie, 13, sua colega de classe. E não se trata de um spoiler: a informação é apresentada logo no primeiro episódio. A questão que a série levanta não é quem nem como, mas por quê. E não há resposta simples nem única.

A incômoda sensação de proximidade com a tragédia que "Adolescência" provoca é fruto da aparente normalidade do contexto do assassino: uma família convencional e amorosa, uma escola tradicional, um quarto com computador e bichinhos de pelúcia.

Online e sem o conhecimento de seus pais, Jamie sofria bullying de Katie e acessava conteúdos redpill e incel, duas subculturas violentas da internet que compõem a chamada machosfera ou manosfera.


Redpill é o termo usado para designar indivíduos e grupos que pregam uma superioridade masculina radicalizada e que compartilham conteúdos misóginos, de ódio e submissão de mulheres.

Já incel, flexão em inglês das palavras celibatário e involuntário, indica pessoas que não conseguem encontrar um par romântico ou sexual. Majoritários entre os incels, os meninos culpam as mulheres por seu celibato involuntário e, em muitos casos, pregam a violência como vingança.

Especialistas ouvidos pela Folha alertam que este tipo de conteúdo é cada vez mais comum na internet, atrai adolescentes vulneráveis em busca de pertencimento e tem potencial para radicalizá-los a ponto de discursos de ódio online se concretizarem em crimes cometidos no mundo real.

Eles também são unânimes em dizer que os pais precisam estar mais presentes e acompanhar com atenção os conteúdos que crianças e adolescentes acessam na internet, além de suas conversas em redes sociais e aplicativos de trocas de mensagens.

"O cenário hoje é muito desafiador", afirma o delegado da Polícia Federal Flávio Rolim, chefe da Unidade de Repressão a Crimes Cibernéticos de Ódio (Urcod).

"Jovens que são abandonados no ambiente cibernético, desamparados, são recebidos por essas comunidades que promovem uma cultura de ódio contra mulheres, contra negros etc.", diz. "Há comunidades incel e redpill que monetizam muito dinheiro vendendo cursos e livros voltados a uma ideologia de inferiorização do sexo feminino."

Rolim diz enxergar, na prática, diferentes etapas de um processo de radicalização de adolescentes nas redes. Ela tem início na internet aberta, em redes como Instagram, Tiktok e Reddit e no YouTube, e em tom de brincadeira.

Em seguida, migra para programas como Telegram e Discord, em que circulam vídeos de violência contra mulheres e discursos de incitação a crimes.

O próximo estágio da radicalização acontece na dark web, a internet não indexada e que permite o anonimato, em que comunidades assumem nomes tão literais quanto clube dos feminicidas e clube dos estupradores, e por onde circula de tudo, inclusive tutoriais sobre como praticar atos de violência extrema. "O último estágio é quando essa subcultura se concretiza no mundo físico. E temos visto isso acontecer", afirma o delegado.

Vanessa Cavalieri, juíza da 1ª Vara da Infância e Adolescência do Rio de Janeiro, a única da capital fluminense a julgar crimes cometidos por adolescentes, corrobora o relato de Rolim. "Nos últimos anos, a gente tem tido muitos casos de feminicídio consumado por adolescentes, além de outras violências de gênero praticadas por eles", testemunha.

Ela revela também que parte desses meninos estava envolvido em comunidades misóginas na internet e que hoje há cada vez mais meninas adolescentes com medidas protetivas da Lei Maria da Penha por conta de stalkers e ex-namorados que as perseguem e ameaçam.

"Nesses grupos, meninos recebem explicações fáceis para suas infelicidades. Eles propagam que mulheres não prestam, que são interesseiras, e que o problema, portanto, é com elas, e não com os meninos", conta.

Expostos periodicamente a imagens de violência inapropriadas para sua idade, eles se dessensibilizam. "É um mecanismo de proteção que vem sendo falado e estudado, e cuja consequência é a redução da empatia", diz.

Para Thiago Tavares, diretor-presidente da Safernet Brasil, essa naturalização da misoginia extrapola esses grupos. "Uma parcela da população naturalizou esse tipo de conteúdo, que passou a circular mais amplamente, inclusive em discursos políticos, vídeos, programas de rádio e podcasts, o que faz com que muita gente passe a defender essas ideias como legítimas."

A psiquiatra da infância e adolescência Gabriela Viegas Stump, que atua no Hospital das Clínicas da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) e no Sírio Libanês, ambos em São Paulo, explica que a exposição a esses conteúdos eleva o risco de dessensibilização porque ocorre em uma fase do desenvolvimento em que o adolescente "não tem desenvolvida a capacidade de se colocar no lugar do outro".

"Quanto mais jovem a pessoa é exposta a conteúdos violentos e abusivos, maiores as chances de se identificar com comportamentos negativos e de ser influenciado por eles ou de querer imitá-los, porque ainda não existe uma capacidade de pensamento crítico desenvolvida", explica ela. "O adolescente não tem arcabouço neurológico para a percepção do contexto e das consequências de longo prazo disso."


Para Juliana Diniz, psiquiatra, psicoterapeuta e neurocientista, pesquisadora no Instituto de Psiquiatria no Hospital das Clínicas, a banalização da violência por conta da hiperexposição a conteúdos do gênero lembra os debates a potencial má influência de videogames violentos em adolescentes.

"Esse medo não se confirmou. E minha impressão clínica é que um adolescente que não é vulnerável nem sequer se interessa por este tipo de conteúdo extremo, mas aqueles em vulnerabilidade podem se interessar. E essas imagens passam a figurar nas fantasias desses adolescentes, criando teorias da conspiração e explicações sobre o que acontece com eles", analisa a autora do livro "O que os Psiquiatras Não te Contam" (ed. Fósforo).

O psicanalista Breno Herman Sniker, do departamento de psicanálise do Sedes Sapientiae, afirma que hoje meninos e homens têm dificuldade em lidar com a questão da masculinidade e não sabem como se posicionar de maneira razoável.

"O lugar do homem, que era tido como de respeito, dinheiro e poder, atributos desejados por mulheres que não trabalham, foi transformado pelas mudanças objetivas dos nossos tempos, quando muitas mulheres não precisam mais de um homem para sobreviver. Cria-se um vácuo em que essas ideologias redpill e incel se instalam porque trazem respostas fáceis."

Para ele, a série traz muitas camadas, entre elas, a do bullying que Jamie sofre. "Na idade dele, ser humilhado perante os amigos e colegas é algo mortal e envolve um sentimento de morte mesmo porque não são muitos os mundos em que esses adolescentes podem circular", explica.

A também psicanalista Julieta Jerusalinsky, professora da PUC-SP e diretora do Instituto Travessias da Infância, explica que a passagem para a adolescência tem a complexidade do luto da infância, do brincar e da proteção mais próxima dos pais. "Passa-se a um momento de transição dos laços familiares para os laços sociais, seja nas amizades, nos namoros ou nos interesses de vida. O adolescente é alguém que quer ganhar experiência e, portanto, pode acabar produzindo atos que decisivos para quem ele vai se tornar."

Jerusalinsky aponta que adolescer hoje em dia, no entanto, traz o desafio extra de uma cultura em que as redes sociais ocupam o lugar dos laços sociais, da família e dos namoros.

"Neste contexto, é complicada a função dos pais, que muitas vezes acham que os filhos estão protegidos porque estão no quarto, mas, através da janela virtual, chegam a eles transmissões não mediadas e discursos de intolerância que incentivam a violência com quem é diferente", diz. "É isso o que torna a série tão chocante."

Para ela, a série "não cai na armadilha de diagnosticar este ou aquele personagem, mas revela a complexidade de um laço social que é pervertido pela lógica da fama e da difamação das redes sociais, que impele a atos de violência contra si mesmo e contra os outros".

O remédio, diz, passa por conversar e debater as diferenças e discordâncias.

"O que aconteceu ali e acontece em quase todas as famílias é o abandono digital", diz a juíza Cavalieri. "Isto é, a negligência dos pais no ambiente digital, porque estão muito distraídos com seus trabalhos e seus próprios celulares", aponta. "Isso é uma violência porque coloca crianças e adolescentes em situação de risco extremo, seja porque podem ser tornar vítimas de abusos por quadrilhas digitais, seja porque podem acessar conteúdos inapropriados e perigosos."

Segundo ela, os pais precisam supervisionar o que adolescentes acessam e usar aplicativo de controle parental para monitorá-los e bloquear certos conteúdos.

"Há uma desconexão com a realidade. Os pais entregam aos filhos um produto que ele não tem maturidade para lidar sozinho. A idade mínima para usar WhatsApp é 16 anos. E quantos pais criam contas para os filhos mesmo assim e deixam eles sem monitoramento?", questiona. "Os pais ainda não entenderam que olhar o grupo de Whatsapp não é invadir privacidade, não é como ler um diário. É, sim, como supervisionar seu filho numa praça pública."

Reportagem de Fernanda Mena na Folha de São Paulo

https://www1.folha.uol.com.br/equilibrio/2025/03/comovente-e-apavorante-adolescencia-mostra-que-o-perigo-esta-dentro-de-casa.shtml

segunda-feira, 24 de março de 2025

Não existe alimento ultraprocessado saudável, diz médico britânico

Christofer van Tulleken se submeteu por um mês a uma dieta do tipo e escreveu o livro 'Gente Ultraprocessada'

Eu não estou gostando, mas não consigo parar", diz o infectologista Christopher van Tulleken, do Hospital de Doenças Tropicais em Londres, em um vídeo para a BBC britânica em que documenta o mês durante o qual se submeteu a uma dieta na qual 80% dos alimentos eram ultraprocessados.

Nesse período curto, Van Tulleken ganhou mais de seis quilos, seu cérebro passou a associar comida com as recompensas do sistema límbico e exames acusaram que os hormônios reguladores da saciedade e da fome ficaram totalmente descontrolados. É sob essa dieta com 80% de ultraprocessados que vivem 20% dos adolescentes no Reino Unido —no geral, o consumo de ultraprocessados corresponde a 66% da dieta dos jovens.


O experimento na pegada "Super Size Me" —documentário de 2004 em que o diretor Morgan Spurlock come McDonald's por um mês— não foi um pedido desesperado de socorro de Van Tulleken. Ele emulou, guardadas as proporções, um dos principais estudos que tenta comprovar a tese da classificação Nova, criada pelo brasileiro Carlos Monteiro e outros pesquisadores do Nupens/USP (Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde) e que sugere que o nível de processamento é determinante na qualidade dos alimentos.

Van Tulleken partiu dos achados de Kevin Hall, pesquisador do NIH (National Institute of Health) dos Estados Unidos, em um estudo em que voluntários ficaram um mês confinados num laboratório onde dormiam, comiam e se exercitavam. A comida, porém, era ultraprocessada para metade do experimento e livre de ultraprocessados para a outra metade.

"Se você se preocupa com a sua alimentação, pegue seu pacote de M&M's e leia os ingredientes. E se pergunte por que eles estão ali", diz Van Tulleken em entrevista à Folha, após questão levantada pela reportagem. "Pode haver óleo de palma, corantes, emulsificantes. Isso é realmente delicioso? Tratar um ultraprocessado como um produto de luxo, que é o que a indústria quer, não cola. A comida não é boa o bastante e se torna nojenta rapidamente."

O médico reforça que não acredita que existam bons ultraprocessados, seja um iogurte, um pão de forma ou um salgadinho. O problema, ele diz, não é o consumo esporádico de, digamos, um pacotinho dos confeitos coloridos, mas o fato de que esse tipo de alimento é hoje a base de dietas —e disputas econômicas e políticas acirradas— ao redor do mundo.

Por que o sr. decidiu se usar de cobaia nesse experimento inspirado nos estudos de Kevin Hall?

Por duas razões: primeiro, queríamos um paciente piloto para um estudo maior, que está acontecendo agora. Queríamos entender se valia a pena fazer um grande estudo, então a melhor coisa era ter um voluntário para ver quais mudanças ocorriam num ambiente não controlado. Em segundo lugar, filmamos o experimento para um documentário da BBC, e documentários precisam de pessoas fazendo coisas interessantes. Não dá para só ficar falando.
Há uma terceira razão que é: eu não pensei que seria algo de mais. Eu acreditava nas evidências do Kevin [Hall], mas não me parecia que veríamos grandes mudanças, principalmente porque eu não estava confinado. Eu estava livre no mundo, ingerindo uma dieta típica de adolescentes. Achei que o impacto em mim seria menor do que o observado no estudo do Kevin. Mas acabei ganhando um monte de peso, que levei dois anos para perder.

Isso é impressionante. Levou dois anos para o sr. perder o peso adquirido em um mês comendo uma dieta 80% composta por ultraprocessados.

Sim, porque eu ganhei mais de 6 kg e perder peso, mesmo 1 kg, é difícil. E eu ganhei mais peso depois que a dieta de ultraprocessados acabou porque eu estava me sentindo um lixo.

O sr. relata, no livro, o impacto não só do ganho de peso, mas da forma como o sr. se sentia durante a dieta de ultraprocessados.
Eu me sentia péssimo. Quando você está nessa dieta, comendo essa comida, você já se sente mal. Mas você não percebe que é a comida. Você imagina que sua esposa e suas filhas tiraram aquele mês para ser especialmente irritantes. É o que acontece quando você está cansado e qualquer pessoa ao redor te irrita e você acha que eles são o problema. Mas eles não são. O problema é cansaço ou estresse. E isso vale para a comida. Nós não associamos o mal-estar à comida.


Quando eu parei a dieta, me senti melhor entre 24 horas e 48 horas depois. Uma semana depois, me senti ainda melhor. Mas as mudanças no meu cérebro foram duradouras. Eu continuei viciado naquela comida, apesar de não gostar mais dela. É importante diferenciar gostar de querer. Eu sentia necessidade daquela comida, mas, quando a comia, a achava nojenta. Foram meses confusos, em que eu pedia um fast food e jogava [a comida] fora sem comer.

No livro o sr. diz que a popularidade dos ultraprocessados não se dá necessariamente porque são alimentos deliciosos ou benéficos, mas por serem baratos e práticos. O sr. acha que existe um aspecto social da comida ultraprocessada que precisa ser levado em consideração nesse debate?

Você está certa, as pessoas não querem comer essas coisas. Veja o que as pessoas muito ricas comem, o que as celebridades comem. Talvez com exceção de Donald Trump comendo seu McDonald's, são pessoas que comem muito bem. Se uma pessoa não precisasse comer ultraprocessados, ela não comeria. Comida de verdade custa muito dinheiro no Reino Unido. Devemos encarecer os ultraprocessados e mudar os sistemas de subsídios. Ultraprocessados são baratos na hora de comprar e caros na hora de comer. É o custo da saúde pública, da poluição com os plásticos, da emissão de carbono.

Existem casos no Brasil de crianças que estão simultaneamente obesas e desnutridas, em grande parte porque elas se alimentam de ultraprocessados em versões ainda mais baratas.

É crucial entender que obesidade e desnutrição andam de mãos dadas. A mesma comida que causa obesidade leva à desnutrição. Pensamos na desnutrição como uma deficiência de calorias, mas pode haver um excesso. São alimentos que causam desnutrição porque eles existem a partir da destruição de nutrientes na comida, que são rearranjados para garantir durabilidade.

Os Estados Unidos baniram o corante vermelho nº3, que já era banido na União Europeia, onde também se proíbe o dióxido de titânio. Como o sr. enxerga essas tentativas de regulação?


Existem duas abordagens para isso. Há quem diga que é possível tornar os hambúrgueres do McDonald's 10% mais saudáveis. Tire o sal, o açúcar, adicione fibra, proteína e vitaminas —para algumas pessoas, isso seria um grande ganho. Banir corantes é similar no sentido de ser um passo na direção certa. É positivo por revelar o poder da indústria alimentícia, revela o desejo de colocar componentes maléficos na comida.
Mas mesmo sem corantes, com menos açúcar, menos sal, são alimentos que ainda seriam ultraprocessados. A genialidade da classificação Nova está em sinalizar que o processamento é a questão. Eu acho impossível reformular ultraprocessados. Não existe ultraprocessado saudável. Existem menos maléficos, mas só. O corante vermelho não é o prejudicial desses produtos. O que é prejudicial é que todos os aspectos dele levam ao consumo excessivo e ao lucro. Não há aspecto nutritivo ou de saúde. O corante é só um sinal de que uma comida é feita por uma empresa que não se importa com a saúde.

Já que o sr. mencionou o consumo excessivo como um problema, algo que eu me pergunto sempre, e imagino que muita gente que goste de comer M&M's ocasionalmente também queira saber, é se existe uma quantidade segura de ultraprocessados que podemos ingerir.

Os efeitos na saúde são variáveis de acordo com a dosagem. É como com o cigarro. Não tem quantidade segura, mas um cigarro por semana não vai te fazer um grande mal se você já está exposta à poluição de São Paulo. Um teco de cocaína por mês não vai fazer mal, um pouquinho de heroína. O problema com a heroína e os M&M's é que é difícil comer um só. Ninguém passa a semana comendo ensopado caseiro, vegetais frescos e saladas de frutas e chega na sexta-feira e come M&M's. As pessoas tomam sorvete na quinta-feira e [comem] uma barra de chocolate no café da manhã e biscoitos à tarde e tomam mais sorvete no sábado e comem um cachorro-quente no domingo. O problema é o padrão de dieta.

Pensando no consumo infantil de ultraprocessados, e até na experiência com sua filha pequena comendo uma tigela de cereais com o sr. durante a parte ultraprocessada do experimento, como o sr. vê a questão do marketing direcionado aos pequenos, com animais fofos e cores chamativas?

As empresas predam os mais vulneráveis, os menos escolarizados, os mais pobres. As crianças são as mais vulneráveis de todos, e esse processo começa no marketing, que começa na persuasão para que os pais troquem o leite materno por fórmula. Comida de verdade é algo desafiador. Tem que mastigar, muitas vezes são fibrosas, amargas. Crianças comem mais que os adultos quando se pensa no consumo por peso e eles não sabem ler as caixas do que comem. Eles não têm autocontrole, são impulsivos. Os cartoons precisam sair das embalagens. Precisamos proteger as crianças do marketing.

Houve na Europa um debate acirrado sobre o Nutri Score, o sistema de etiquetas que classifica alimentos como saudáveis ou prejudiciais. A primeira-ministra italiana Giorgia Meloni pegou a briga pra si no contexto de um debate sobre a valorização de queijos, presuntos e produtos artesanais nacionais, que acabaram mal avaliados nesse sistema. É um projeto eficaz?

Não há forma perfeita de descrever comida saudável ou não saudável. Países sul-americanos têm bons sistemas, a partir da OPAS (Organização Pan-Americana da Saúde). Mas será que um açougueiro de uma cidade do interior precisa colocar um aviso de excesso de sal e gordura no presunto que ele fez? Eu não acho que essas pessoas sejam parte do problema de saúde pública em curso. Presunto não é saudável, mas pessoas não compram quantidades gigantes disso. É parte de um modo de viver tradicional.
Temos que construir leis que não penalizem o pequeno produtor que faz comida tradicional. O jeito fácil é deixar claro que estamos falando de alimentos feitos por grandes empresas, embalados, que não demandam preparo posterior. O problema não é uma empanada tradicional vendida na rua ou o queijo da delicatessen. Nada disso é vendido em embalagens com personagens infantis. Se o alimento vai ter um aviso na embalagem, deveria ser proibido ter também um personagem.

Existe um debate, capitaneado por pesquisadores em Harvard, de que alguns ultraprocessados são piores do que outros. As carnes seriam os piores, e um iogurte seria melhor do que um refrigerante. Devemos levar isso em consideração ou todos os ultraprocessados devem ser tratados da mesma forma?

Podemos discutir o dia todo se pão é melhor que chocolate, se uma dieta só de pão seria melhor que uma dieta só de chocolate. Mas ninguém faz isso. O pão está na base da dieta e é cheio de açúcar, sal e gordura. Sempre mencionam o iogurte, que é cheio de açúcar. Eles deveriam ganhar um aviso de que foram adoçados artificialmente. Ninguém está dizendo que tudo é exatamente igual, que Cheetos é igual a pão. Mas é difícil criar uma análise de dados de subgrupos quando olhamos índices de sal, açúcar, gordura e teor calórico. Para comunicar isso às pessoas você cria um sistema que diz que Cheetos é uma merda e que o pão também não é lá essas coisas, mas melhor que o Cheetos.

Bárbara Blum da Folha de São Paulo entrevistou o médico Christofer van Tulleken

Livro Gente Ultra-Processada
Preço R$ 80 (432 págs.)Autoria Christoffer van TullekenEditora Elefante e O Joio e o TrigoTradução Érika Nogueira Vieir

RAIO-X | CHRIS VAN TULLEKEN, 48
1978, Londres. É médico formado pela Universidade de Oxford e autor de "Gente Ultraprocessada". É apresentador de TV na Inglaterra e esteve a frente de programas como "Medicine Men Go Wild" e "Operation Ouch!".

https://www1.folha.uol.com.br/equilibrio/2025/03/nao-existe-alimento-ultraprocessado-saudavel-diz-medico-britanico.shtml