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segunda-feira, 2 de maio de 2011

Indústria 'turbinou' cigarros com drogas emagrecedoras

Indústria 'turbinou' cigarros com drogas emagrecedoras, diz estudo

Pesquisa suíça mostra que a prática durou 50 anos, segundo documentos das fabricantes

Substâncias como anfetaminas já fizeram parte da composição dos produtos; empresas refutam acusação



Shutter stock
MAGREZA QUÍMICA: Pesquisa mostra como a indústria adicionou elementos químicos para que o cigarro reduzisse o apetite

Seis das maiores fabricantes de cigarro do mundo usaram ou fizeram planos de usar aditivos químicos em seus produtos para reduzir o apetite, de acordo com uma pesquisa feita por médicos da Universidade de Lausanne, na Suíça.
Os documentos citam o uso de anfetamina, efedrina, gás do riso e ácido tartárico, entre outras substâncias.
Anfetamina e efedrina são conhecidos redutores de apetite. Gás do riso suprime a fome ao alterar o sabor dos alimentos, segundo os autores. Ácido tartárico reduz a fome ao ressecar a boca. A pesquisa foi publicada na última edição do "The European Journal of Public Health", editado pela Universidade de Oxford.
A prática durou pelo menos 50 anos, de 1949 a 1999, ainda de acordo com o grupo de pesquisadores. O levantamento foi feito em documentos da própria indústria do cigarro. Os papéis se tornaram públicos por conta de uma ação dos EUA na qual as empresas foram condenadas por terem omitido os males provocados pelo fumo por 40 anos.
A ação resultou na maior indenização da história (cerca de US$ 220 bilhões ou R$ 346 bilhões) e na abertura de todos os documentos da indústria, por ordem judicial.

MULHERES
A vantagem do supressor de apetite para a indústria é que ele amplia uma característica do cigarro: a capacidade de reduzir a fome.
A estratégia deu certo: até hoje, muitas mulheres dizem que não vão parar de fumar porque engordariam. Não dá para saber se a prática continua, segundo Semira Gonseth, uma das autoras do trabalho.
"Precisamos de mais estudos químicos sobre os ingredientes do cigarro ou de uma lei que obrigue a indústria a revelar o que ela usa", disse Gonseth à Folha.
"Essa descoberta dos moderadores de apetite mostra que a indústria nunca teve ética para nada. Ninguém sabe que efeitos colaterais esses supressores podem ter", diz a médica Vera Luísa da Costa e Silva, que dirigiu a seção mundial de controle de tabagismo da OMS (Organização Mundial da Saúde) e é uma das maiores autoridades em tabaco no mundo.

FUMAÇA E PESO
O cigarro ajuda naturalmente a controlar o peso porque a nicotina diminui a ação da insulina, reduzindo a entrada de glicose nas células.
O efeito disso é a diminuição na sensação de fome, afirma Costa e Silva. O adição do supressor de apetite potencializa essas características.
O plano de incluir aditivos que diminuem a fome, segundo os documentos, visava conquistar novos consumidores: as mulheres.
Um documento da Philip Morris de 1965 explicita essa tática: "Se fôssemos capazes de desenvolver um cigarro muito mais "seguro' do que os existentes [...] e que agisse como um supressor de apetite, descobriríamos um novo mercado de fumantes".
Projeto de desenvolvimento de um Marlboro mais fino, voltado para mulheres, cita como característica desejável a "supressão de apetite".
É da Philip Morris, líder mundial no mercado de cigarros e fabricante do Marlboro, a maior parte dos documentos com referência a moderadores de apetite encontrados pelos pesquisadores.

PIPOCA
Questionada pela Folha, a empresa diz que não usa esse tipo de aditivo, mas se recusou a comentar o passado.
Um projeto do Pall Mall, cigarro popular nos anos 70, cita como aditivos a cafeína e a efedrina. Uma molécula patenteada para reduzir o apetite, a 2-acetilpiridina, que dá um sabor de pipoca ao cigarro, foi usada pela BAT (British American Tobacco, dona da Souza Cruz), Philip Morris e outras duas fabricantes.
A empresa inglesa, que controla a Souza Cruz, também usou ácido tartárico em cigarros, de acordo com os pesquisadores. Esse ácido resseca a boca e foi proibido de ser adicionado ao tabaco pela Justiça dos Estados Unidos em 1977.



Texto de Mario Cesar Carvalho na Folha de São Paulo de 02/05/2011

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