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quinta-feira, 23 de junho de 2011

Pressa em liberar as drogas

Ruy Castro escreve

Nos últimos tempos, não se abre um jornal, revista, portal, blog ou embalagem de pizza no Brasil que não contenha um artigo em defesa da liberação da maconha. A causa é defendida por criminalistas, sociólogos, economistas, historiadores e por um ex-presidente sem agenda e em disponibilidade -o mesmo que, em oito anos no emprego, dedicou pouca ou nenhuma atenção ao tema, contra ou a favor.
Não se veem muitos médicos, terapeutas, assistentes sociais, profissionais da saúde pública e estudiosos da dependência química em geral abraçando a causa. Talvez seja mais fácil defender a liberação a partir de tabelas e dados estatísticos, não da realidade das clínicas de dependência -e da realidade ainda mais dura da grande maioria, que não chega a se beneficiar dessas clínicas e morre na rua, depois de devastar a vida de suas famílias.
A pressa em liberar parece ignorar que uma das consequências seria o ingresso a jato de milhares de jovens no universo de outras drogas. Uma amostra disso é a recente e fulminante penetração do crack, inclusive em cidades em que, até há pouco, a droga mais mortífera era o quentão nas festas juninas.
Para prevenir tal tragédia, devem estar contando com a criação maciça, pelo Ministério da Saúde, de centros de recuperação em todo o país, com capacidade de atendimento condizente com o súbito volume de emergências. Mas, pelos resultados pífios que o Brasil vem mostrando no combate, por exemplo, à dengue, não há razão para acreditar que, de uma penada, o país possa absorver e tratar as legiões de novos usuários -recuperá-los, então, já é outra história.
Os defensores da liberação fariam melhor se se dedicassem a uma campanha nacional de esclarecimento sobre as consequências da dependência química. Mas, para isso, primeiro, precisariam aprender como esta se dá.
Ruy Castro na Folha de São Paulo de 10/06/2011

Meu comentário sobre o texto acima
Parabenizo o jornalista Ruy Castro pelo excelente artigo sobre a "pressa em liberar as drogas.
Eu pergunto a estes irresponsáveis, vamos liberar a venda de cigarros a menores de 18 anos?
Vamos liberar a venda de bebida alcoólica a menores de 18 anos?
Vamos liberar a venda de maconha e drogas pesadas a menores de 18 anos?
Se vamos liberar tudo isto, então que Deus tenha piedade de nossa juventude.

A advogada Ana Paula Pires Nobre também comentou:
Qualquer especialista em segurança pública pode dizer pra vc que o problema do tráfico de drogas não é somente liberar o uso delas e pronto!
O assunto liberação de drogas é tratar superficialmente um assunto, o crime de tráfico, que é tão rentável quanto exploração de prostituição e tráfico de pessoas.
O pessoal que usa drogas, não sei por que se preocupa tanto que elas sejam legalizadas por exemplo. Eles podem usar pequenas quantidades, que são enquadrados na lei dos usuários. É considerado problema de saude pública o uso de drogas.
Quem vem com esse papinho de liberar drogas, porque as pessoas tem livre arbítrio e bla-bla-bla, na minha opinião, são aqueles usuários que vão pra festinha distribuirem drogas. Em troca do passaporte pra entrar na festa badalada, levam drogas pra divertir os convidados.
E essa conduta É CRIME DE TRÁFICO! Porque a pessoa fornece a outrem substância entorpecente é traficante. E isso é assim no mundo inteiro!
Até na Holanda viu? O pessoal pensa que tudo é liberado lá, mas está é com mitos na cabeça. E o uso de maconha em Amsterdã é limitado e somente pode ser fumada em coffe shop, ou cafeteria. E o dono tem quantidade mensal pra vender. Se a policia descobrir que ele tem mais, e preso por trafico de drogas.
O simples porte de maconha ou cocaina por exemplo, em quantidades pequenas, é uso de drogas e isso não é crime. Mas passar cigarrinhos de maconha pra todos da rodinha, é crime de tráfico. Derramar cocaina em cima da tampa do vaso sanitário e dividir com os amigos é crime de tráfico.

Problema e solução 
Ruy Castro escreve

Um fator importante no sucesso de qualquer tratamento nas clínicas de dependência química, até alguns anos, era o isolamento do paciente. Não apenas ele só tinha direito a visitas nos fins de semana como seu acesso ao telefone era regulado -havia um único aparelho comum, e cada interno só podia usá-lo dez minutos por semana. A ideia era a de que o sujeito estava ali para se tratar, não para fazer vida social, e uma clínica para esse tipo de tratamento não é um spa, resort ou salão de cabeleireiro.
Supunha-se que, para suportar a dureza da súbita abstinência e, aos poucos, adquirir alguma lucidez para absorver as palestras e terapias, o paciente não devia ficar exposto a solicitações externas -como saber que o filho tirou zero em matemática, o cunhado sofreu sequestro-relâmpago ou a namorada fugiu com o entregador de pizza. Por mais graves, esses problemas só podiam ser enfrentados depois que o paciente aprendesse a lidar com o seu inimigo maior, o álcool, a droga ou ambos.
Mas isso, naturalmente, foi antes de celular, internet, Twitter, Orkut, Facebook e outras "ferramentas" que tornaram impossível qualquer privacidade. Como fazer com que o fulano se concentre no tratamento se o mundo não o deixa em paz, nem ele o mundo?
As clínicas mais responsáveis têm aplicado ao celular a medida que já adotavam em relação a outras coisas na entrada do paciente, como dinheiro, desodorante líquido, loção pós-barba, remédios para dormir, moderadores de apetite e vários tipos de medicamento: o confisco. Não se pode correr o risco de o camarada, na agonia da abstinência, beber Aqua Velva ou cheirar Melhoral.
Da mesma forma, antes de quebrar a corrente que o prende a certas substâncias, o indivíduo precisa esquecer temporariamente que o mundo existe. Por incrível que pareça, isso é possível.
De Ruy Castro na Folha de São Paulo de 22/06/2011


Legalizar, nem pensar! 
Ronaldo Ramos Laranjeira e Ana Cecília Roselli Marques escrevem
Maconha, além do tabu
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Já existem drogas lícitas que favorecem o uso das demais, não é preciso disponibilizar nenhuma outra; legalizar a maconha, nem pensar!
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Vive-se há pelo menos dez anos no Brasil "duas ondas" perigosas: a do aumento do consumo de todas as drogas de abuso, principalmente em jovens adultos, e um forte debate para um abrandamento ainda maior das leis em relação à maconha. Como os atores são poucos, a solução para o aumento do consumo e o aprofundamento do debate não têm sucesso, pois não atingem todas as dimensões do fenômeno.
Os dois fatores podem agravar a situação, preceder o abrandamento para consumo de outras drogas e confundir ainda mais a população.
Depois disso, só mesmo a legalização, e aí o número de usuários vai aumentar, uma porcentagem significante deles se tornará usuário pesado e, para aumentar o número deles, muito será investido.
O debate é simplório e produz um glamour sobre o uso recreacional, seguindo a mesma metodologia da indústria do álcool, cuja comunicação ambivalente mostra que a cerveja não faz mal, é natural, basta usar moderadamente; além do mais, é medicinal.
Mais parece uma campanha de marketing com personalidades, passeatas, filmes e várias inserções na mídia, visando lançar mais um produto, mas que não é um produto qualquer e que pode, sim, trazer prejuízos.
De um lado, expandem-se apenas os direitos individuais, de outro, publica-se, por meio da neurociência, a imprevisibilidade dos efeitos dessas drogas, cujo impacto vai além do indivíduo, atingindo toda a sociedade, e questiona-se o direito da maioria da população de não usar drogas.
Os argumentos para que não se abrande ainda mais a lei das drogas e muito menos se almeje a legalização são muitos. O fenômeno das drogas é complexo, assim como a solução; portanto, as etapas para entender o fenômeno, atualizar-se sobre suas implicações e preparar a sociedade para mudar seus pensamentos e comportamentos ainda estão muito longe de acontecer.
Todas as drogas psicotrópicas alteram a capacidade de decidir; assim, os jovens, que já não possuem essa função mental plena, decidirão ainda menos preparados.
Já existem drogas lícitas que favorecem o uso das demais, não é preciso disponibilizar nenhuma outra. As complicações do uso são agudas e crônicas, com interfaces como a violência, a contaminação por doenças sexualmente transmissíveis e a gravidez indesejada.
As doenças mentais e de comportamento, as doenças cardiovasculares, pulmonares, os cânceres, além das malformações congênitas, são frequentes.
Sem prevenção, sem tratamento adequado e disponível, diante da diversidade cultural do país, a política deveria ser desenhada para cada droga, para cada região.
Uma política para a maconha, que no Brasil já tem no mercado, há muito tempo, cigarros mesclados com cocaína, para produzir maior impacto no "freguês", deveria ser baseada em evidências e ter a mesma importância que as demais.
É preciso lembrar que a economia das drogas é uma das três maiores economias do planeta. Enfim, debater é preciso, de forma equilibrada e permanente, com todos os atores disponíveis: políticos, pesquisadores, o usuário e seus familiares, além de outros representantes da sociedade civil.
Fundamentalmente, com foco em um modelo de proteção para crianças e adolescentes brasileiros, pelo direito à prevenção de drogas; se o problema já estiver instalado, pelo direito a um bom tratamento.
Legalizar, nem pensar!
Os autores do texto são
RONALDO RAMOS LARANJEIRA, professor titular de psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e coordenador do Instituto Nacional de Políticas sobre Álcool e Drogas (Inpad/CNPq).
ANA CECILIA PETTA ROSELLI MARQUES, doutora pela Unifesp, pesquisadora do Inpad/CNPq.
Fonte: Folha de São Paulo de 23/06/2011

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