Cumprimento quem cruza meu caminho, talvez com inspiração no meu paiSe um brasileiro reclama de que os franceses são mal-educados, deveria reconsiderar
Digo "bom dia" a toda pessoa que cruza o meu caminho. Talvez eu me inspire no meu pai, que perguntava de manhã a quem encontrasse: "Bom dia, flor do dia, tomou banho de bacia de água fria na casa da sua tia?"
No interior, todos respondem. Na cidade, a grande maioria. Se for um segundo depois do meio-dia, passa a ser boa tarde, e muita gente me corrige se ainda digo bom dia.
Um segundo depois das seis da tarde, vira boa noite. Me pergunto se aqueles que corrigem ficam aguardando o ponteiro do relógio cravar a hora de mudar para repreender quem erra a saudação.
Um grupo considerável não responde: os jovens. Que também não dizem "obrigado". Numa pesquisa global da Ipsos, 70% dos jovens preferem resolver interações via texto e evitam conversa por voz.
Desconfiança? Ocupados numa realidade paralela, marcada pelos traumas do isolamento social da pandemia? Fones de ouvido? Sinapses em curto por conta da desconcentração causada pelas redes sociais?
Ou, pior, uma geração de mal-educados se forma diante de um mundo distópico e despótico, legado de gerações anteriores. Fico triste por eles. Por vezes, repito: "Bom dia". Me ignoram novamente.
Pouco a pouco, vou desistindo, não cumprimento mais, repetindo o terrível lema de uma sociedade individualista: "Ema, ema, ema, cada um com seus problemas".
Minha irmã Nalu se mudou para Paris em 1982. Desde que fui visitá-la na primeira vez, ela me ensinou a etiqueta fundamental para se comunicar com franceses. E, quando me esqueço, ela até hoje me chama atenção. Viu a pessoa, "bonjour".
Entrei certa vez numa loja, tinha cinco vendedores, e escutei cinco vezes "bonjour". Responde-se a cada um.
Começar a pergunta sempre no futuro do pretérito do indicativo, na forma de tratamento "vous", jamais "tu" (a não ser para íntimos), sem se esquecer do "por favor" ao final, "s’il vous plaît".
A Revolução Francesa procurou igualar os cidadãos. Todos devem ser tratados com a mesma deferência, de um nobre a um plebeu. "C’est la vie"...
Nunca se esquecer do "obrigado", "merci". E de se despedir ao sair. Servem as variações: "au revoir" (até logo), "à bientôt" (até breve), "à tout à l’heure" (o nosso até mais), e minha preferida, "bonne journée", cuja tradução literal é metafísica, boa jornada, que é o que mais esperamos da vida: que ela seja intensa.
Italianos também usam "buona giornata". E exigem, antes de qualquer troca de palavras, um saboroso "buongiorno", assim como os espanhóis, "buenos días".
Se um brasileiro reclama de que os franceses são mal-educados, deveria reconsiderar. O problema não está em nossa espontaneidade? Se um patrício chegou a essa conclusão, é porque não proferiu as etapas corretas de se pedir um cafezinho.
Por exemplo: "Bonjour. Est-ce que je pourrais avoir un café, s’il vous plaît? Merci". Aqui chegamos ao balcão e soltamos, fazendo gestos com a mão: "solta um cafezinho", enquanto lá: "Bom dia. Será que eu poderia ter um café, por favor? Obrigado".
Aqui rolam as variações "cafezinho, chefia". Ou "chefe", "chegado", "companheiro", "amigo", "tio", "parceiro", "patrão", e a nova onda, "papai". Nenhum país é tão formal como a França. É lindo o respeito que se tem pelo outro. E nenhum país é tão informal como o Brasil; o que está impregnado na nossa alma é nossa identidade, mas pode ser considerado descortês.
No sofisticado podcast Não Importa —sempre uma aula que não se encontra numa faculdade de linguística—, João Vicente e Gregorio Duvivier debatem a linguagem do cotidiano. O programa é genial, porque falam num tom peremptório do aparentemente banal.
No episódio sobre "nepo babies", eles discorrem sobre cumprimentar um amigo e diferenças entre "meu irmão", "irmãozão", "bróder", "broderzaço", "meu bróder". "Querido", "querida" e "meu anjo" foram cancelados.
Duvivier conta um episódio que aconteceu recentemente em Lisboa. Está acostumado a ser reconhecido e bem tratado no aeroporto, por conta do sucesso lá de Porta dos Fundos. Diante do agente de imigração, enquanto procurava o passaporte, disse: "Desculpe, tá aqui, amigo". Levou uma dura: "Não sou seu amigo".
Estava diante do profissional na essência mal-humorado. Deve inclusive fazer parte do processo de seleção da alfândega escolherem os mais mal-humorados entre os inscritos. E, no treinamento, aperfeiçoarem o mau-humor. Se tivesse começado com um "bom dia"...
Meu pai dirigia sempre acima da velocidade permitida. Metia os cinco filhos no banco de trás e caíamos na estrada. Todos sem cinto, amontoados. Certa vez, fomos parados pela polícia. O patrulheiro se aproximou. Ele abriu a janela e ofereceu: "Bom dia, policial, quer um charuto?". Não foi multado.
Reportagem deMarcelo Rubens Paiva na Folha de São Paulo
Escritor, é autor de 'Feliz Ano Velho', 'Ainda Estou Aqui' e 'O Novo Agora'
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcelo-rubens-paiva/2026/08/jovens-de-uma-geracao-de-mal-educados-nao-dizem-bom-dia.shtml