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quarta-feira, 25 de julho de 2012

Pessimismo sem razão

Delfim Netto escreve:
Pessimismo
Quando olhamos a situação social e econômica do mundo, não podemos deixar de sentir perplexidade acompanhada de um sentimento de apreensão. A sensação é a de que ele está caindo aos pedaços.
Não há para onde fugir. Parece não haver esperança que nossos filhos e netos viverão mais tranquilos e melhores do que nós. Uma nuvem escura e um nevoeiro opaco transmitem medo aos empresários (que não veem por que investir), intimidam os consumidores (que não confiam na continuidade do seu emprego) e acovardam o sistema financeiro (que teme ver-se subitamente envolvido num descasamento mortal entre seus ativos e passivos).
A explicação para tudo isso é que parte do sistema financeiro internacional transformou-se numa fonte inesgotável de patifarias. Estamos a ver o que ele foi capaz de fazer com a Libor (London Interbank Offered Rate), a taxa de juros interbancária estabelecida em Londres (o centro financeiro mais importante do mundo), que durante anos foi determinada pela Associação dos Banqueiros Britânicos e parecia ser o último reduto de moralidade que lhe restara.
A estrutura produtiva e financeira mundial ruiu porque foi destruída a frágil base sobre a qual é construída: a confiança dos agentes sociais nas suas atividades econômicas e financeiras.
O ideal seria reconstruir essa confiança simultaneamente em todos os países, pois elas se autoestimulariam e haveria uma retomada econômica generalizada e de menor custo. Isso parece pouco provável pelo descompasso em que os países se encontram no processo de recuperação. Cada um, portanto, sem fechar os olhos para o que está acontecendo aos outros, tem de acelerar a sua recuperação para minimizar os sacrifícios de ajuste.
No caso brasileiro, isso significa olhar objetivamente para a nuvem escura e enxergar mais longe no nevoeiro, para diminuir o pessimismo inerente à economia trimestral que acabou nos dominando.
Será aceitável concordar com o fato de que a única coisa que importa é o "balanço trimestral" para seduzir os "investidores"? Não há dúvida de que poderíamos estar melhor: mais educação e mais saúde com uma pouco melhor administração, algumas mudanças na política tributária e no mercado de trabalho, uma cooptação mais rápida do setor privado com concessões de projetos de infraestrutura com taxas de retorno realistas etc.
Não há, também, a menor dúvida de que, relativamente ao resto do mundo, não fazemos papel feio na fotografia. E mais, há uma clara determinação política da administração federal naquela direção.
Nossas condições objetivas não sustentam o pessimismo que domina alguns setores da sociedade brasileira.


De Antonio Delfim Netto na Folha de São Paulo de 25/07/2012

Josué Gomes da Silva escreve: 
Gigante pela própria natureza
Em contrapartida a certo ceticismo que se observa quanto às perspectivas de o Brasil seguir enfrentando com sucesso a crise internacional, um dos mais reconhecidos economistas mundiais, Dani Rodrik, professor da Universidade Harvard (EUA), salienta nossa capacidade de crescer 5% ao ano, a despeito do cenário de baixa expansão que deverá permear a economia global ainda por longo tempo.


O mestre não ignora as dificuldades advindas da estagnação nos países desenvolvidos e da desaceleração chinesa. Mas demonstra conhecer as virtudes brasileiras para superar adversidades: contas públicas equilibradas, democracia consolidada e mercado interno pujante.


Brasil, Índia e Coreia do Sul, na visão do economista, são os países que têm melhor potencial para enfrentar problemas da economia.


Somam-se a essas condições estruturais, na visão do professor Rodrik, o impacto positivo das medidas anticíclicas adotadas pelo governo, como a redução de tributos para alguns setores e o reequilíbrio de duas variáveis macroeconômicas fundamentais -juros e câmbio, que têm contribuído para manter o nível de atividade em patamares razoáveis.


Também concordo com Dani Rodrik quanto à importância da ação do BNDES. Ele, que palestrou em seminário comemorativo dos 60 anos da instituição, salientou o quanto são significativos os financiamentos de longo prazo disponibilizados pelo banco para o investimento da indústria, do setor de infraestrutura e de outros segmentos de nossa economia.


O diagnóstico feito pelo economista reflete algumas políticas públicas implantadas com eficácia pelo Brasil nas duas últimas décadas.


E ainda temos numerosos pontos positivos não abordados pelo professor. A disponibilidade de água potável, por exemplo, fator fundamental para a vida e um bem humano cada vez mais escasso.


As reservas de água doce do Brasil somam 12% das do planeta, o dobro das chinesas e cerca de duas vezes e meia das americanas. Quando levamos em conta as populações -a chinesa equivalente a 19% da mundial, a dos EUA, cerca de 4%, e a do Brasil, de pouco menos de 3%-, vemos que nossa disponibilidade per capita de água é 12 vezes maior que a chinesa e quase quatro vezes maior que a americana.


Esse e outros fatores altamente favoráveis ao Brasil, e que abordaremos em próximas colunas, dão a dimensão e a força de nosso país.


Se economistas da envergadura de Dani Rodrik expressam sua confiança no Brasil, será que não deveríamos compartilhar tal sentimento, trabalhando com mais força e otimismo para, de fato, continuar crescendo?
Da Folha de São Paulo de 29/07/2012

4 comentários:

  1. "Não há para onde fugir. Parece não haver esperança que nossos filhos e netos viverão mais tranquilos e melhores do que nós." Eh mesmo? Interessante! Que eu saiba, desde que o Brasil foi descoberto, quem nao tem para onde fugir, muito menos esperancas que os filhos e netos viverao mais tranquilos e melhores eh o POVO, porque aqueles que governam o mesmo nunca precisaram ou precisarao se preocupar com um futuro cheio de carencias!!
    "Nao ha duvida de que poderiamos estar melhor: mais educacao e mais saude com uma pouco melhor administracao,..." O senhor esqueceu de mencionar uma coisa fundamental que eh o por que de nao estarmos melhor. Nao eh por falta de determinacao ou responsabilidade do povo, ja que o povo paga impostos religiosamente para ter estes DIREITOS garantidos! "Uma pouco melhor administracao"? Pouco? Houve um "lapso" aqui na nao mencao do arrastao da corrupcao desmedida que assola o Brasil desde sempre! Eh por conta da corrupcao que nao estamos melhor!! O politico brasileiro balaniza os direitos do povo. A impunidade eh tao grande que nao sentem obrigacao de cumprir mais nada do que "prometem". Agora dizer que "nao ha duvida de que, relativamente ao resto do mundo, nao fazemos papel feio na fotografia" eh inacreditavelmente surreal! Pelo que assume, nossa economia esta mesmo prospera. O estranho eh que a sua afirmacao e a realidade dos fatos destoam um pouco. O senhor diz que relativamente ao resto do mundo, nao fazemos papel feio na fotografia. Que fotografia eh esta que nao focou na desenfreada violencia urbana, na desigualdade social extrema, no desmoronamento moral e fisico da educacao publica, da falencia do sistema publico de saude e o carcerario, da corrupcao politica, etc, etc!!!
    Pessimismo sem razao? Sem duvida que para o politico brasileiro, nao ha razao alguma para ser pessimista quanto ao futuro: CPIs que sao instituidas so para "ingles ver", porque no fim todo mundo sabe que terminarao em pizza, imunidade parlamentar (= impunidade absoluta), mensalao, enxurradas de irregularidade, etc, etc...
    Estamos melhor na fotografia? Desde a infancia, assisto Jornal Nacional. Ha decadas atras, se discutia muito a questao da falta de estrutura na saude publica. Materias eram feitas em hospitais publicos do norte do pais, onde pacientes recebiam atendimento no chao, quando conseguiam atendimento. Hospitais sem o minino de infra-estrutura para funcionar. Absoluto descaso! Estamos em 2012 agora. As materias sao as MESMAS! Eh sucateamento absoluto da saude publica. Quem nao tem dinheiro para pagar um convenio so pode contar mesmo com a ajuda divina. O interessante eh que sempre que se faz uma materia assim, a administracao local diz que estava ja para implantar um projeto de reestruturacao da rede hospitalar. Interessante que ha decadas atras, a promessa era a mesma! E onde esta o projeto que nao foi implantado? Como pode??? Eh inacreditavel como NADA se faz!! Nao sei se eh incompetencia ou descaso total! Ou ambos??
    Assim, que fotografia ilusoria eh esta de que estamos melhor nela? Que grande demagogia afirmar que o pessimismo eh sem razao. Para o senhor talvez, tenho certeza de que nao tem do que se queixar mesmo. A sua fotografia e da sua familia inteira ate as proximas milesimas geracoes provavelmente nao deixa mesmo nenhuma impressao de feiura, ja que todos devem estar com um sorriso no rosto de ponta a ponta e aparencia facial imaculadamente impecavel, ja que podem ter o sono dos deuses todas as noites. Nao ha razao para preocupacao. Se sao pessimistas, o pessimisto eh absolutamente sem razao!!

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  2. Resposta ao anônimo: O texto é de autoria do ex-Ministro Antonio Delfim Netto.
    O artigo do Delfim diz que o pessimismo só faz a nação piorar, o empresário deixa de investir, o consumidor deixa de consumir e que não existem razões específicas para dizermos que estamos piores que hoje, do que em 2010, ou 1970 o ano do milagre.

    Quanto mim, confesso que sou otimista: acordo às 5:30, às oito marco o ponto e trabalho normalmente como qualquer trabalhador brasileiro.
    Do salário que ganho tento juntar umas economias e vou tocando a vida.
    Felizmente nasci, cresci e vivo no Brasil, felizmente não vivo na Bolívia, na Argentina, na Venezuela, também não vivo na Europa e muito menos no Oriente Médio.

    Sempre ensino meus filhos que o AMOR é fundamental, que a ORDEM é essencial e que o PROGRESSO depende de nosso trabalho.

    Quanto aos políticos, um dia nós aprenderemos a escolher melhor nossos representantes.

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    1. Parabens pelos grandes valores que tem transmitido a seus filhos! Eh mesmo fundamental ensinar os valores certos e fazer deles pensadores criticos.
      Igualmente, sou uma otimista. Adoro o Brasil, adoro ser brasileira, tenho orgulho disto, mas o que acho que tem superado todos os limites tem sido a impunidade com relacao as desonestidades que as pessoas que nos elegemos cometem! O senhor mencionou: "...um dia nos aprenderemos a escolher melhor nossos representantes." Acho que o problema nao esta em escolhar melhor os representantes, mas muito mais do que isto, ter opcao de voto. Nos nao temos opcao, nem mesmo opcao de nao votar porque somos obrigados como cidadaos.
      A dignidade com que leva sua vida deveria ser aprendida pelos nossos governantes. O nosso pais seria muito mais justo e prospero desta forma.
      Obrigado pelo seu comentario ao meu post. Tudo de bom!

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    2. Gigante pela própria natureza
      Publiquei mais um texto que fala sobre as diferenças entre o Brasil e resto do mundo.

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