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domingo, 25 de outubro de 2009

Nosso Guia e a teoria petista da imprensa



Lula sabia o que estava fazendo quando disse que a imprensa deve informar, e não fiscalizar


A BATATADA de Lula em sua entrevista ao repórter Kennedy Alencar reflete, de forma tosca e resumida, a opinião do comissariado de informações do Planalto e da nação petista sobre os meios de comunicação. Ele disse o seguinte: "Não acho que o papel da imprensa é fiscalizar. É informar. (...) Essa informação pode ser de elogios, de denúncias. (...) Para ser fiscal tem o Tribunal de Contas, a Corregedoria-Geral da República, tem um monte de coisas".
Nesse modelo não haveria lugar para as recentes denúncias de torturas de presos por agentes do governo americano. Muito menos para o caso Watergate, que acabou derrubando um presidente dos Estados Unidos. Mensalão? Nem pensar. Em todos os casos foi a ação fiscalizadora da imprensa que disparou e permitiu as investigações.
Não se tratou de uma bobagem do tipo "quando Napoleão foi à China". O comissariado realmente acredita que há uma conspiração da imprensa contra o governo e sonha com a construção de um novo modelo para os meios de comunicação brasileiros.
Noves fora a tentativa de expulsão do jornalista Larry Rother, Nosso Guia jamais moveu um dedo contra alguém por conta do que disse dele ou de seu governo. Feita essa ressalva, fica o registro de que é grande a simpatia do comissariado pelas iniciativas do coronel Hugo Chávez na Venezuela. Uma compreensão paternal: "Não concordo, mas entendo".
Todos os governos acham que são perseguidos por conspirações da imprensa, mas Nosso Guia estimula seus paranoicos. Sem fiscalização, ele continuaria falando em "Corregedoria-Geral da República". Isso não existe, o nome certo é Controladoria-Geral da União e seu titular é escolhido pelo presidente.

UMA BOA CHANCE PARA O URBANISMO DO RIO
Até 2016, o Rio de Janeiro precisa construir e equipar pelo menos 18 mil quartos de hotel. O Comitê Olímpico Internacional pede 40 mil, e a cidade tem 22 mil. Esse é um dos principais desafios para os marqueses da Olimpíada.
Não se pode pensar em construir 30 hotéis do tamanho do Sheraton, pois virariam um mico. A Prefeitura do Rio trabalha com a ideia de empreendimentos nos quais o cidadão compra uma cota de um condomínio e usufrui o rendimento do hotel. É o Condo-Hotel.
Nos Estados Unidos, os proprietários podem utilizar o apartamento durante algumas semanas do ano. Em geral, os Condo-Hotéis têm cozinha no apartamento. Se esse modelo vier para o Rio, desemboca-se num sucedâneo do velho e bom apart-hotel. (Sem cozinha, ou sem possibilidade de usufruir do imóvel, será mais difícil encontrar investidores.)
No Rio, há uma mandinga contra os apart-hotéis. Teme-se que os apart-hotéis da zona sul virem cortiços. Em São Paulo, isso não aconteceu. Pelo contrário, os apart-hotéis deram vida e até mesmo segurança aos pedaços onde se instalaram.
Vigora no Rio uma lei que proíbe a construção de apartamentos com áreas inferiores a 30 ou 40 metros quadrados. Quitinete virou uma palavra maldita. A gloriosa Lapa é um paliteiro de quitinetes. Quem viu o filme "Edifício Master", de Eduardo Coutinho, aprendeu que nesses prédios moram pessoas comuns, sem cauda nem chifres.
Há uma dose de segregacionismo no horror aos apart-hotéis e às quitinetes. (Se a palavra for traduzida para "studio", dignifica-se.) No centro de Paris, há centenas de imóveis com menos de 30 metros quadrados. Em Nova York, uma quitinete de 18 metros na rua 90 está por US$ 150 mil.
Nova York e Paris são o que são porque buscaram a convivência do andar de cima com o de baixo. Quando o pessoal de cima quer ficar longe da turma de baixo, a cidade piora.

FAXINA NA INFRAERO
A investigação do Ministério Público em cima das obras e pompas da Infraero tem fortes chances de terminar com gente na cadeia.

GRANDE OITICICA
Numa época em que Lula diz que não interferiu na Vale, o secretário da Segurança do Rio reclama do governo federal e o capitão Denis Bizarro garante que não viu Evandro João da Silva estendido na rua, Cesar Oiticica, irmão de Hélio, merece uma homenagem. Ele era o guardião do acervo do artista, e a sala onde o material estava guardado pegou fogo. Houve quem reclamasse do Ministério da Cultura, do governo do Estado e até da prefeitura. Cesar escreveu um artigo onde disse o seguinte: "A responsabilidade é só nossa e não seria justo tentar dividi-la com alguém".

ARQUIVO
Na polícia do Rio tem gente convencida de que o capitão da PM Denis Bizarro sabe mais do que se presume. É grande a torcida para que ele conte.

VOLTA POR CIMA
O novo ministro de Assuntos Estratégicos, embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, passou sete anos debaixo de chumbo na Secretaria-Geral do Itamaraty. Para que não se coma lebre por gato, é bom lembrar que ele foi o único diplomata com coragem suficiente para denunciar a arapuca da Alca. Ela criaria uma zona de livre comércio do Alasca à Patagônia, e o tucanato gostava da ideia. A ousadia custou-lhe uma repreensão e o cargo de diretor do Instituto de Pesquisas de Relações Internacionais do Itamaraty, mas a Alca morreu. Com a ida do embaixador para um ministério fabricado para receber o professor Roberto Mangabeira, talvez ele vire coisa séria.

CPI DO MST
No Palácio do Planalto percebe-se uma ponta de simpatia pela CPI do MST. Apenas simpatia.

SALLY HEMINGS
O ministro Joaquim Barbosa encantou-se com um livro. É "The Hemingses of Monticello -An American Family" (Os Hemings de Monticello - Uma Família Americana). Nele a professora Annnette Gordon-Redd conta a história de uma família de escravos, os Hemings, na fazenda Monticello, de Thomas Jefferson. O pai da pátria teve um filho (ou sete) com sua escrava Sally Hemmings, 30 anos mais jovem que ele. O livro (Prêmio Pulitzer deste ano) passa polidamente pelos lençóis do presidente e é um poderoso retrato das relações da casa grande com a senzala da fazenda de um aristocrata da Virgínia. Os Hemings parecem uma invenção da lascívia de Gilberto Freyre. A mulata Sally e a mulher de Jefferson, dona Martha, tiveram o mesmo pai, que fez só uma filha com a mulher branca e seis com a escrava Elisabeth.

FORA DA LEI
Quando a PM do Rio sobe um morro e mata um cidadão, informa que se tratava de um "suspeito". Só na quarta-feira foram sete. "Suspeito" de quê? Quando dois PMs (um deles oficial) são filmados coletando os tênis e a jaqueta de uma pessoa que acaba de ser assassinada, eles continuam na corporação. É a lei. Ninguém quer que se imponha um rito sumário oportunista à dupla filmada. Pede-se apenas que não se matem "suspeitos". É a lei.

LULA, O GRANDE
Alguém precisa avisar ao Nosso Guia que os iranianos são persas, e não árabes.

Texto de Élio Gaspari na Folha de São Paulo de 25/10/09

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