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sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

O vírus da obesidade

O vírus da obesidade

Para cientistas, ela se espalha de maneira contagiosa; o mesmo vale para felicidade, solidão e até hábitos sexuais  


É cruel: se você quer emagrecer, talvez o melhor a fazer seja dizer aos seus amigos gordos que fiquem longe. Porque um único grande amigo gordo aumenta em 57% as suas chances de engordar, segundo os cálculos de cientistas sociais americanos. A obesidade, dizem, espalha-se de maneira tão contagiosa quanto um vírus.
Não só ela, na verdade. O mesmo acontece com a felicidade, a agressividade, o hábito de fumar, a solidão.
Alguns exemplos podem ser até chocantes. Quando surge entre uns poucos adolescentes populares a noção de que o sexo oral é socialmente aceitável, é provável que o hábito se espalhe rápido entre os outros, dizem Nicholas Christakis e James Fowler, cientistas sociais de Harvard e da Universidade da Califórnia, respectivamente.
Justamente pelo fato de as pessoas serem influenciáveis, suas decisões não são sempre racionais. Comportamentos são adotados só porque todo mundo os adota também. Os economistas erraram, diz a dupla, que está lançando um livro sobre o assunto no Brasil -"O Poder das Conexões", pela editora Campus-Elsevier.

Você engorda, eu engordo
"Os economistas acham que as pessoas têm desejos e então tentam maximizá-los. Mas de onde surgem os desejos? Por que você quer uma BMW e não uma Mercedes? Eles vêm, com frequência, de outras pessoas. Somos influenciáveis. Tentar entender grupos entendendo apenas os indivíduos é estúpido", diz Christakis.
Os cientistas já suspeitavam há muito tempo que as conexões sociais fossem poderosas. É óbvio que humanos são, de alguma maneira, influenciados por quem está ao redor. Mas não se sabia que era tanto -e nunca foi possível calcular algo assim. Como quantificar?
O ideal seria acompanhar um grupo grande de pessoas que se relacionassem ao longo de décadas. Aí, observar como tendências surgiam e se espalhavam dentro dele.
Christakis achou algo assim em 2002, em um cidade americana cheia de brasileiros -gente de Governador Valadares (MG), em especial.
Trata-se de Framingham, em Massachusetts, hoje com pouco mais de 60 mil habitantes. Desde 1948 pesquisadores preenchem, ano após ano, um monte de formulários sobre como anda a vida de boa parte deles. Queriam saber desde peso até hábitos alimentares. Mais de 15 mil pessoas de três gerações já participaram.
A ideia, inicialmente, era estudar quais hábitos propiciavam doenças cardíacas. Mas os pesquisadores tinham medo de que as pessoas mudassem de endereço, fazendo com que não pudessem mais ser encontradas. Por isso, pediam a todos que fornecessem os nomes dos seus amigos mais próximos, que poderiam dizer onde é que eles tinham se metido.
O que Christakis percebeu, portanto, é que, mesmo que não tenha sido projetado para isso, o estudo era um banco de dados perfeito para saber como certas características se espalhavam entre as pessoas ao longo do tempo.
Na análise, descobriram que um amigo obeso aumenta em 57% as suas chances de também ficar gordo. Mesmo amigos magros com conhecidos gordos influenciam seu peso.
Como em 1948, quando os dados começam, existiam bem menos gordos nos EUA, é possível perceber a epidemia da obesidade surgindo. Fica nítido, dizem os cientistas, que as pessoas engordam em grupos. Um piscar de olhos e todo um círculo social fica pesado.
Isso acontece porque são as pessoas mais próximas a você que criam a sua noção de normal e de bizarro.
Ou seja, amigos de gordos não ficam gordos porque comem junto com eles. Ganham peso porque, influenciados, aos poucos passam a parar de ver problemas em se alimentar mal nas suas próprias casas.
O contrário também é válido: vire uma modelo, mude de amizades e entre em um mundo repleto de magreza. Qualquer dobra mínima na barriga vai parecer uma questão de vida ou morte -você fará um enorme esforço para acabar com ela.

Tristeza não tem fim?
Aos poucos, Christakis e Fowler foram percebendo que as suas conclusões não valiam apenas para a obesidade. A felicidade, por exemplo, também foi estudado pela dupla. Cada amigo feliz aumentava em 15% a chance de que alguém também se declarasse feliz.
A infelicidade, claro, também é contagiosa. Tenha, então, uma meia dúzia de amigos tristes e será improvável que você consiga sorrir muito.
O ambiente ao redor, então, é fundamental para moldar o que alguém é. Ao ser questionado se isso faz com que os genes não sejam tão importantes, Christakis diz que não.
"Pode haver uma base genética mesmo para a quantidade de amigos que você tem ou para o quanto você está no centro da sua rede social. Algumas pessoas nascem tímidas e outras muito sociáveis, por exemplo."



De Ricardo Mioto na Folha de São Paulo de 06/12/09

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