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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Pena Branca e Xavantinho






PASQUALE CIPRO NETO fala sobre Pena Branca e Xavantinho

Sem cerimônia, adaptavam para o falar caipira letras do formalismo da monumental "O Ciúme" ou de "Cio da Terra"


"PARA DIZEREM MILHO dizem mio / Para melhor dizem mió / Para pior pió / Para telha dizem teia / Para telhado dizem teiado / E vão fazendo telhados." Com esse significativo poema ("Vício na Fala"), Oswald de Andrade colocou em evidência uma das bandeiras do Modernismo brasileiro, o reconhecimento de todas as formas de manifestações de brasilidade. A (manifestação de brasilidade) do poema em questão diz respeito a uma das nossas tantas variedades linguísticas (o dialeto caipira).
É claro que o título do poema de Oswald não deve ser tomado em sentido literal (muito pelo contrário). O falar caipira é tão funcional e sistêmico quanto qualquer outro.
Note-se, por favor, a regularidade nesse dialeto. O "lho" e o "lha" de "milho", "telha" e "telhado", por exemplo, passam, respectivamente, a "io" (em "mio", que parece resultar do que seria "miio) e "ia" (em "teia" e "teiado"). Note-se também a regularidade em "mió" e "pió" ("melhor" / "pior"). Note-se ainda que certamente não foi por acaso que o genial Oswald escolheu as palavras "teiado" / "telhado" para encerrar o poema. A regularidade existente na construção de um telhado é a mesma que ele aponta no falar caipira.
E por que Oswald não emprega "teiado" quando encerra o poema? Porque o texto não foi escrito no dialeto caipira, uai! Desnecessário dizer que o "vício na fala" não impede os operários de fazer (bem) telhados.
Pois bem. Ontem, o Criador chamou para si o querido Pena Branca, que foi para os céus reencontrar seu irmão, Xavantinho. Pena Branca e Xavantinho formaram muito mais do que uma dupla musical: formaram um polo de delícias e nobrezas brasileiras. O que caísse na voz deles virava puro encanto. Sem fazerem cerimônia, adaptavam para o dialeto caipira, com toda a naturalidade, letras do formalismo da monumental "O Ciúme" (de Caetano Veloso) ou da pungente "Cio da Terra" (de Milton Nascimento e Chico Buarque).
Na voz deles, maravilhas como "Arruda com Alecrim", de Moniz ("Plantei arruda cheirosa / num vaso com alecrim / Pra vida inteira a senhora / viver só pensando em mim") se tornaram inesquecíveis.
Em 1994, quando comecei a fazer o "Nossa Língua Portuguesa", na TV Cultura, uma das primeiras coisas que fiz foi pedir à minha produção que acertássemos uma gravação com Pena Branca e Xavantinho, que prontamente aceitaram o convite.
Gravamos na casa deles, no Tremembé. Durante o encontro, não faltaram lágrimas (deles e minhas). A cada canção e a cada conversa, a pureza do trabalho e da personalidade dos dois inebriava o ambiente.
Tornamo-nos amigos. Todas as vezes que eles iam à Cultura para divulgar um trabalho novo, deixavam o CD para mim, devidamente autografado, sempre com uma mensagem carinhosa. Quando Xavantinho morreu, fui ao velório. "Eu sabia que você vinha", disse-me o emocionado Pena Branca. Não pude velá-lo ontem, meu caro Pena Branca. Você certamente já me perdoou por isso.
"Afagar a terra / Conhecer os desejos da terra / Cio da terra, a propícia estação / E fecundar o chão." Tenham certeza, Pena Branca e Xavantinho, que nosso chão foi muitíssimo bem fecundado por vocês. 



Da Folha de São Paulo de 11/02/2010

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