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domingo, 3 de fevereiro de 2008

Lei que exige aquecimento solar em São Paulo gera polêmica entre especialistas

O aquecimento da água de imóveis novos com quatro ou mais banheiros, na cidade de São Paulo, deve contar com uma ajudinha do sol nos próximos meses. É o que prevê um decreto que começa a valer em 21 de julho. O texto, que inclui também a instalação de piscinas aquecidas, regulamenta a lei 14.459/07. Polêmica, a nova lei tem gerado divergência entre especialistas.

Os defensores da iniciativa argumentam que a economia estimada de energia elétrica com o aquecimento da água pela luz solar, em sistemas bem dimensionados, chega a 70%.
A fonte alternativa ajudaria principalmente no horário de pico (entre 18h e 20h), quando todo mundo resolve tomar banho e o chuveiro elétrico consome cerca de 60% da eletricidade do país. Reduzir um pouco essa conta pode ser um passo em direção à sustentabilidade.

Mas há quem discorde. Uma das questões levantadas pelos críticos é a falta de conhecimento técnico sobre o sistema. "A tecnologia dos painéis solares está pronta, mas falta uma solução completa para o sistema de aquecimento como um todo", critica o engenheiro civil Roberto Lamberts, pesquisador do Laboratório de Eficiência Energética em Edificações, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Para Lamberts, o aquecimento solar é um item importante para a eficiência energética na construção civil, mas é preciso conhecer melhor seu funcionamento e informar os usuários sobre suas particularidades, para que sejam evitados erros de instalação e de operação.

Mais água?
É o que pensa também o engenheiro civil Vanderley Moacyr John, professor do Departamento de Engenharia de Construção Civil da Universidade de São Paulo (USP). Segundo ele, a tecnologia de aquecimento solar ainda é limitada e, em alguns casos, pode gerar aumento do consumo de energia elétrica e de água.

John explica que todo sistema de aquecimento solar precisa de um "backup" elétrico ou a gás para aquecer a água na falta de dias ensolarados. Mas os fabricantes não têm investido nos sistemas de controle eletrônico que alteram automaticamente o uso de uma fonte de energia para outra. "Basta a temperatura cair um pouco para o aquecedor elétrico ser acionado", aponta.

"Além disso, todo sistema que acumula água quente e que é instalado de forma convencional tende a gerar um desperdício de água", diz o professor da USP. Como a água é aquecida no reservatório, cada vez que alguém abrir a torneira é preciso deixar escoar toda a água fria do encanamento até chegar a aquecida. "Dependendo da distância do acumulador ao ponto de consumo o gasto pode ser grande", completa.

É imprescindível, portanto, o uso de uma bomba que faça circular a água aquecida ininterruptamente pelo encanamento e o dobro de tubulação. Segundo John, há problemas metodológicos para o dimensionamento correto do sistema no caso de prédios verticais. "Corre-se o risco de produzir um sistema que não funcione, sendo necessário continuar o aquecimento usando energia elétrica ou fóssil".

Tecnologia difundida
De acordo com o engenheiro elétrico José Ronaldo Kulb, diretor de uma empresa que comercializa aquecedores solares, a tecnologia já está bem difundida no país. Ele concorda que a circulação constante no interior da tubulação seja necessária, mas não vê essa questão como problema: "Uma pequena bomba capta a água aquecida do reservatório e faz girar pelo encanamento, com gasto energético inferior a uma lâmpada de 60W", diz.

O engenheiro mecânico José Tomaz Vieira Pereira, pesquisador do Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Energético (Nipe), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), também não vê impedimento técnico ao uso do aquecimento solar no Brasil. "A estrutura necessária para o aquecimento solar já existe em hotéis e edifícios que contam com sistema de aquecimento central (tubulações isoladas termicamente e circulação da água)", afirma.

O principal problema, na visão do pesquisador, é a falta de informação. Ele acredita que há muito amadorismo no setor e instalação incorreta do sistema de aquecimento solar, o que deve continuar acontecendo até que a energia elétrica se torne, de fato, um artigo caro.

Sistema de aquecimento solar deve ser adaptado ao clima da região

Um dos pontos mais importantes para se instalar um sistema de aquecimento solar eficiente é a adaptação da obra ao clima local. Enquanto no Norte e no Nordeste os dias ensolarados prevalecem durante o ano, no Sul ocorrem dias tão frios que podem congelar a água e danificar a instalação, tornando necessário o uso de sistemas anticongelamento.

Segundo o meteorologista Lincoln Alves, do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (CPTEC/Inpe), a região Sudeste tem um verão tipicamente chuvoso, mas há vários dias de sol durante o inverno, o que torna viável o uso de aquecimento solar.

A instalação deve se voltar sempre para o norte geográfico da Terra, inclinada com o ângulo da latitude da região (a da cidade de São Paulo é de aproximadamente 23º S). Também o tamanho dos painéis depende de sua localização. Em São Paulo, cada metro quadrado de placa solar é suficiente para aquecer 100 litros de água.

"O maior limitador é a área", afirma José Tomaz Vieira Pereira, pesquisador do Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Energético (NIPE), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Prédios muito altos dependeriam de uma grande área na cobertura para a disposição das placas. "Mas muitas vezes a cobertura do edifício é usada para outros fins", complementa.

O sistema de aquecimento solar é formado por painéis com placas coletoras enegrecidas, que retêm o calor proveniente da radiação solar. Sobre elas, uma lâmina de vidro gera o efeito de estufa, conservando o aquecimento. Segue pelo sistema uma serpentina de cobre revestida por vidro que aquece a água. Ela, então, é levada para um reservatório térmico, o boiler, e fica pronta para ser usada.


Para especialistas, é possível economizar energia sem aquecedores solares

Especialistas como os engenheiros civis Roberto Lamberts, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), e Vanderley Moacyr John, da Universidade de São Paulo (USP) apontam algumas formas de economizar energia nas edificações sem que haja a obrigatoriedade dos aquecedores solares.

Uma das medidas é evitar o uso exagerado de vidro sem proteção solar nas construções. "As edificações viram 'estufas' e requerem o uso de ar-condicionado para reduzir a temperatura interna", descreve o pesquisador da UFSC.

O uso consciente da energia elétrica é outro ponto importante. Lamberts é um dos responsáveis pelo estudo que vai produzir uma etiqueta de eficiência energética em edificações (similar à de geladeiras), a ser usada pelo Inmetro já neste ano para construções comerciais e, a partir de 2009, para residenciais. A etiqueta calcula a energia elétrica gasta com a água quente, mas também mede outros itens importantes como iluminação e ar-condicionado.

De acordo com o último levantamento da Eletrobrás sobre hábitos de consumo dos usuários, publicado em abril de 2007, o chuveiro elétrico continua sendo o grande vilão no gasto de eletricidade, com 24% do consumo de energia, na média nacional. Mas o ar-condicionado já é o segundo colocado, com 20%. "Há 10 anos, era apenas 6%", diz Lamberts, recomendando que a economia de energia elétrica se volte também para outras questões.

John concorda com a criação de leis que promovam a sustentabilidade, mas acredita que deveriam ser analisadas outras opções para reduzir o consumo de energia. "É muito fácil fazer leis. Difícil é criar condições sociais e técnicas para que elas atinjam os seus objetivos declarados", diz o professor da USP.

ONG oferece informações para instalar aquecimento solar em casa

A organização não-governamental (ONG) Sociedade do Sol oferece, em seu site, download com informações para fazer o sistema de aquecimento solar em casa, com materiais simples e de baixo custo.

Coletor, caixa d'água, tubulações e dimmer (que controla a temperatura da água), entre outros itens, podem ser adquiridos em locais indicados no site e têm custo final em torno de R$ 320.

Com capacidade de aquecimento de 200 litros de água, o aparelho atende ao banho quente para uma família de quatro a seis pessoas. Sua manutenção precisa ser feita a cada 10 a 15 anos, com troca da placa que absorve a luz solar.

A ONG oferece apoio técnico gratuitamente. Como o aquecimento é diário e o aparelho depende de claridade e sol para esquentar a água, o chuveiro elétrico deve ser utilizado nos dias nublados, em que a água não ficará muito quente.

Um aquecedor solar tradicional custa cerca de R$ 3.000,00 (dados de setembro de 2007), incluindo-se a instalação. Segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica, o chuveiro elétrico representa 30% da conta paga pelos consumidores. Com a economia que seria feita com o aquecedor solar, estima-se que o investimento se pague em dois anos

De Murilo Alves Pereira
Especial para o UOL Ciência e Saúde

Um comentário:

  1. 1. casas populares precisam de aquecedores solares sim desde que sejam eficientes e de preços compatíveis com os benefícios. Os aquecedores hoje instalados pelas concessionárias são de baixo rendimento e preços abusivos quero lembrar que o procel apenas classifica os produtos em A,B,C etc. isto não muda a performance da placa solar que continua baixa. Outro problema na casa popular, o aquecedor estaria sujeito a uma pressão máxima de 200gr/cm2 ,qual a razão de se colocar um sistema para suportar 2 a 3kg/cm2 a não ser para atender a alguns fabricantes e onerar o erário público é preciso se discutir isto urgentemente. Isto é ecologia.

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