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sábado, 7 de junho de 2008

Casa Sofia e a história do padre James Crowe

Muito mais que um padre

Como o irlandês James Crowe ajudou a transformar o Jardim Ângela, bairro de São Paulo antes notório pelos crimes e hoje modelo de combate à violência

James Crowe nasceu na Irlanda, em 1945, e cresceu na área rural no condado de Clare. A cidade mais próxima tinha 50 mil habitantes e ele não se recorda de jamais ter encontrado a porta de casa trancada. Alternava os estudos com o trabalho na fazenda da família, onde ordenhava as vacas, plantava batata e jogava futebol com os nove irmãos. Católicos como a maioria dos irlandeses, seus pais não perdiam a missa aos domingos. Aos 17 anos, James teve de se decidir entre a faculdade de Agronomia e o seminário. Os amigos missionários que traziam histórias de comunidades isoladas na África o convenceram a optar pelo seminário. No ano em que foi ordenado padre, porém, o papa João XXIII cobrava mais atenção à América Latina. Assim, aos 24 anos, James desembarcou em São Paulo.

Quatro décadas depois, o padre Jaime atravessa o centro do Jardim Ângela, na periferia de São Paulo. O bairro de 280 mil habitantes foi considerado o mais violento do mundo em 1996 pelas Nações Unidas. Uma moradora se aproxima para cumprimentá-lo. Ele segura sua mão, dá um beijo e pede a bênção. Ela ri: “Bença o senhor, padre!”. A um quarteirão da igreja, ele entra na base de Polícia Comunitária, aperta a mão de todos e brinca com um palmeirense. “Esse aí veio da Europa torcer pelo Corinthians”, diz o policial. “Tem de ter mais classe, padre. Save the Queen!” Padre Jaime o corrige: “God save the Queen!” (“Deus Salve a Rainha”, nome do hino da Inglaterra). E retoma o português carregado de sotaque: “O senhor sabe que essa frase é considerada uma ofensa na Irlanda?”. Os dois dão risada. A parte sul da Irlanda, onde o padre nasceu, se tornou independente da Inglaterra em 1922.

A auto-ironia e o carisma são os principais instrumentos de Jaime (como é chamado pelos íntimos) em sua missão ao Brasil. Atravessar o quarteirão e entrar na polícia é uma de suas conquistas. Em 1996, ele decidiu que, como padre do bairro mais violento do mundo, não podia seguir apenas “enterrando e rezando missa de sétimo dia”. No dia 2 de novembro daquele ano, Dia de Finados, organizou a Caminhada pela Vida e pela Paz, que refazia o trajeto ao qual já estava habituado: da igreja ao cemitério. Ao contar 5 mil pessoas andando a seu lado, viu o potencial de mobilização que o tema gerava. Liderou então a criação do Fórum em Defesa da Vida e pela Superação da Violência, grupo que até hoje enche os bancos da igreja toda primeira sexta-feira do mês. São mais de 200 entidades e organizações sociais da região. Juntas, ganham poder de reivindicação diante do governo. Graças ao grupo, o bairro ganhou seu primeiro hospital neste ano.

Nas primeiras reuniões do Fórum, padre Jaime lançou a necessidade de uma polícia diferente. “Aqui só chegava a Rota, naquelas viaturas escuras, com metralhadoras para fora, amedrontando o povo”, afirma. Entre reuniões na igreja e no governo do Estado, falava sobre uma polícia que conhecesse os moradores e fosse conhecida por eles. Em 1999, o modelo foi implementado por meio da Polícia Comunitária. Uma das primeiras bases do Estado foi construída no Jardim Ângela. De lá para cá, a violência caiu 76%. O índice de homicídios chegou a 128 para cada 100 mil habitantes em 2000. Seguindo a mesma proporção, hoje está em 28. “O crime caiu em todo o Estado, mas no Ângela caiu mais graças à parceria com o grupo de Jaime”, afirma o sociólogo Túlio Kahn, coordenador de análise e planejamento da Secretaria de Segurança Pública. “O bairro virou vitrine de como a sociedade e a polícia podem trabalhar em conjunto”. A base do bairro hoje localiza criminosos foragidos por causa de denúncias feitas pela população. A última chegou em uma bola de papel, jogada pela janela dos fundos da base.

“Eu não podia continuar apenas enterrando e rezando missas de sétimo dia”

Quando recebe chamados de mulheres que sofrem violência doméstica ou crianças vítimas de abuso sexual, a polícia encaminha as vítimas para a Casa Sofia, da qual o padre é presidente.

Além desses serviços, a entidade Sociedade Santos Mártires tem 30 núcleos de atendimento entre creches, cursos profissionalizantes e uma unidade de internação para dependentes químicos. A rede chega a 11 mil moradores por mês.

A rotina do padre Jaime ficou corrida, ele lamenta não conseguir mais tomar cafezinho com os vizinhos. Só consegue relaxar no fim do dia, quando senta para tomar caipirinha com os amigos. Sempre que tem tempo, acende seu cachimbo. “Só fumo Irlandês”, diz, mostrando a palha que, apesar do nome, é uma marca feita no Brasil. “O pessoal aqui o chama de padre do cachimbo e da caipirinha”, diz Fábio Vicente de Souza, que trabalha na administração da Sociedade.

Ano sim, ano não, padre Jaime volta à Irlanda para ver a família, que mora na mesma fazenda de sua infância, e celebrar o casamento dos sobrinhos. Já casou 12. A viagem serve para “não deixar os olhos se acostumar” com os problemas do Jardim Ângela: “Os rostos de fome, as casas sem acabamento... O maior pecado é achar isso normal”.

Padre Jaime carrega o espírito da Igreja que encontrou quando chegou ao Brasil em 1969. No auge do regime militar, desembarcou uma semana depois da prisão de um grupo de padres dominicanos que apoiavam a resistência à ditadura. No ano seguinte viu dom Paulo Evaristo Arns assumir a arquidiocese de São Paulo e vender o Palácio Episcopal para construir centros comunitários na periferia. “Era um momento positivo, totalmente diferente da Europa, onde o próprio João XXIII dizia que a Igreja estava acomodada”, diz o padre, que chama de “questionadora” sua relação atual com a Igreja.

A reportagem de ÉPOCA pede ao padre que indique uma família que simbolize a recuperação do bairro. Ele faz um longo silêncio: “Só me lembro de casos tristes”. Conta, então, a história de uma família vizinha à igreja que, em 2002, perdeu um dos dez filhos para o tráfico. Depois de orar no velório, o padre se aproximou de um dos irmãos do morto. “Olha bem para ele, Jaime”, disse o jovem de 16 anos. “Está melhor do que eu. Viver para quê?” Em menos de um ano, padre Jaime estava de volta ao cemitério para rezar pelo corpo do jovem desencantado, morto pelo tráfico como o irmão mais velho. “Os pais desses meninos estão deprimidos até hoje”, afirma. “Não há o que se diga para consolar”. Padre Jaime sabe que recuperar famílias que enterraram seus filhos é mais difícil que reduzir índices de violência. É missão para o padre, o militante, o vizinho e quantos papéis mais ele conseguir desempenhar.
Adaptado e transcrito de texto de Ana Aranha do G1
http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI5301-15228,00-MUITO+MAIS+QUE+UM+PADRE.html



Proibido não conhecer o Jd. Ângela

QUEM ENTENDER o que está por trás dos números do Jardim Ângela, um conglomerado de favelas na zona sul de São Paulo, com 250 mil habitantes, estará aprendendo a reduzir a violência no país. Sua taxa de homicídios caiu em 75%, entre 1991 e 2005. Durante 50 dias, no ano passado, ninguém morreu assassinado.
Esse movimento teve impacto nas demais estatísticas criminais de delegacias próximas, responsáveis por outros bairros além do Jardim Ângela. No 100º Distrito Policial, de janeiro a julho deste ano, em comparação com o mesmo período de 2002, o índice de roubos, em geral, despencou em 52%; o de roubos de veículos caiu em 70%.

O debate sobre a violência na sucessão é, até o momento, de uma pobreza estrondosa, pelo simples motivo de que não se apresentam planos de construção dessas complexas redes nem se prevê um projeto específico para as metrópoles. Os tucanos tentam associar o PT ao PCC, o que é uma óbvia baixaria. O PT fala que os ataques do PCC são resultado do caos da segurança em São Paulo, quando, na verdade, são uma reação ao jogo duro contra a organização exercido pelo governo.
O Jardim Ângela foge do discurso fácil e das soluções simplistas: mostra que a combinação de repressão com prevenção, a partir da articulação local, funciona. É o que se vê em Bogotá, onde a taxa de homicídios desabou, em poucos anos, em 75%, redução semelhante à de Nova York.

Depois que o Jardim Ângela foi considerado a região mais violenta do planeta, iniciou-se ali, em 1996, uma mobilização liderada pelo padre irlandês Jayme Crowne. Surgiu o Fórum de Defesa da Vida, que hoje aglutina 200 entidades. Dessa pressão, foram criadas ali cinco bases de policiamento comunitário. Como os policiais tinham de conviver com a população, ganharam confiança e receberam informações sobre quem eram e onde estavam os criminosos.
Conseguiu-se, nesse processo, combinar Polícia Militar, Polícia Civil e Guarda Municipal. Paralelamente à rede de proteção policial montou-se uma rede de proteção social, sempre envolvendo a teia de parcerias. Para trabalhar com ex-internos da Febem, agora em liberdade assistida, associaram-se prefeitura, Abrinq e Telefônica. Na sexta passada, aliás, cerca de mil funcionários da Telefônica foram ao Jardim Ângela para um mutirão de reformas de espaços coletivos.

Graças a esse tipo de mobilização, recuperaram-se praças, clubes e escolas. Ofereceram-se programas de esporte, atividades de complementação escolar, tratamento contra o abuso de drogas e álcool. Com um acordo envolvendo o Ministério Público, acertou-se a redução do horário de fechamento dos bares. A prefeitura ofereceu abrigos para crianças e proteção às famílias em situação de risco, além de um núcleo para combater a violência doméstica, CASA SOFIA. No ano passado, foi lançada a Casa do Adolescente, para tentar evitar a gravidez precoce.
Acrescentem-se aí as dezenas de milhares de bolsas de renda compostas por recursos municipais, estaduais e federais -por serem integradas, o valor das bolsas aumentou.

Nem de longe o Jardim Ângela virou um paraíso, muito pelo contrário. Está distante, muito distante, de ser o campeão mundial da violência, mas ainda continua bem acima da média brasileira da criminalidade. Jayme Crowne está preocupado, especialmente, com o número de jovens sem perspectivas educacionais ou profissionais. "Esse é o ovo da serpente", diz São no Brasil 7 milhões de jovens, entre 14 e 25 anos, que nem estudam nem trabalham. Isso mostra que temos duas bombas que se juntam -a dos jovens e a das metrópoles.

Mas o que eles estão construindo, em essência, é um software de gestão para áreas conflagradas, por englobar do policiamento à gravidez precoce, passando pelo tratamento de viciados e pela educação em tempo integral. Em vez de ficarem trocando acusações em torno do PCC, os candidatos fariam melhor se estudassem o caso do Jardim Ângela, cujo sucesso está no fato de não ter um autor, um partido, um governo. O PT e o PSDB têm crédito nessa experiência, com a qual se vê que a saída social brasileira reside em larga medida na habilidade de as comunidades se organizarem, mobilizarem seus indivíduos e aumentarem a eficiência dos recursos públicos.

Contra o crime organizado, o que funciona é a sociedade organizada.

P.S. - Veja no site (www.dimenstein.com.br) um dossiê sobre o Jardim Ângela.

Texto de Gilberto Dimenstein na Folha de São Paulo 20/08/2006, já publicado neste blog em 20/08/2006

9 comentários:

  1. O saramento mais importante nao esta na lista de os sete. Este sacramento e a vida. A vida humana e tao valorosa que Deus mesmo ficou apaixonado por ela e se tornou humano em Jesus. A Igreja nao pode ser igreja dos sacramentos mas deve ser involvida no servico e a promocao da vida. I Igreja deve ser comprometida pela vida mas nao pela vida teoretical o da vida da filosofia o da teologia. O seu compromisso e pelo povo de Deus que fois chamado para ter vida em plenitude.
    E muito bom conhecer e ter como amigo o Padre Jaime (e tambem o Padre Eduardo). O seu(s) compromisso pela vida e pela Igreja Viva e uma vida exemplar.
    Deus abencoe todos na Angela.
    Pe. Laszlo

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  2. Conheci os Padres James e Edward,quando eles comandavam a Paróquia do Jardim Santa Emília, na cidade do Embu`.Portanto esse despreendimento do Padre James para mim não é novidade,ele sempre lutou por justiça e não tinha receio de demonstrar que estava do lado do povo.Tanto ele quanto o Edward,gostavam de conversar com os jovens da paróquia, e vários conselhos que recebí naquelas conversas,procurei manter no meu caminho.Tenho um carinho muito grande por eles,embora esteja longe de SP,agora resido em Curitiba,casei-me tenho dois filhos moços já.Mas quando me recordo deles,me sinto com vinte anos,articipando do grupo de jovens da igreja.Que bom que o trabalho que está sendo realizado no Jardim Ângela seja tão reconhecido,é um trabalho de formiguinha,mas que está dando certo,caso contrário não teria repercussão.

    Parabéns aos Padres Jaime e Eduardo.

    Meu nome é Roseli,e fui professora do Pré da Igreja no Jardim Dom José e do Mobral no Jardim Santa Emília.

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  3. O MEU NOME E SÔNIA ,E FUI PROF DA IGREJA NO JARDIM SANTA EMILIA EM 1992 SOCIEDADE TODOS OS SANTOS ERA MARAVILHOSO NA QUELA EPOCA AS CRIANÇAS TINHA ALIMENTAÇÃO DE PRIMEIRO MUNDO TUDO ERA NATURAL TUDO DE PRIMEIRA E A QUALIDADE DO APRENDER ERA MUITO OTIMO GOSTEI MUITO DE TER TRABALHADO NESTA CRECHE PARABÉNS PELA SUAS CONQUISTA PADRE JAIME UM GRANDE ABRAÇO FIQUE COM DEUS

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  4. ola gente, sou jornalista, devo acompanhar uma equipe de filmagem da irlanda que vem cobrir a marcha pela paz no jardim angela, como posso contatar o padre jaime crowe, voces sabejm?
    agradeço a ajuda
    lucena25@gmail.com
    325900809

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  5. Oi, gente! Estou muito emocionada. Gosto muito e muito e muito do Padre James (sempre chamei de James, desculpem). Eu o conheci há muitos anos. Ele já almoçou na minha casa !!!! rsrs em mil novecentos e bolinhas.
    Ele é minha ligação maior com a Igreja, porque seu desprendimento e alegria, "feito gente", me aproximou...
    Faz tanto tempo! Nossa! Primeiro, ele revolucionava as missas na Igreja da Matriz, no Embu. Nessa época, eu apenas namorava o Marcos.
    Depois, ele andava de bicicleta por todo canto e levantava a outra igreja, onde eu fui madrinha do casamento de Carlinhos e Beth. Daí, eu já era casada com o Marcos rsrs
    Hoje... eu moro em Fortaleza e quero muito, mas muito mesmo, um contato com ele.
    Quem sabe vou poder ajudar e estar me ajudando?!

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  6. ah esqueci... Meu nome é Elza e meu email é elzinhafortal@rapix.com.br

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  7. O padre Jaime é uma desta pessoas que fazem diferença, seu trabalho tem ajudado as comunidades em volta de sua paróquia e se espalha pelo bom exemplo.

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  8. Meu nome e cesar trabalho sociedade Stos martires masi faz uns 15 anos q eu conheco padre jaime nao conheco um homem tam correto como e gracas a deus ele e corinthiano.
    Estamos na luta com ele contra a violencia e paz Cesar

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  9. CONVIVEMOS COM O PADRE JAIME , ASSIM QUE ELE CHEGOU AO BRASIL , EM ABRIL DE 1970 , ELE VEIO PARA A PARÓQUIA NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO EM EMBU DAS ARTES , A NOSSA FAMÍLIA FOI UMA DAS PRIMEIRAS A ACOLHE-LO , PARA OS ALMOÇOS DE DOMINGO , SENDO QUE ALGUMAS VEZES INCLUSIVE CHEGOU A VIAJAR CONOSCO , PARA A PRAIA E ERA UM EXCELENTE NADADOR , NÓS O CONSIDERAMOS COMO SE FOSSE DA FAMÍLIA , SUA IRMÃ VEIO CASAR NO BRASIL E A FESTA DO CASAMENTO FOI FEITA NA FONTE DOS JESUITAS , ONDE EU MORAVA NA ÉPOCA , AINDA TEMOS CONTATO COM O PADRE JAIME E MUITA SAUDADES DAQUELE TEMPO , HOJE É DIA SEIS DE MARÇO APROVEITO PARA PARABENIZÁ-LO , POIS AMANHÃ ELE FAZ 66 ANOS , ABRAÇOS , CIDINHA CARPI E MANUEL , ABNER E ERIK.
    OBS: ELE TOMOU A 1ª CAIPIRINHA COM O MANÉ E O NILTON PEIXOTO , DEPOIS DE UMA PARTIDA DE FUTEBOL NA ANTIGA IRCOL , ONDE HJ PASSA O RODOANEL E PARECE QUE GOSTOU!!!!!!

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