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domingo, 8 de junho de 2008

A "Figura impoluta" do cumpadre Roberto Teixeira

"Figura impoluta"

Milton Zuanazzi detestava Denise Abreu, que detestava Zuanazzi, e os dois afundaram juntos. Já a turma de José Dirceu detesta a turma de Dilma Rousseff, que detesta a de Dirceu, mas foi só a dele que afundou, enquanto a de Dilma emerge disputando a Presidência com apoio de Lula.
Mas, na história ainda mal contada da tentativa ora rocambolesca, ora imoral, e sempre ilegal, de salvar a Varig, eles foram personagens secundários. O foco é Roberto Teixeira, a filha Valeska e o genro Cristiano, os amigões não só do presidente que despacha no Planalto mas do casal que habita o Alvorada.
O advogado Teixeira é o compadre de Lula e Marisa que lhes emprestava o apartamento. E é ligado tanto à Gol quanto aos testas-de-ferro do fundo Matlin Patterson. O fundo comprou a VarigLog, com aval de Dilma e da Anac, apesar de a lei limitar em 20% o capital externo no setor. Depois, a Gol de Nenê Constantino adquiriu a "Varig saneada" e entrou pelo cano. O elo entre governo, Anac, Matlin Patterson, Varig e Gol era quem?
Num e-mail cheio de mágoas escrito para Dilma em 2006, três meses depois de assumir a Anac, Zuanazzi cita abertamente, mal ou bem, o ex-ministro Waldir Pires, o ex-presidente da Infraero Carlos Wilson, a segunda da Casa Civil, Erenice Guerra, entre outros, mas empaca ao falar das pressões de um personagem. Nesse caso, refugia-se temerosamente na expressão "figura impoluta", que Dilma sabe muito bem quem é: Roberto Teixeira.
Nem mensalão, nem aloprados, nem cartão corporativo, nem dossiê, nada pode chegar tão perto de Lula quanto o rolo da Varig. E Dilma e Dirceu podem se matar à vontade, mas as armas e objetivos são políticos. Já a guerra de Teixeira é outra, uma guerra de negócios.
Lula vai se calar. Não sabe, não viu, nunca ouviu falar. Mas vai ter de explicar como o amigo e compadre tem tanta força, além de desenvoltura, no seu governo.
Texto de Eliane Cantanhêde na Folha de São Paulo de 08/06/08

República do compadre

Falando aos berros contra a legislação eleitoral, que limita o repasse de verbas federais às prefeituras durante três meses, Lula foi ao extremo de acusá-la de "falso moralismo" e exemplo do "lado podre da hipocrisia brasileira".
Curioso é que o acesso anti-republicano e populista tenha vindo à luz no epílogo de uma semana marcada por mais um escândalo na República do Compadre. Esqueçamos Vavá -"arruma dois pau pra eu" é choro de pobre. A suspeita da mão pesada da Casa Civil na transação da Varig é coisa de gente grande.
Trata-se de um negócio que custou na ponta final à Gol US$ 320 milhões, para o qual a TAM estaria disposta a desembolsar no total US$ 738 milhões -US$ 418 milhões a mais. Tudo parece ser muito nebuloso ou claro demais, a depender do ângulo que se queira ver.
E não há imagem mais esclarecedora e sintomática do moderno capitalismo brasileiro do que aquela em que Nenê Constantino e seu filho, Constantino Jr., estão no elevador do Palácio do Planalto, rumo à sala de Lula, acompanhados pelo compadre-amigão do presidente, Roberto Teixeira. Este era o advogado dos vendedores, mas conduzia os compradores até o chefe da nação. Um dos sócios da VarigLog diz que o advogado-compadre embolsou US$ 5 milhões em honorários pelos bons serviços prestados.
Muito sorridente nesta imagem, Nenê é o mesmo que em outubro de 2007 foi fotografado de cara amarrada e pedra na mão, ameaçando atirá-la contra o fotógrafo, quando chegava para depor no inquérito sobre o cheque de R$ 2,2 milhões que pagou ao ex-senador Joaquim Roriz. O rei emergente da aviação é a prova viva de que é preciso carregar pedras para chegar aos céus.
Texto de Fenando de Barros e Silva na Folha de São Paulo de 09/06/08



13/06/08
Os compadres e os vistos


SÃO PAULO - Denise Abreu pode não ter apontado uma delinqüência específica de algum figurão da República, no caso Varig, mas deixou claro que os compadres se movimentam com total desenvoltura, ajudando a definir negócios.
Não chega a ser novidade. O governo Lula meteu os dois pés, desde o princípio, nesse terreno pantanoso dos negócios mal-explicados, malcheirosos. Foi assim, a rigor, desde que Benedita da Silva, então ministra, foi rezar em Buenos Aires usando dinheiro público.
Ninguém, no governo ou no PT, se indignou. Depois, veio tudo o que veio e o que ainda está por vir, como é o caso da fusão na telefonia, feita à margem da lei, mas com a segurança, graças ao compadrio, de que o governo mudará a lei para corrigir postumamente a ilegalidade.
Aliás, por falar em teles e em compadrio, não custa lembrar que não foi diferente a montagem de consórcios vencedores no governo anterior, feita no "limite da irresponsabilidade", conforme dizia um dos autores, colhido em "grampo".
Não surpreende, nesse pântano, que, segundo o jornal "Financial Times", o Brasil esteja no grupo de 11 países aos quais o Reino Unido vai pedir que sejam sérios no controle de emigração, sob pena de impor visto de entrada para seus cidadãos.
O governo até reconhece o Brasil como "ator global que emerge rapidamente e é de grande importância para os interesses britânicos, comerciais, econômicos e políticos". Mas não é sério o suficiente. Fica no pântano em que estão suspeitos usuais como Botsuana, Bolívia, Venezuela.
Os "compadres" não terão problemas, mas os mortais comuns... O que surpreende, nesse Brasil, é a avaliação do ministro Fernando Haddad sobre os resultados do Ideb, bem razoáveis.
Foi pior que regular, disse Haddad. Enfim alguém que não se autocongratula. Há quem o faça até pela mediocridade (ou arranja desculpas para maracutaias).
Texto de CLÓVIS ROSSI na Folha de São Paulo de 13/06/08

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