quinta-feira, 6 de novembro de 2008

SAP Síndrome da alienação parental, o que é isso?

Maria Berenice Dias, desembargadora do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, vice-presidente nacional do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM)


Certamente todos que se dedicam ao estudo dos conflitos familiares e da violência no âmbito das relações interpessoais já se depararam com um fenômeno que não é novo, mas que vem sendo identificado por mais de um nome. Uns chamam de "síndrome de alienação parental"; outros, de "implantação de falsas memórias".
Este tema começa a despertar a atenção, pois é prática que vem sendo denunciada de forma recorrente. Sua origem está ligada à intensificação das estruturas de convivência familiar, o que fez surgir, em conseqüência, maior aproximação dos pais com os filhos. Assim, quando da separação dos genitores, passou a haver entre eles uma disputa pela guarda dos filhos, algo impensável até algum tempo atrás. Antes, a naturalização da função materna levava a que os filhos ficassem sob a guarda da mãe. Ao pai restava somente o direito de visitas em dias predeterminados, normalmente em fins-de-semana alternados.
Como encontros impostos de modo tarifado não alimentam o estreitamento dos vínculos afetivos, a tendência é o arrefecimento da cumplicidade que só a convivência traz. Afrouxando-se os elos de afetividade, ocorre o distanciamento, tornando as visitas rarefeitas. Com isso, os encontros acabam protocolares: uma obrigação para o pai e, muitas vezes, um suplício para os filhos.
Agora, porém, se está vivendo uma outra era. Mudou o conceito de família. O primado da afetividade na identificação das estruturas familiares levou à valoração do que se chama filiação afetiva. Graças ao tratamento interdisciplinar que vem recebendo o Direito de Família, passou-se a emprestar maior atenção às questões de ordem psíquica, permitindo o reconhecimento da presença de dano afetivo pela ausência de convívio paterno-filial.
A evolução dos costumes, que levou a mulher para fora do lar, convocou o homem a participar das tarefas domésticas e a assumir o cuidado com a prole. Assim, quando da separação, o pai passou a reivindicar a guarda da prole, o estabelecimento da guarda conjunta, a flexibilização de horários e a intensificação das visitas.
No entanto, muitas vezes a ruptura da vida conjugal gera na mãe sentimento de abandono, de rejeição, de traição, surgindo uma tendência vingativa muito grande. Quando não consegue elaborar adequadamente o luto da separação, desencadeia um processo de destruição, de desmoralização, de descrédito do ex-cônjuge. Ao ver o interesse do pai em preservar a convivência com o filho, quer vingar-se, afastando este do genitor.
Para isso cria uma série de situações visando a dificultar ao máximo ou a impedir a visitação. Leva o filho a rejeitar o pai, a odiá-lo. A este processo o psiquiatra americano Richard Gardner nominou de "síndrome de alienação parental": programar uma criança para que odeie o genitor sem qualquer justificativa. Trata-se de verdadeira campanha para desmoralizar o genitor. O filho é utilizado como instrumento da agressividade direcionada ao parceiro. A mãe monitora o tempo do filho com o outro genitor e também os seus sentimentos para com ele.
A criança, que ama o seu genitor, é levada a afastar-se dele, que também a ama. Isso gera contradição de sentimentos e destruição do vínculo entre ambos. Restando órfão do genitor alienado, acaba identificando-se com o genitor patológico, passando a aceitar como verdadeiro tudo que lhe é informado.
O detentor da guarda, ao destruir a relação do filho com o outro, assume o controle total. Tornam-se unos, inseparáveis. O pai passa a ser considerado um invasor, um intruso a ser afastado a qualquer preço. Este conjunto de manobras confere prazer ao alienador em sua trajetória de promover a destruição do antigo parceiro.
Neste jogo de manipulações, todas as armas são utilizadas, inclusive a assertiva de ter sido o filho vítima de abuso sexual. A narrativa de um episódio durante o período de visitas que possa configurar indícios de tentativa de aproximação incestuosa é o que basta. Extrai-se deste fato, verdadeiro ou não, denúncia de incesto. O filho é convencido da existência de um fato e levado a repetir o que lhe é afirmado como tendo realmente acontecido. Nem sempre a criança consegue discernir que está sendo manipulada e acaba acreditando naquilo que lhes foi dito de forma insistente e repetida. Com o tempo, nem a mãe consegue distinguir a diferença entre verdade e mentira. A sua verdade passa a ser verdade para o filho, que vive com falsas personagens de uma falsa existência, implantando-se, assim, falsas memórias.
Esta notícia, comunicada a um pediatra ou a um advogado, desencadeia a pior situação com que pode um profissional defrontar-se. Aflitiva a situação de quem é informado sobre tal fato. De um lado, há o dever de tomar imediatamente uma atitude e, de outro, o receio de que, se a denúncia não for verdadeira, traumática será a situação em que a criança estará envolvida, pois ficará privada do convívio com o genitor que eventualmente não lhe causou qualquer mal e com quem mantém excelente convívio.
A tendência, de um modo geral, é imediatamente levar o fato ao Poder Judiciário, buscando a suspensão das visitas. Diante da gravidade da situação, acaba o juiz não encontrando outra saída senão a de suspender a visitação e determinar a realização de estudos sociais e psicológicos para aferir a veracidade do que lhe foi noticiado. Como esses procedimentos são demorados – aliás, fruto da responsabilidade dos profissionais envolvidos –, durante todo este período cessa a convivência do pai com o filho. Nem é preciso declinar as seqüelas que a abrupta cessação das visitas pode trazer, bem como os constrangimentos que as inúmeras entrevistas e testes a que é submetida a vítima na busca da identificação da verdade.
No máximo, são estabelecidas visitas de forma monitorada, na companhia de terceiros, ou no recinto do fórum, lugar que não pode ser mais inadequado. E tudo em nome da preservação da criança. Como a intenção da mãe é fazer cessar a convivência, os encontros são boicotados, sendo utilizado todo o tipo de artifícios para que não se concretizem as visitas.
O mais doloroso – e ocorre quase sempre – é que o resultado da série de avaliações, testes e entrevistas que se sucedem durante anos acaba não sendo conclusivo. Mais uma vez depara-se o juiz diante de um dilema: manter ou não as visitas, autorizar somente visitas acompanhadas ou extinguir o poder familiar; enfim, manter o vínculo de filiação ou condenar o filho à condição de órfão de pai vivo cujo único crime eventualmente pode ter sido amar demais o filho e querer tê-lo em sua companhia. Talvez, se ele não tivesse manifestado o interesse em estreitar os vínculos de convívio, não estivesse sujeito à falsa imputação da prática de crime que não cometeu.
Diante da dificuldade de identificação da existência ou não dos episódios denunciados, mister que o juiz tome cautelas redobradas.
Não há outra saída senão buscar identificar a presença de outros sintomas que permitam reconhecer que se está frente à síndrome da alienação parental e que a denúncia do abuso foi levada a efeito por espírito de vingança, como instrumento para acabar com o relacionamento do filho com o genitor. Para isso, é indispensável não só a participação de psicólogos, psiquiatras e assistentes sociais, com seus laudos, estudos e testes, mas também que o juiz se capacite para poder distinguir o sentimento de ódio exacerbado que leva ao desejo de vingança a ponto de programar o filho para reproduzir falsas denúncias com o só intuito de afastá-lo do genitor.
Em face da imediata suspensão das visitas ou determinação do monitoramento dos encontros, o sentimento do guardião é de que saiu vitorioso, conseguiu o seu intento: rompeu o vínculo de convívio. Nem atenta ao mal que ocasionou ao filho, aos danos psíquicos que lhe infringiu.
É preciso ter presente que esta também é uma forma de abuso que põe em risco a saúde emocional de uma criança. Ela acaba passando por uma crise de lealdade, pois a lealdade para com um dos pais implica deslealdade para com o outro, o que gera um sentimento de culpa quando, na fase adulta, constatar que foi cúmplice de uma grande injustiça.
A estas questões devem todos estar mais atentos. Não mais cabe ficar silente diante destas maquiavélicas estratégias que vêm ganhando popularidade e que estão crescendo de forma alarmante.
A falsa denúncia de abuso sexual não pode merecer o beneplácito da Justiça, que, em nome da proteção integral, de forma muitas vezes precipitada ou sem atentar ao que realmente possa ter acontecido, vem rompendo vínculo de convivência tão indispensável ao desenvolvimento saudável e integral de crianças em desenvolvimento.
Flagrada a presença da síndrome da alienação parental, é indispensável a responsabilização do genitor que age desta forma por ser sabedor da dificuldade de aferir a veracidade dos fatos e usa o filho com finalidade vingativa. Mister que sinta que há o risco, por exemplo, de perda da guarda, caso reste evidenciada a falsidade da denúncia levada a efeito. Sem haver punição a posturas que comprometem o sadio desenvolvimento do filho e colocam em risco seu equilíbrio emocional, certamente continuará aumentando esta onda de denúncias levadas a efeito de forma irresponsável.
Texto da desembargadora Maria Berenice Dias, elaborado em 07.2006. No blog Jus Navigandi
http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=8690

Leiam também o texto Síndrome de alienação parental, texto de Priscila Maria Pereira Corrêa da Fonseca
Resumo
Objetivo:  destacar a importância da síndrome de alienação parental sob o enfoque da Ciência Jurídica.
Aspectos abordados:
 1. conceito; 
2. causas determinantes do processo de alienação; 
3. graus e extensão da alienação; 
4. meios para obter a alienação parental; 
5. elementos de identificação da alienação parental;
6. conseqüências da alienação parental; 
7. a repressão judicial à alienação parental;
 8. o papel do advogado diante da alienação parental. 
Conclusões: identificar a alienação parental e evitar que esse maléfico processoafete a criança e se converta em síndrome são tarefas que se impõem ao Poder Judiciário. O advogado que milita na área do direito de família deve priorizar a defesa do menor, mesmo quando procurado pelo genitor alienante para a defesa de seus direitos, inclusive com a recusa ao patrocínio da causa do progenitor alienante.
Descritores: Maus tratos infantis. Leis. Ética. Criança.
Este texto está em
 http://www.pediatriasaopaulo.usp.br/upload/pdf/1174.pdf

Comentário de André Santos ...


Olá,

Parabéns por estarem divulgando um assunto importante e ao mesmo tempo grave. A Alienação Parental é uma violência silenciosa que acomete nossos filhos e que deve ser vigorasamente combatida.

Convido aqueles que se interessarem em saber mais sobre o assunto a visitarem o site www.alienacaoparental.com.br.

Vejam as recentes reportagens da Revista IstoÉ e Visão Jurídica sobre SAP. No site tem links para os artigos.

Abs.
30 de Novembro de 2008 03:04
Leia abaixo o texto citado pelo André Santos
Famílias dilaceradas
Pai ou mãe que joga baixo para afastar o filho do ex-cônjuge pode perder a guarda da criança por "alienação parental"

Claudia Jordão

Fazia seis anos que Karla, de oito, não via o pai. Nem mesmo por foto. Sua irmã mais nova, Daniela, nem sequer o conhecia. Quando seus pais se separaram, ela ainda estava na barriga de sua mãe. Aquela noite de 1978, portanto, era muito especial para as duas irmãs. Sócrates havia deixado o Rio de Janeiro, onde morava, e desembarcado em São Luís do Maranhão, onde elas viviam com a mãe, para tentar uma reaproximação. “Minha mãe disse que nosso pai iria nos pegar para jantar”, conta Karla Mendes, hoje com 38 anos. As garotas, animadas e ansiosas, tomaram banho, se perfumaram e vestiram suas melhores roupas. “Acontece que meu pai nunca chegou, ficamos lá, horas e horas, até meia-noite”, diz. Enquanto as meninas tentavam superar a decepção, a mãe repetia sem parar: “Tá vendo? O pai de vocês não presta! Ele não dá a mínima!”
Naquele dia, Karla viveu sua primeira grande frustração. Mas o maior baque aconteceu 11 anos depois, quando recebeu uma ligação inesperada do pai, que até então estava sumido. Karla começou a entender que sua mãe havia armado contra todos naquela noite – e em outras incontáveis vezes. Ela descobriu que o pai esteve mesmo em São Luís. Para ele, minha mãe prometeu que iríamos à praia em sua companhia, mas sumiu com a gente quando ele passou para nos pegar. Para nós, inventou o jantar”, conta Karla. De tão desorientada com a descoberta, trancou a faculdade por um ano para digerir a história. “O mais difícil foi descobrir que meu pai não era um monstro”, diz Karla, que há 20 anos tem uma relação próxima com o pai, mas não fala com a mãe desde que descobriu que ela manipula da mesma forma seus dois outros filhos de outro casamento.
A história de Karla e sua família é tão triste quanto antiga e corriqueira. Pais e mães que mentem, caluniam e tramam com o objetivo de afastar o filho do ex-parceiro sempre existiram. A diferença é que, agora, há um termo que dá nome a essa prática: alienação parental. Cunhada em 1985, nos Estados Unidos, pelo psicanalista Richard Gardner, a expressão é comum nos consultórios de psicologia e psiquiatria e, há quatro anos, começou a aparecer em processos de disputa de guarda nos tribunais brasileiros. Inspirados em decisões tomadas nos EUA, advogados e juízes começam a usar o termo como argumento para regulamentar visitas e inverter guardas. “Se comprovada a alienação, através de documentos ou testemunhos, quem trama para afastar pai de filho está sujeito a sanções, como multa e perda de guarda”, diz a psicóloga e advogada Alexandra Ullmann. São as mesmas penalidades previstas no projeto de lei 4.053/2008 que tramita na Câmara e pune mães, pais e demais familiares alienadores – também sujeitos a processo criminal por abuso psicológico.
EFEITO BUMERANGUE
Após mais de dez anos ouvindo mentiras, Anderson, 22 anos, e Bruno (de boné) 16, se voltaram contra a mãe e ganharam na Justiça o direito de viver com o pai, Nilton Lima. Para afastar os filhos do pai, a mãe dos rapazes chegou a fazer o mais velho acreditar que apanhava dele quando era pequeno
A alienação parental consiste em programar uma criança para que, depois da separação, odeie um dos pais. Geralmente é praticada por quem possui a guarda do filho. Para isso, a pessoa lança mão de artifícios baixos, como dificultar o contato da criança com o ex-parceiro, falar mal e contar mentiras. Em casos extremos, mas não tão raros, a criança é estimulada pelo guardião a acreditar que apanhou ou sofreu abuso sexual. “É a maneira mais rápida e eficiente de afastar a criança do ex-cônjugue”, diz a desembargadora aposentada Maria Berenice Dias, uma das maiores especialistas no assunto. “Afinal, que juiz vai correr o risco de, na dúvida, não interromper o contato da criança com o acusado?” Segundo ela, nesses casos, testes psicológicos mostram que não houve crime em 30% das vezes. A investigação é complexa e o processo lento por isso a criança permanece anos afastada do pai, tempo suficiente para que os vínculos sejam quebrados. “Quando há falsa acusação de abuso, a criança sofre tanto quanto se tivesse sofrido a violência de fato”, afirma a psicóloga Andreia Calçada, autora de livros sobre o tema.
O que motiva alguém a jogar baixo com o próprio filho? Na maioria dos casos, a pessoa não se conforma com o fim do casamento ou não aceita que o ex-cônjuge tenha outro parceiro. No Brasil, 90% dos filhos ficam com a mãe quando o casal se separa. Por isso, a prática é muito mais comum entre as mulheres. “Há diversos níveis de alienação, mas no afã de irritar o ex-marido, as mães não têm noção do mal que fazem aos filhos”, diz Andreia.

Famílias dilaceradas
Pai ou mãe que joga baixo para afastar o filho do ex-cônjuge pode perder a guarda da criança por "alienação parental"

Claudia Jordão



“O guardião altera a percepção da criança porque ela sente que o pai gosta dela, mas a mãe só o critica, e isso pode desencadear crises de angústia, ansiedade e depressão.” Além disso, a criança cresce em uma bolha de mentiras, o que pode provocar desvios de caráter e conduta.
Crianças de até seis anos são mais suscetíveis a uma modalidade de alienação chamada “implantação de falsas memórias”. É quando o pai ou a mãe a manipula a ponto de acreditar que vivenciou algo que nunca ocorreu de fato. Os dois filhos do consultor empresarial Nilton Lima, 45 anos, foram estimulados pela mãe e pela avó materna a acreditar que haviam apanhado do pai na infância. Nilton e a mãe dos rapazes se separaram após dez anos de casamento. “Certo dia, meu filho mais velho me disse que eu já havia batido nele”, diz Nilton, pai de Anderson, 22 anos, e Bruno, 16. “Fiquei chocado”, diz. Com o tempo, os filhos perceberam a manipulação e ficaram contra a mãe. Esse “efeito bumerangue” é comum quando as crianças crescem e começam a entender o que ocorre ao redor delas. “Nesses casos, os filhos se viram contra quem fez a cabeça de les”, diz a advogada Sandra Vilela. Há quatro anos, depois de quase uma década de briga na Justiça, Nilton conseguiu a inversão de guarda dos filhos. Para isso, foi fundamental o desejo deles de ficar com o pai.
ANOS DE SEPARAÇÃO
Karla e Daniela Mendes cresceram acreditando que o pai era um monstro. Hoje têm uma boa relação
Mas nem sempre uma decisão judicial favorável é suficiente para remendar laços partidos. Pai de uma adolescente de 15 anos e um garoto de dez, o publicitário Paulo Martins, 45, se separou há cinco anos. E, desde então, luta para ficar mais tempo com os filhos, que, sob influência da mãe, já chegaram a ignorar suas ligações, recusar seus convites e mudam de comportamento quando estão na presença dos dois. “Sempre que vou deixar o meu filho em casa, ele muda comigo, percebo que ele não quer que eu o abrace para que a mãe não veja”, conta Martins.
Em 2005, ele entrou com uma ação de regulamentação de visitas, na tentativa de ampliar o tempo de convívio com os filhos. A decisão, favorável a ele, saiu recentemente. Mas a filha mais velha de Martins ainda se recusa a vê-lo. Em julho, Martins resolveu presenteá-la com uma festa de 15 anos, o que deixou a adolescente superanimada. Tudo quase pronto, a bomba: “A mãe dela disse que só iria se a minha mulher não fosse”, conta ele. “Minha filha pediu para eu não levála, mas não quis ceder.” A adolescente preferiu abrir mão da festa e desde então não fala com o pai. Quando um casamento chega ao fim, o ex-casal precisa ter claro que a separação é entre eles. Separar a criança do pai ou da mãe é puni-la por algo que ela não tem culpa. “Não existe filho triste de pais separados, existe filho triste de pais que brigam”, diz o advogado Rodrigo da Cunha Pereira.
Fonte: Revista Istoé
 http://www.terra.com.br/istoe/edicoes/2038/artigo117195-1.htm

domingo, 2 de novembro de 2008

E-MAIL DE CARLOSLACERDA@EDU PARA EDUARDOPAES@GOV

DE CARLOSLACERDA@EDU PARA EDUARDOPAES@GOV

Caro prefeito,
Começo testando-o: qual a marca do meu governo no Rio, que foi de 1960 a 1965? Se você respondeu que é o aterro do Flamengo, logrei-o. Meu grande trabalho foi a adutora do Guandu, que regularizou o fornecimento de água à cidade. No aterro eu só botei as plantas. Quem moveu a terra foi o Juscelino. Digo isso para demonstrar o poder das idéias num governo. Quem me convenceu a fazer um parque naquele aterro foi a adorável maluca Lota Macedo Soares. (Lembra dela? É a personagem da peça da Marta Goes.)
Você promete revitalizar a área portuária do Rio. Quem fizer isso recriará a cidade, como eu e o Pereira Passos.
Faça com a zona portuária o que fizeram com Barcelona e Buenos Aires. Chute a burocracia. Chame os doidos e os mandões (a Lota mandava em mim), convoque arquitetos de todo o mundo para projetar a mudança e papeleiros de todas as praias para equacionar as contas. Mantenha os políticos longe da obra e, pelo amor de Deus, não crie grupos de estudo ou comissões (em todos os sentidos).
Por amor ao Rio,
Carlos Lacerda

Proibição da videoconferência e o arcaísmo e insegurança

Arcaísmo e insegurança

O CULTO ao anacronismo ainda persiste no Brasil e dificulta que o país assimile suas próprias inovações. Fomos pioneiros na informatização das eleições, mas a Justiça ainda cerceia o livre debate eleitoral na internet. Na esfera penal e na segurança pública, relíquias do burocratismo também dificultam a modernização.
Na quinta, o Supremo Tribunal Federal impôs um sério revés ao uso da videoconferência em processos judiciais. Declarou inconstitucional a lei paulista que instituiu o interrogatório de presos a distância. A medida reforça outra decisão da corte, que anulara condenação em cujo processo foi utilizada a teleconferência.
Para o Supremo, questões processuais devem ser tratadas por lei federal. No ano passado, ministros disseram que o recurso eletrônico "viola os princípios constitucionais do devido processo legal e da ampla defesa".
Trata-se de opinião respeitável, mas que repousa sobre pressupostos questionáveis. Como pode um instrumento neutro, uma conexão de imagem e som entre dois locais distintos, violar por princípio o direito à defesa? Por que é necessário criar uma lei específica para que um juiz se comunique com um preso? Cerceamento de defesa tem de ser algo concreto -por exemplo, a ameaça de um policial contra o interrogado-, e não o uso genérico de um recurso eletrônico.
A videoconferência aumenta a eficiência da Justiça. Evita, ademais, a saída de presos das carceragens e a mobilização de grande aparato policial para fazer a segurança nos deslocamentos.
Não é admissível que paire veto de princípio à teleconferência. Uma solução definitiva, de todo modo, passa agora pelo Senado. Tramita na Casa um projeto de lei de Tasso Jereissati (PSDB) que introduz expressamente a videoconferência no Código de Processo Penal. É preciso aprová-lo o quanto antes.

Editorial da Folha de São de Paulo de 02/11/08

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

O BC é o único certo no mundo?

 Todo mundo reduz os juros, só o BC brasileiro acerta ao mantê-los?


Relatório recente do Iedi (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial) usou, pela primeira vez que eu tenha notado, a palavra "recessão" para falar da economia brasileira -aquela que estava "blindada" contra a crise externa, lembra-se?
Diz o Iedi: "Tão acentuados têm sido os efeitos internos e externos sobre o crédito aos agentes produtivos, que não se deve descartar a hipótese de a economia brasileira proximamente entrar em uma recessão. Como cabe observar, se o crédito não era o único mecanismo indutor do crescimento do consumo e do investimento na economia brasileira, era, certamente, o mais importante".
Se há esse baita problema de crédito, deve-se fazer o diabo para injetar dinheiro na economia. O governo até vem fazendo um bocado nessa área, mas o Banco Central resolveu ontem andar na contramão de todos os BCs do planeta, ao manter os juros no obsceno patamar em que se encontram.
Não dá para entender. Basta ler a nota com a qual o Fed, o BC norte-americano, explicou a decisão de reduzir os juros de 1,5% para 1% ao ano. Praticamente tudo o que está nela vale também para o Brasil, guardadas as proporções: "O ritmo da atividade econômica parece ter se desacelerado marcadamente, em grande medida devido a um declínio nos gastos do consumidor. (...) A desaceleração da atividade econômica em muitas economias externas está prejudicando as perspectivas para as exportações dos EUA. Além disso, a intensificação da turbulência no mercado financeiro provavelmente representará um constrangimento adicional sobre o gasto, em parte por reduzir ainda mais a capacidade de pessoas e negócios de obter crédito".
Se, nessas circunstâncias, comuns ao planeta, todo mundo reduz os juros, só o BC brasileiro acerta ao mantê-los?

Texto de CLÓVIS ROSSI na Folha de São Paulo de 30/10/08

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Serra arrastou as fichas

O governador paulista ganhou na política, mas seu cacife está numa economia em tempo de crise

A TENACIDADE e o sangue-frio de José Serra fizeram dele o maior vencedor da eleição de domingo. Aliou-se ao PMDB, elegeu seu poste, derrotou os adversários internos e, num lance de sorte cronológica, habilitou-se para uma liderança política qualificada para tratar com os efeitos da crise internacional sobre a economia brasileira.
O governador de São Paulo lutou para obter o êxito político e os maus ventos da fortuna determinaram o fracasso das ortodoxias financeiras que beneficiaram (em todos os sentidos) aquele tipo de político e empresário que "tem medo do Serra".
A facção papeleira do PSDB tornou-se um ingrediente tóxico. No início de outubro, quando Serra criticou o Banco Central ("esses caras estão destruindo o país com essa política monetária"), alguns tucanos quiseram baixar-lhe o sarrafo do centralismo democrático. Depois do mea-culpa de Alan Greenspan, o "maestro" da farra americana e da corrida da banca às burras de todas as Viúvas do mundo, o discurso conservador tornou-se uma peça de antiquário. Surgirá outro, mas ainda precisa ser formulado.
Há três meses, era possível um cenário no qual Geraldo Alckmin chegaria ao segundo turno na disputa pela Prefeitura de São Paulo. Se perdesse, a culpa seria de Serra. Se vencesse, a vitória seria dele e de seus aliados. Nesse caso, uma vitória de Aécio Neves em Belo Horizonte transformaria a candidatura de Serra à Presidência num fundo de derivativos apodrecidos.
Aconteceu o contrário. Aécio não tropeçou porque seu candidato teve que lutar pela vida em Belo Horizonte, mas porque contrariou a prudência da política mineira e se meteu na disputa de São Paulo, apoiando Alckmin. Nisso, teve o discreto apoio de Tasso Jereissati, batido em Fortaleza pela petista Luizianne Lins.
O governo está capturado numa armadilha de juros altos e câmbio volátil. O Banco Central já dispôs de US$ 25 bilhões para impedir que a moeda americana vá sabe-se lá para onde. Seus gênios sabem que qualquer cotação do dólar acima de R$ 2 significa uma dolorida pressão inflacionária que obrigará Nosso Guia a rever sua teoria da marola. Além disso, estão sobre a mesa os sinais de que o comissariado petista pretende abrir os cofres do Banco do Brasil e da Caixa para investir em empresas estratégicas. Olhada de longe, essa iniciativa bem intencionada ecoa os antecedentes de crises mundiais passadas. Olhada de perto, pode significar uma aventura do governo, beneficiando um pedaço do empresariado, tornando-o eternamente grato pelo favor. É a velha e boa "nova classe", com a qual os grão-petistas tanto sonham, desde que seu gênio contábil Delúbio Soares revelou-se um biscateiro.
Nos últimos 30 anos, deram-se duas tentativas de transformação da economia nacional num regime de capitanias. A primeira, ocorrida em 1976, não passou de uma formulação do velho BNDE. A segunda, vitoriosa durante o tucanato, foi a privataria.
O resultado político da eleição municipal balançou o navio, mas a posição do barco será determinada pela economia. Nela, infelizmente, não há urnas eletrônicas.
Como Serra administrará o capital adquirido, não se sabe. Sabe-se menos ainda como seus adversários administrarão o quadro que o fortaleceu.

Texto de Elio Gaspari na Folha de São Paulo de 29/10/08
 

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Vanessa Lima Vidal, Miss Ceará

 Atenção, Itamarati 

27/10/08 12:06 

Por paulo frança

Nassif, isso é sério, grave e urgente e o Itamaraty tem de intervir.

"Saibam, que nesse momento, Vanessa Lima Vidal, Miss Ceará, segunda colocada no concurso de Miss Brasil, é surda e se encontra no Japão, sem intérprete da língua dos sinais, precisando ir para Macau disputar o Miss Beleza Internacional. E nos faz um apelo, desesperado, através de e-mail, para que a ajudemos. Estamos tentando contato com a Embaixada Brasileira, para ver se resolvemos esse problema"

Por Virgulino

A moça é lindissima. É a protagonista de um caso bastante estranho que em qualquer outro lugar do planeta teria imensa repercussão. Inteligentissima, desembaraçada, impecável no desfile, em tudo melhor e mais bela que a vencedora, o correto teria sido ela ser assumida pela organização do concurso e enviada com a sua deficiência para que fosse avaliada em escala global. Em vez disso, na noite do concurso era notório o constrangimento que causava nos patrocinadores. Ficou evidente que não ganhava porque os cabeças de cabiçulinha do concurso achavam que ela não teria condições de cumprir os compromissos derivados da vitória.

Talvez fosse isto: ela necessitaria de atenção especial que não constava da formatação financeira. E agora, moça de origem humilde que é, deve estar sofrendo com o desdém de quem só se interessa pela grana que ela pode proporcionar. A imprensa falou alguma coisa sobre isto, debateu algum aspecto disso? Não, talvez tenha valido o espírito de corpo com a emissora patrocinadora. Estes concursos não são para tratar as vencedoras como rainhas, mas como escravas a serem sugadas até a ultima gota de sangue.

Nassif, estou recebendo por e-mail direto do Ceará e não dá para postar na íntegra. O caso é sério e está causando danos à imagem do Brasil no exterior. Segue mensagem:

Por paulo frança

A situação é a seguinte: Vanessa Vidal, miss Ceará, foi ao Japão para concorrer ao Miss beleza internacional (em Novembro). Primeiro, uma interprete cearense (da Associação de interpretes do Ceará) era quem ia com ela ao Japão, essa interprete é fluente em LIBRAS e em INGLES. MAS, por falta de contato por parte da organização do MISS BRASIL, essa interprete desistiu. Ela mandou curriculo meses antes, e a coordenação do concurso NUNCA entrou em contato com ela, um descaso total... A interprete ficou preocupada como iria se deslocar para outro país sem contrato, de última hora... desistiu e avisou a VAnessa Vidal que não iria mais com ela, isso foi no mês de Agosto.

A Miss Vanessa comunicou a coordenação do concurso que precisavam procurar outro profissional, pois a interprete do Ceará não ia mais... Desde então, inicioiu-se uma busca a uma profissional interprete, foi solicitado ao presidente da Federação de interpretes de LIBRAS uma profissional com esse perfil (Fluente em libras e Ingles). O presidente da Federação de interpretes, Ricardo Sander, entrou em contato com interpretes de todo o Brasil e uma interprete chamada M ª Cristina Pereira de Florianopolis (Fluente em LIBRAS e INGLES) mostrou interesse e mandou um email para a organização do concurso, mas novamente eles NUNCA retornaram ao email dela.

O contato que tenho no Ceará é de Andrea Michillis. Segue outra mensagem dela, que não está conseguindo acessar o blog, por isso minha intermediação.

O e-mail dela é o andmichiles@hotmail.com

"Sou interprete de LIBRAS (aqui no Ceará) e vice-presidente da Associação de interpretes da Libras do Ceará. Conheço a Vanessa há muitos anos e sou professora-tutora dela no curso de Letras/Libras (UFSC/UFC).

abs,Andrea.

As três ondas da crise

O mundo passará por três grandes ondas no mercado financeiro, antes de assentar e começar a analisar as conequências sobre a economia real:

1. A crise bancária provocada pelo subprime. Bancos Centrais do mundo inteiro já encetaram ofensivas para contê-la.

2. Crise dos “hedge funds”, os fundos especulativos. A extraordinária desalavancagem (venda de ativos para resgate) ocorrida globalmente é a principal razão para essas quedas expressivas das bolsas, para as violentas oscilações cambiais (que não poupou nem o yen do Japão). É processo ainda em curso.

3. O default de países. Essa será a terceira onda. Na América Latina, são candidatos a Argentina (pelo conjunto da obra), Venezuela e Bolívia (pela queda do petróleo e pela falta de previsão quando os ventos iam a favor), e Chile (dependente do cobre).

Depois é que a recessão mundial entrará definitivamente nas análises.

Repare que, por conta do nervosismo atual, até notícias sem nenhuma novidade (como dados de recessão em países europeus ou nos EUA) caem como uma bomba sobre os mercados. Mas tudo por conta dos nervos expostos por essas ondas iniciais.

Do blog do Luis Nassif 28/10/08 09:30 
http://www.projetobr.com.br/web/blog/5

Eleições e bolsa família: Acenderam a luz vermelha

O Bolsa Família se tornou um instrumento de petrificação política, impedindo a alternância no poder municipal


O GOVERNO federal tem uma idéia fixa: vencer a eleição presidencial de 2010. Todas as ações político-administrativas estarão voltadas para esse objetivo. E, se necessário, vencer a qualquer preço.
Mas os resultados surpreendentes (para o governo) das eleições municipais acenderam a luz vermelha. Desapareceu do espectro político a possibilidade de o próximo presidente da República ser escolhido por um só eleitor, e 125 milhões de cidadãos simplesmente referendarem o desejo imperial.
As análises que davam como certa uma onda vermelha fracassaram, assim como aquelas que imputavam ao presidente Lula uma espécie de varinha de condão para escolher os prefeitos. Sua popularidade era tal, diziam, que bastaria indicar o candidato a ser votado. Seu prestígio era tão grande, afirmavam, que o povo, obedientemente, seguiria a determinação do condutor.
Se Lula e seus apoiadores acreditavam nessa falácia, não cabe crítica. O estranho foi a oposição ter imaginado que esse delírio era real.
Como esperado, nos pequenos municípios, o índice de reeleição dos prefeitos foi o maior da história. O uso político do programa Bolsa Família -o cadastramento é controlado pelos prefeitos- fez com que a reeleição se transformasse em favas contadas: quando não foi o próprio prefeito, o candidato vencedor foi alguém do seu grupo político.
Assim, o Bolsa Família se transformou em um instrumento de petrificação política, de permanência das oligarquias, impedindo a alternância no poder municipal.
Pior: o governo Lula, que já conta com 11 milhões de famílias beneficiárias, ameaça incluir mais 4 milhões que já estão cadastradas no programa. Em outras palavras, o programa Bolsa Família será um dos instrumentos usados em 2010 para ganhar de qualquer jeito as eleições.
O final do ano será marcado por um cenário político confuso. Surpreendido pelo resultado das eleições municipais, ao governo interessa colocar vários obstáculos no caminho até chegar a 2010.
Vai lançar diversos balões de ensaio: transformar o Congresso em Assembléia Constituinte, voltar a insinuar o desejo de apresentar a proposta do terceiro mandato, falar em extinção da reeleição, defender um mandato presidencial de cinco anos -mas, no fundo, sabe que nada disso pode ser aprovado.

A maioria congressual que o governo Lula teve nos seis anos de mandato vai diminuir paulatinamente. E minguará na relação inversa do tamanho da crise econômica internacional.
O governo continuará tentando dividir a oposição, buscando aqueles mais propensos à composição política em troca de algumas migalhas. Deverá explorar vaidades e esperanças frustradas.
Não faltarão adesistas. Estes, claro, vão se justificar argumentando que estão defendendo os interesses dos seus Estados. Vimos na campanha municipal que poucos candidatos tiveram a altivez de não se prostrarem frente ao presidente, como se o gestor municipal (ou estadual) tivesse de ter uma relação de subserviência em relação ao governo da União.
Até o momento, a oposição não esteve à altura das necessidades do país: teve receio de se contrapor, de remar contra a corrente, de enfrentar o governo no terreno da política; como se o índice de popularidade de Lula -que não será eterno- fosse um escudo que impedisse a construção de um outro projeto de país.
Mas os eleitores dos principais colégios eleitorais deram um recado: querem ter uma alternativa, não aceitam o voto de cabresto, não votarão em um poste na eleição de 2010, mesmo que indicado e apoiado ostensivamente por Lula.
O bloco anti-histórico que está no poder -o sindicalismo amarelo associado ao atraso oligárquico e aos interesses do grande capital financeiro- não cederá o governo facilmente. Vai lutar com todas as armas.
Teremos a eleição mais violenta da nossa história, com o uso da máquina administrativa e dos programas assistencialistas, com acusações e ameaças, dossiês à vontade, para todos os gostos, e, provavelmente, em um cenário econômico desfavorável.
Tivemos uma pequena mostra agora. Se o presidente foi tão agressivo na eleição de Natal, imagine quando estiver em jogo o Palácio do Planalto: o figurino "Lulinha paz e amor" será jogado no lixo.
O exército de aloprados prepara-se para o combate. Eles sabem que não podem perder o acesso privilegiado ao poder. Não mais sobrevivem distante dele. E farão de tudo para continuar mais quatro anos (oito seria melhor) usando e abusando das benesses produzidas em Brasília.

Texto de MARCO ANTONIO VILLA, 52, historiador, é professor do Departamento de Ciências Sociais da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos). É autor, entre outros livros, de "Jango, um Perfil".

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

A vulnerabilidade da economia brasileira

A falta de um plano para a nação fez com que aproveitássemos pouco o período de prosperidade da economia mundial

















HÁ POUCO , a euforia com o surto de crescimento da economia brasileira somado ao descobrimento dos campos de petróleo fazia acreditar que o Brasil estava blindado contra as mazelas que se revelavam na economia mundial. Chegou-se a pensar que seríamos de novo uma ilha de prosperidade num mundo em recessão, o que, de fato, havia acontecido por breve período no "milagre econômico brasileiro" dos anos 1970, quando a economia do país crescia mais do que a chinesa atual.
Havia muito para o Brasil celebrar.
A demanda chinesa fez com que nossa dívida externa fosse quase toda paga e nossas reservas em divisas atingissem a marca de US$ 200 bilhões. A transferência de renda aumentou a inclusão social, e os investimentos decorrentes do aquecimento econômico fizeram crescer a nossa classe média.
Atingimos o grau de investimento e ainda fomos abençoados com o bônus da descoberta de reservas gigantescas de petróleo no pré-sal. A liberação generosa de créditos agrícolas promoveram a ampliação das áreas plantadas, e a demanda de um mundo carente de alimentos contribuiria ainda mais para as reservas do país.
Todavia, a falta de um plano para a nação, bem como de um planejamento estratégico de curto, médio e longo prazo, aliada a uma necessária reestruturação da nossa economia, fez com que aproveitássemos pouco -e mal- o período de prosperidade da economia mundial.
Não há como criar uma nação prospera e moderna sem plano e sem planejamento. Deixamos passar a fase de bonança mundial para criar as defesas que poderiam proteger nosso país da crise financeira que se alastra e se aprofunda a cada dia.
Sem um rumo definido, fomos beneficiados pela economia mundial em ascensão. Agora, estamos esperando que se revele o destino para onde as ondas negativas nos levarão. O pouco que nosso país tem crescido se deve mais à teimosia do povo empreendedor que a influências do Estado, que consome 40% da riqueza nacional.
Acordamos para a realidade com a velocidade com que vimos se evaporar a nossa poupança em ações e a acelerada desvalorização da moeda.
Enquanto nações como EUA, China e outras agressivamente adotavam políticas de estímulo econômico com juros baixos e câmbio favorável para fazer frente à recessão mundial, nosso otimismo fez com que agíssemos na contramão do bom senso econômico.
À frente a uma das mais severas recessões mundiais, aumentamos a taxa de juros e mantivemos nosso cambio em situação desfavorável até que a as circunstâncias forçaram a desvalorização do real.
Com a nossa desorganização econômica, as reservas de petróleo serão insuficientes para desenvolver a nação. Convém lembrar que países como Venezuela e Irã continuam em situação de subdesenvolvimento, apesar das grandes reservas de petróleo. Da mesma forma, vimos nações enriquecerem em curto prazo sem grandes riquezas naturais, como China, Japão e demais tigres asiáticos.
Nada substitui a organização econômica de um país. Mercantilismo, o caminho da riqueza dos tigres asiáticos e da China, deverá ser o modelo adaptado para o Brasil.
O atual processo de recessão, com a crise sistêmica do setor bancário e da economia global, tem tudo para se transformar em uma profunda e prolongada depressão mundial. E já estamos vendo essa queda contagiar nossas commodities, cuja exportação tanto nos rendeu nesses últimos anos e que iria blindar o Brasil.
O sistema do "laissez-faire", de Adam Smith, pregado para o mundo como fórmula sagrada para a prosperidade, ora revela suas limitações. A socialização dos prejuízos de Wall Street e a estatização total ou parcial de quase todas as entidades financeiras chocaram a opinião pública norte-americana. A intervenção de governos na economia, mais chegada às teorias de Keynes e que se aproxima da direção planejada dos tigres asiáticos e da China, deve ora ser vista pelo mundo sob nova ótica. O capitalismo, da forma praticada, deixará de existir.
Agora temos que nos livrar do modelo econômico de pobreza, que sempre abafou nosso crescimento com taxas de juros exorbitantes. O câmbio desfavorável, o sistema de entraves, a velha legislação trabalhista e a falta de plano e planejamento fazem parte do nosso modelo de pobreza.
Enquanto a China conseguiu promover a inclusão econômica e social de 480 milhões de habitantes em 25 anos, nossos bolsões de miséria se mantêm. E a moeda chinesa, que flutua de acordo com uma cesta de moedas, se manteve estável nesta crise.



Texto de CHARLES A. TANG membro do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial e membro fundador do Ipede (Instituto de Pesquisa e Estudos de Desenvolvimento Econômico), é presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China.

Na Folha de São Paulo de 27/10/08

Não é amor

É o momento de o movimento feminista recrudescer em outro patamar, para unir homens e mulheres que reconhecem na cultura da posse uma redução de seu potencial humano e, na desigualdade de direitos, grave ofensa ao direito de ser feliz num mundo mais ameno.


ATREVO-ME A alguns comentários leigos sobre os casos, em grande evidência, de seqüestro e assassinato de mulheres muito jovens por seus companheiros, namorados ou maridos também muito jovens. Limito-me a manifestar um terrível mal-estar, que é, ao mesmo tempo, tentativa de entender.
O caso da adolescente Eloá, de Santo André, parece ter provocado um surto. De Goiás, da Bahia, a notícia traz nomes e situações diferentes, mas, no fundo, é a mesma: após décadas de conquistas femininas e da queda de tantos tabus, a relação homem-mulher ainda é presa de uma cultura doente de posse e anulação do outro.
Em plena vigência da maior liberdade sexual já vivida na sociedade ocidental, grande parte dos homens comporta-se com perverso desejo de fusão com quem dizem amar, a ponto de colocar sua integridade em risco. A mulher que eles ameaçam em nossa frente, no horário nobre, não é nossa filha.
Mas, de certa forma, é. Não é nossa irmã. Mas, de certa forma, é. Não somos nós. Mas estamos todos reféns da perplexidade e da carência de sentido de tudo isso.
O que faz alguém imaginar ser dono do outro ou senhor do sofrimento alheio, inclusive da família, dos amigos, da comunidade e, com o auxílio da mídia, do país inteiro?
Esses episódios chamam a atenção para um fosso que torna incompletas as conquistas femininas, se as tomarmos sobretudo em seus aspectos relacionados a questões legais e materiais. No plano emocional, o pensar masculino parece ter sido insuficientemente afetado pelas mudanças nas leis, nos costumes, na realidade social. Ainda está perdido, talvez mais do que o universo feminino, na armadilha da possessão, confundindo-a com amor.
Antes era brandida a honra para justificar a violência. Hoje, entregues à razão narcísica contra quem não aceitou a fusão absoluta, decretam: ou assimilo o outro, ou ele não pode mais existir.
E, no entanto, há quantos anos as leis e as convicções repelem esse domínio? Talvez tenha chegado o momento de o movimento feminista recrudescer em outro patamar, para unir homens e mulheres que reconhecem na cultura da posse uma redução de seu potencial humano e, na desigualdade de direitos, grave ofensa ao direito de ser feliz num mundo mais ameno.
Não se pode imaginar que um homem que oprime ou tortura mulheres, por quaisquer meios, ou lhes tira até mesmo a vida tenha alguma satisfação genuína ou auto-estima. O grande desafio é que, enquanto essa legião de órfãos da felicidade não encontrar o rumo de casa, ou seja, da parte sensível e acolhedora de sua condição humana, estará faltando algo essencial aos direitos das mulheres.

Texto de MARINA SILVA, senadora e ex-ministra do meio-ambiente
Da Folha de São Paulo de 27/10/08

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Falcatrua à vista: ou simplesmente roubalheira à vista

Traços familiares, por Jânio de Freitas


É interminável a grande dinastia das medidas do governo que nascem com endereço determinado e corrupção também


A MEDIDA provisória que libera a Caixa para associar-se a construtoras/empreiteiras, assim como o Banco do Brasil a comprar parte ou o todo de empresas, tem os traços próprios das providências governamentais que devem ser recebidas com muitas reservas. Aí estão certos traços fisionômicos que sugerem algum parentesco, por exemplo, com as artimanhas para tornar a Oi/Telemar dona da Brasil Telecom, criando situação monopolista na telefonia fixa, com dinheiro do BNDES e do Banco do Brasil. É interminável a grande dinastia das medidas que nascem com endereço determinado.
A necessidade das construtoras/ empreiteiras não figurou nas notícias de setores já tocados por incipientes reflexos da crise. Muito pelo contrário, os negócios imobiliários foram objeto de recente noticiário, inclusive documental em TV, de que o interesse dos pretendentes a aquisoções não se mostrou abalado. O que é até lógico, porque a insegurança de aplicações mais propagandeadas, como Bolsa e fundos, aumenta a atração pela solidez dos imóveis.
De repente, o governo lança umas referências imprecisas sobre associação com construtoras, citando a Caixa Econômica e o BNDES, e em pouco mais de 24 lança a MP, na qual o Banco do Brasil substitui o outro banco, que já está metido em mais comprometimentos financeiros do que lhe convinha. Claro que a providência estava encaminhada antes da primeira e mal definida referência: para a reunião que a originou, no Planalto e com Lula, já foram chamados os presidentes do BB e da Caixa.
Rapidez e precaução podem indicar eficiência administrativa. Não, porém, quando essas duas qualidades deixam rombos sugestivos. Quem vai indicar os beneficiários dos capitais da Caixa e do BB? E por que critérios? Como se comprovará o estado empresarial de necessidade do favorecimento? E, acima de tudo: quem e como serão fixados o montante do aporte e O VALOR de cada ação?
Convém lembrar logo que empresa carente de auxílio extremo tem suas ações depreciadas.
E não será demais observar que as indagações acima, formas do interesse público tanto quanto do dever governamental, referem-se a esclarecimentos também públicos para a regra geral e para cada caso do favorecimento.
A espera de tal clareza do governo fica por conta do otimismo de cada leitor.

Da Folha de São Paulo de 23/10/08

Meu comentário: Tomara que as apreensões do Jânio de Freitas e as minhas desconfianças não se concretizem, mas tudo leva a crer que teremos mais um amontoado de corrupção.

O Pró-Tudo de Lula x Proer

O Pró-Tudo de Lula

Governo vai criar braço da Caixa a fim de socorrer bancos e empresas; Pró-Tudo de Lula é menos claro que Proer de FHC


O GOVERNO baixou ontem uma medida provisória que autoriza um banco estritamente estatal, a Caixa, a comprar qualquer empresa. Medida preventiva, pois, como disse o ministro Guido Mantega, "nenhum banco está quebrando"? Pode ser, embora seu anúncio tenha sido um tanto assustador, para dizer o menos. Mas o essencial é: não há mecanismos mais transparente de evitar "riscos sistêmicos"?
Tanto Banco do Brasil (BB) como Caixa (CEF) e suas subsidiárias podem fazer feira de instituições financeiras em estado pré-falimentar.
BB e CEF foram autorizados a comprar seguradora, empresa de previdência privada (que tomaram tombos feios com a crise no mercado) etc. Mas o BB pelo menos tem ações na praça. Seus acionistas minoritários podem chiar, embora os governos tenham o costume de cobrir rombos do bancão federal.
Mas a CEF, além de ser todinha da União, ainda foi autorizada a criar um banco de investimentos, que pode comprar "participações" (parte ou o controle de empresas), entre outras operações típicas do setor. Se não for inócua, a CEF-Par" tem toda a cara de que será o bancão sombra da crise brasileira, o que vai engolir companhias podres, mas sem prestar contas claras (é um banco) e tendo o dinheiro público como o garantidor último de negócios ruins ou de negócios com amigos quebrados.
Em suma, se a CEF fizer mau negócio, a conta cai no Tesouro Nacional.
O Banco do Brasil recebeu ajuda em 1996 e em 2001, no governo FHC. A CEF, o Banco do Nordeste e o Banco da Amazônia entraram também no pacotão de 2001. O colunista não conseguiu fechar as contas precisas dos dois pacotões mas, em valores de hoje, começaram custando R$ 38 bilhões. A conta é difícil porque, além de dinheiro vivo e compra de ações pelo Tesouro, a União agasalhou créditos podres desses bancos (como dívida agrícola, dívida de financiamento imobiliário etc.). Aliás, em geral, os bancos fazem tais negócios ruins porque lobbies pedem, e o governo cede.
Há dois problemas graves e essenciais no Pró-Tudo de Lula. Primeiro é o público simplesmente não vir a saber que risco estará correndo, pois as operações do banco de investimento da CEF não vão aparecer no sistema de contabilidade pública.
Ou melhor, podem aparecer: quando a conta do negócio ruim chegar.
Ou ainda antes: ou a CEF não tem dinheiro para bancar a feira de empresa ruim (e a medida é inócua) ou vai acumular passivos obscuros e/ou receber aporte de recursos do Tesouro desde já. Será essa a próxima medida provisória?
Segundo problema maior: o privilégio. Considere-se que uma empresa ou banco fez negócio ruim e está para quebrar. A CEF então dá uma mãozinha, compra "participação".
Os acionistas ou donos das firmas que fizeram maus negócios ficam com a empresa e com o subsídio público. Impedir que a empresa quebre é bom para os funcionários e para o país? Ok. Mas por que é preciso haver subsídio para o proprietário?
O PT fez aquela chacrinha com o Proer, o programa federal de cobertura de rombos dos bancos privados, criado no governo FHC. Mas o Proer, ainda com algumas obscuridades, parece muito mais claro do que o Pró-Tudo de Lula.

Texto de VINICIUS TORRES FREIRE na Folha de São Paulo de 23/10/08

Kassab: "Ele é casado? Tem filhos?" "O que mais ele esconde?"

Conservadores e conservadores, por Eugênio Bucci

Marta foi além da linha que separa o legítimo do intolerável

Nesta eleição municipal, Gilberto Kassab carrega consigo as forças mais conservadoras do Brasil. Mais ainda, é carregado por elas. Não apóio sua candidatura, caudatária da tradição ancestral de recusar e, na medida do possível, impedir a força renovadora dos movimentos sociais. Numa sociedade tão desigual como a nossa, não há perspectivas de democracia e de justiça que não inclua a organização livre dos mais pobres e a afirmação material dos seus direitos. A autoria dos processos políticos não pode mais se restringir àqueles que sempre mandaram. O jogo do poder requer novos atores, deve ser compartilhado com aqueles que, até há pouco, não tinham vez. A ilusão conservadora reside justamente aí, na suposição autoritária de que pactos entre velhas oligarquias dão conta de superar os impasses atuais. No caso brasileiro, as respostas não estão mais no passado. Reinventar a política e promover lugar, voz e influência para os novos atores se tornaram para nós imperativos inescapáveis.

O dado chocante na eleição paulistana é que o argumento mais conservador que apareceu na arena até agora foi lançado exatamente pela candidatura que ainda procura falar em nome da renovação, a de Marta Suplicy. Quando decidiu pôr em debate aspectos da vida privada do atual prefeito, por meio de duas perguntas insidiosas - "Ele é casado? Tem filhos?" -, a campanha do PT e de seus partidos coligados reafirmou, ainda que de modo enviesado, os preconceitos mais sombrios da nossa cultura, aqueles que atam a noção de virtude pública ao tradicionalismo no modo de vida. Ao tradicionalismo sexual. Embora faça tudo para ostentar uma plataforma aparentemente inclusiva e igualitária, a candidatura da ex-prefeita demonstrou, com esse movimento, que não hesita em se aliar ao que pode haver de pior no discurso obscurantista.

Agora, cabe perguntar: de que lado, verdadeiramente, está o conservadorismo? Ele está no pacto que apóia Kassab, que pelo menos nesta campanha não agrediu a intimidade de ninguém - e o respeito às privacidades é uma exigência da renovação política -, ou está na propaganda de Marta Suplicy, que, embora tente se alicerçar nas periferias geográficas e políticas desta metrópole, reproduz e revigora valores atrasados, deseducando o eleitorado e exumando padrões comportamentais anacrônicos? Qual dos dois lados se mostra mais preparado para renovar a cultura política?

Para muitos, e muitos de boa-fé, a quem respeito, a pergunta é absurda. Alegam que o pólo dito "de esquerda" é o único pelo qual pode passar a superação dos nossos déficits democráticos municipais e nacionais. Tomam isso como uma verdade imutável e, em nome dela, negligenciam o resto. Emudecem sobre o que chamam de pecados menores à luz da grande responsabilidade histórica que recairia sobre os ombros dessa esquerda e apenas dela. Recusam-se a debater em público os erros de conduta de seus correligionários, como se o público fosse um campo minado. Qualquer exposição, qualquer reflexão aberta sobre o tema recebe logo o carimbo condenatório de um ato que dá munição ao inimigo - inimigo "nosso" e, portanto, inimigo do povo e do futuro. Assim, deixam de ver no público a instância máxima da democracia e consideram que os deslizes éticos, mesmo quando encerram podridões, devem ser dirimidos antes no interior do aparelho e só depois chegar à opinião pública. Se é que devem chegar aí.

É com tristeza que afirmo que a distância entre essa postura e o vale-tudo, tão próprio do conservadorismo pátrio, é mínima. Quando surge um caso de corrupção, o silêncio obsequioso se escuda numa espécie de rouba-mas-faz-obra-social. Agora, temos uma variante da mesma postura: a-campanha-é-preconceituosa-mas-pelo-menos-é-"popular". Ora, até onde vamos?

O proselitismo do "É casado? Tem filhos?" não é um episódio menor. Ele denota que, do ponto de vista desses estrategistas, qualquer cartada pode valer para derrotar o inimigo - inimigo mesmo, não adversário. Nesse sentido, é quase uma confissão. Mais que a privacidade de Gilberto Kassab, expõe uma tibieza de princípios na candidatura de Marta Suplicy. Que é ainda mais preocupante quando se leva em conta o destaque que as bandeiras comportamentais sempre tiveram na trajetória da candidata, cuja história foi abertamente traída pelas duas perguntas fatídicas.

Há muito já sabemos que, na política contemporânea, os fins não justificam os meios. Ao contrário, os meios determinam os fins. Jogar suspeitas sobre a intimidade de quem quer que seja não é um método aceitável para se conquistar um lugar neutro chamado poder. Esse lugar não é neutro, ele é necessariamente moldado pelas práticas adotadas para viabilizá-lo; os métodos que têm lugar no poder não têm como ser diferentes daqueles que foram empregados em sua conquista. A nossa história recente é pródiga em (maus) exemplos. Por isso, é preciso cuidado. Muitas vezes são os pequenos gestos que revelam o caráter de uma candidatura - e aqui estamos diante de um desses pequenos gestos. Ele indica que, para essa candidatura, a vitória eleitoral parece valer mais que a coerência em torno de bons princípios. Se é assim agora, o que mais não vem pela frente?

A ética lida com limites e os limites nem sempre são trágicos, espetaculares, grandiosos. Às vezes, eles são sutis. A linha que separa o legítimo do intolerável pode ser muito fina, quase imperceptível. Mesmo assim, ou melhor, por isso mesmo, não se pode desprezá-la. Há um ponto além do qual não se pode ir. Lamentavelmente, a campanha de Marta Suplicy foi além. Aí, não tenho como acompanhá-la. Desta vez, ela não terá meu voto.
Do Estadão de 23/10/2008
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20081023/not_imp264774,0.php

Quem é:
Eugênio Bucci, de janeiro de 2003 a abril de 2007 dirigiu a Radiobrás (Empresa Brasileira de Comunicação S.A), comandando o processo de revitalização e reposicionamento da empresa estatal de comunicação. Seu trabalho foi elogiado pelos principais veículos de comunicação do país e por diversos políticos e intelectuais, acumulando prêmios e reconhecimento nacional e internacional.De janeiro de 2003 a abril de 2007 dirigiu a Radiobrás (Empresa Brasileira de Comunicação S.A), comandando o processo de revitalização e reposicionamento da empresa estatal de comunicação. Seu trabalho foi elogiado pelos principais veículos de comunicação do país e por diversos políticos e intelectuais, acumulando prêmios e reconhecimento nacional e internacional.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

O governo e o cachoro correndo atás do próprio rabo

Medidas tópicas que só adiarão o dia da queda da equipe econômica, tomara que tropecem e caiam logo!


O governo acaba de autorizar o Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal a comprarem bancos e construtoras em dificuldades financeiras.
Isto é ótimo, é sinal que o governo está alerta e tomará todas as medidas possíveis para evitar que o Brasil no buraco.
Não, isto é péssimo, é sinal que o governo vem mentindo nos últimos meses e que a marola que o presidente falou, pode ser um tsunami!
Em 2003 o governo federal encontrou uma grave crise financeira provocada pelo desconhecimento do novo presidente, mas em compensação o governo tinha um instrumento muito poderoso para sair da crise que era a maxi-desvalorização do dólar que estava na casa dos R$ 4,00.
Com o real desvalorizado seria fácil aumentar as exportações e provocar um enorme superávit comercial que pagaria nossa dívida externa em poucos anos.
O governo, no entanto foi favorecido pela procura mundial por comodities e as exportações de produtos primários aumentaram tanto em quantidades exportadas quanto em valores no mercado internacional.
O governo então utilizou o dólar como âncora contra a inflação e permitiu sua desvalorização, este movimento de baixa, inicialmente fez os exportadores anteciparem as receitas de exportações e provocar mais baixa do dólar, ao mesmo tempo da âncora contra a inflação o governo precisava financiar seu enorme déficit público e permitiu que os juros continuassem com taxas elevadíssimas, refletidas na taxa SELIC.
Como os juros internos eram e continuam sendo muito elevado, o maior do mundo, os especuladores internacionais resolveram trazer mais dólares para a especulação e por conseqüência o dólar se desvalorizava ainda mais e assim passamos 6 anos, acumulando lucros dos especuladores e escorchando o contribuinte brasileiro.
Durante estes 6 anos o governo deu e permitiu aumentos estratosféricos para os funcionários federais dos três poderes. A lista de desperdício é enorme, ainda na semana passada, houve mais um bonde da alegria, carregado de aumento para os funcionários, numa prova evidente que este governo sindicalista pretende perpetuar-se no poder, às custas do contribuinte brasileiro.
Agora a conta da bebedeira foi apresentada.
O Banco Central já gastou uns 25 bilhões de dólares para saciar a sede dos especuladores e tudo indica que vai gastar muito mais.
Depois de negar a crise, depois de dizer que não haverá corte em políticas sociais, depois do ministro da agricultura dizer que a agricultura não será afetada, como assim não será afetada, se as cotações despencaram?
Depois de dizer que as verbas do PAC não serão afetadas, depois de negar, depois de marolar, depois de enrolar, o governo a cada dia tenta apagar o incêndio que ele, GOVERNO, não sabe o tamanho, pois nunca quis ouvir os setores responsáveis da sociedade.
Agora deputados governistas imploram ao presidente do Banco Central, preposto dos financistas, que pare de aumentar os juros e o presidente do Banco Central, fiel aos compromissos assumidos junto aos seus patrões, os já referidos financistas, não quer atender ao mínimo que seria não aumentar os juros, pois o correto seria reduzir drasticamente a taxa da SELIC para que a sociedade possa respirar.
Assim ficamos vendo o governo tal qual o cachorro que corre atrás do próprio rabo, ou seja rodando sobre si mesmo, pois a sociedade implora a baixa dos juros e o governo responde com medidas paliativas, medidas tópicas que só adiarão o dia da queda da equipe econômica, tomara que tropecem e caiam logo!

José Geraldo da Silva
23/10/08
Segundo Paulo Nogueira Batista Júnior, diretor-executivo do FMI para o Brasil, petista de carteirinha, nossa política monetária deve ser revista e o BC terá de rever a política de alta nos juros no País por causa da crise internacional
Ouça esta sonora da rádio Bandeirantes

Doce Veneno - Aspartame



Três artigos, sobre o Doce Veneno - Aspartame, escritos pela Denise Arcoverde no site Síndrome de Estocolmo

Doce Veneno - Aspartame - Parte 1 - Minha Experiência

Doce Veneno - Aspartame - Parte 2 - Ciência & Incertezas

Doce Veneno - Aspartame - Parte 3 - Porque a gente pode engordar consumindo produtos Diet


Parte 1 - Minha Experiência

Publicado na Quarta-feira, 21 Junho 2006 por Denise Arcoverde
aaspartame1.jpg
Quando mudei pros EUA, achei que tinha chegado ao paraíso das comidinhas diet. Até comentei com amigas, que era uma delícia! não precisava mais me preocupar com isso. Há uns 15 anos não sei nem o que é açúcar, tudo era aspartame. Depois que Bia cresceu, até ela entrou nessa, afinal, não custava nada evitar o maldito açucar.
Aqui, o refrigerante é indecentemente barato. Muitas vezes, comprei no Giant, supermercado local, refrigerante em promoção, por 7 dólares, 3 caixas com 12 latas cada, o que dá 19 centavos cada lata!
Em Costco, quando ia às compras, pagava 55 centavos por quanto refigerante pudesse tomar, eles dão o copo e você vai colocando mais. Tudo diet, claro. Houve dias em que eu percebi que tomava muito maisCoca Diet que água.
Cinco, seis latinhas, estupidamente geladas, por dia. E estava virando um vício, já acordava precisando daquela sensação do refrigerante (que também podia ser Sunkist Diet, que eu amo), descendo pelo estômago, logo cedo… (as latinhas até viraram post sobre manias)
Além disso, tem tudo diet. Chocolates, barrinhas de cereais, gelatina, sorvetes, picolé, sucos, bolinhos e até cheesecake. Quase tudo com aspartame, lógico, e a um preço super convidativo.
Paralelamente, desde que mudei pra cá, tenho me sentido estranha. Primeiro, que minha dor de cabeça (que sempre tive, igual a minha mãe), piorou muito. Vivia com dor de cabeça. Também uma “moleza” enorme, falta de disposição, parecendo uma depressão. E muita dor muscular, dores que começaram a pipocar por todo lado.
Eu adorei a mudança pra cá. Apesar de gostar muito de Estocolmo, sabia que a vida aqui seria bem mais fácil, principalmente pra Bia, como realmente foi. Ela tá ótima. Eu já falava bem inglês e adoro Washington. Estive aqui, em 1998, com Bia, e lembro de pensar que essa seria uma excelente cidade pra se viver.
Concretamente, eu não tinha do que reclamar, super feliz com Ted e Bia se adaptando bem. Mas cada vez eu piorava mais. Era um sensação de desânimo. Aí eu comecei a observar minha alimentação, tentar comer coisas mais saudáveis e… cortar tudo que tivesse aspartame.
Mais do que todos os muitos artigos que eu li, posteriormente, contra esse produto, a minha experiência pessoal é de se arrepiar. Eu cortei o aspartame após ter ido parar no hospital pela terceira vez, com dores. Algumas semanas depois, eu me sentia uma outra pessoa. Ainda um pouco cansada, ainda com pequenas dores, mas sem nenhum traço de depressão (e sem usar nenhum anti-depressivo!).
Aí, como estava absolutamente viciada em refigerante diet, comecei a falar que era coincidência, que não tinha nada a ver e que provavelmente eu estaria melhorando mesmo, com ou sem aspartame… e voltei a tomar as latinhas.
Gente, voltou tudo. Toda a sensação de mal-estar, de depressão, as dores aumentaram. Aí, obviamente, eu entendi a gravidade da coisa, comecei a ler tudo que, até aquele momento eu sempre jurei que era “hoax”, era lenda urbana e agora ninguém me faria colocar uma miligrama de aspartame na boca.
images.jpgEu nunca fui “natureba”. Na verdade, até ficava deslumbrada com os avanços da “tecnologia da alimentação” comentava com Ted como era fantástico poder tomar quantas Diet Coke queria, sem me sentir “culpada”. Sempre achei que, os que detestam comidinhas diet, congelados etc. estavam vivendo em outro mundo… achava que era puro preconceito…
Hoje, depois de tudo que eu li (artigos científicos, de jornais médicos confiáveis) e por tudo que passei e estou passando, me arrependo profundamente por não ter sido uma “natureba”, a minha vida toda. Li, em um artigo, que a gente só devia consumir coisas que as nossas tataravós reconhecessem como comida. Muito interessante e é o que estou tentando seguir, agora.
Não estou dizendo que o aspartame causa a fibromialgia, mas que pode ser um poderoso catalizador da síndrome (ou doença, como preferirem). Quando fui ao meu médico reumatologista, que tem 40 anos de experiência, e falei do aspartame ele ficou irritadíssimo (e feliz por eu já ter parado de consumir).
Disse que para eles, médicos experientes, que tratam fibromialgia, lúpus e outras doenças que atingem o sistema imunológico, isso não é nenhuma novidade. Eles atendem milhares de pacientes por ano reclamando desse “envenenamento pelo aspartame” (palavras dele). E o pior é que as indústrias de alimentos (basta dizer que o aspartame foi produzido, pela primeira vez, pela criminosa Monsanto) têm poder demais e eles não podem fazer nada.
E ele não é um médico jovem, cheio de “idéias alternativas”, não. É um senhor perto de se aposentar, bem tradicional (tem o nome dele em revistas, como dos melhores médicos de Washington), mas ele viu, na sua experiência própria, o efeito do aspartame e repete que é um “veneno”.
Hoje em dia, confesso que fico ansiosa ao ver alguém consumindo aspartame, ainda mais se for alguém que tem fibromialgia, porque a relação entre os dois é tão garantida e comprovada. E eu senti na pele.
Mesmo se você for perfeitamente saudável, não vale a pena arriscar, porque ninguém sabe quem tem predisposição à fibromialgia ou lúpus (pessoas negras têm maior probabilizade de desenvolver a doença). Tenho visto depoimentos, no blog Vivendo com Fibromialgia, de meninas que descobriram a doença aos 18 anos. Também vi vários homens sofrendo com isso.
Eu melhorei muito, depois que parei de usar o aspartame - além da minha postura positiva em relação à doença, credito a isso boa parte do meu bem estar e poucas dores. Mas, a fibromialgia estará sempre comigo, ainda que diminuam as dores, não tem um dia que eu não perceba que elas estão por aqui.
É uma pontada no pé, no pulso, na mão, um cansaço extremo na hora de acordar. Estou muito bem, não é nada insuportável, mas além de ser desagradável, eu sei que a qualquer momento, uma crise maior vai aparecer. Porque, uma vez estabelecida, a fibromialgia não tem cura.
Portanto, não vale a pena arriscar, de jeito nenhum. Esse é o primeiro post de uma série que vou fazer sobre o aspartame. Mas, se fosse você, ia na cozinha e jogava fora já, tudo que tiver com esse produto, eu, meu médico e muitos estudos sérios estamos garantindo que é um veneno.
stevia.jpgObs.: uma questão prática… como substituir o aspartame? eu evito, hoje, qualquer adoçante dietético. Se for mesmo obrigada, por total falta de opções e tiver Splenda, ainda uso, mas sei que também tem contra-indicações. O açúcar, como bem lembrou a Juliana, também faz mal, especialmente refinado. Eu acho que a melhor opção ainda é astevia, que é o produto mais saudável. Estou curiosa pra ver se suspender os adoçantes diet vai aumentar meu peso. Desconfio que não.
No próximo post, escreverei sobre as últimas pesquisas sobre o tema e no seguinte, sobre porque é que, mesmo tomando tanto aspartame, todo mundo continua gordo.
Observações importantes:




  • Tomar um adoçante diferente e Coca Light, não adianta de nada. É importante saber a quantidade total de aspartame que se consome por dia, pra isso é importante olhar todos os rótulos, de gelatina, yogurte, refigerantes etc. Tudo isso pode ter aspartame. O pior é o excessivo uso de Coca (ou Pepsi, ou Sprite etc.) Diet, que a gente consome, ai é onde eu acredito que se consome mais aspartame.












  • Quanto às informações contraditórias na Internet, é fundamental saber a fonte. Mesmo pesquisas feitas por profissionais de saúde podem não ser confiáveis, porque as indústrias, como a Monsanto, pagam fortunas por resultados tendenciosos. Basta mudar uma variável, e o resultado é o que eles querem. É uma máfia. Tem um site, por exemplo, http://www.aspartame.org, que parece ser bem profissional, mas é todo financiado pelas indústrias que produzem aspartame.












  • Eu também achava que era “hoax”, até experimentar e sentir os efeitos na pele. Ainda tinha dúvidas até conversar com meu médico, que não acredita nem em suplemento ortomolecular, por exemplo, mas garante que o aspartame é um dos pricnipais detonadores da fibromialgia.












  • Gente, eu era MUITO cética. Hoje, tenho pena, porque sei que tudo que escrever não adianta muito, porque a maioria vai achar que é “lenda urbana”, mas infelizmente, é uma verdade escondida pelo poder econômico dessas empresas. A história de como conseguiram liberar o aspartame nos EUA é de arrepiar. Vou traduzir isso pra vocês também.












  • O Serbon informou que nenhum refrigerante diet, no Brasill, usa aspartame (aqui são quase todos adoçados com esse produto), menos mal. Vale dar uma olhada nos rótulos.
    Imagem: Organic Consumers Association.
    Do blog Síndrome de Estocolmo
    http://sindromedeestocolmo.com/archives/2006/06/doce_veneno_asp.html/