domingo, 23 de dezembro de 2007

Preparando o álibi para o aumento de juros

Nos últimos dias, alguns porta-vozes do mercado passaram a alertar para dois problemas futuros:

1. A volta da inflação, devido ao aquecimento da economia, exigindo a elevação dos juros.

2. A expectativa de que a crise internacional possa afetar o mercado brasileiro, devido à ausência de ajuste fiscal, exigindo a elevação dos juros.

Por trás das análises, começa a ser montado o álibi para os problemas que poderão aparecer nos próximos anos, talvez no próximo, devido aos erros da política cambial, que trouxe de volta o déficit nas contas correntes.

Para desviar o foco do livre fluxo de capitais (e dos juros elevados), hoje em dia o principal fator de lucro do mercado, começa-se a buscar o bode expiatório.

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O que está ocorrendo objetivamente? Com o “boom” da economia chinesa, houve uma explosão nos preços das matérias primas em geral, que são itens relevantes na pauta de exportações brasileira.

Quando entram muitos dólares na economia, ocorre um movimento de encarecimento do real, que acaba por prejudicar exportações de outros produtos, não beneficiados pelas altas internacionais.

Não bastasse esse fluxo de dólares ingressando pelo superávit comercial, o Banco Central manteve as taxas de juros internas permanentemente bem acima das taxas internacionais. Com isso atraiu uma avalanche de dólares pelo mercado financeiro, que vinham atrás das taxas de juros e da perspectiva de apreciação adicional do real.

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A economia já vinha se aquecendo em função das políticas sociais bem conduzidas, do aumento do salário mínimo e da abertura do mercado de crédito e financiamento. O real valorizado trouxe um componente a mais, ao aumentar ainda mais o poder aquisitivo do consumidor. Houve um aumento expressivo do consumo, em um primeiro momento suprido pela alta expressiva das importações, e pela perda de dinamismo das exportações.

Se o dólar cai muito (e o real fica muito caro) chega um momento em que se bate no fundo do poço e o real para de se valorizar. Quando isso ocorre, o mercado deixa de ganhar em cima dessa valorização.

Para não interferir nos lucros do mercado, com o livre fluxo financeiro, não ter que reduzir os juros, e esticar o período de sobrevalorização do real, o BC passou a comprar dólares, até constituir uma reserva em dólares de US$ 180 bilhões. O Tesouro passou a ser onerado não apenas pelos juros do BC, mas pelo custo de manter esses dólares em caixa – o BC emite títulos que custam 12,5% ao ano, compra dólares e aplica a menos de 4% ao ano. A diferença é prejuízo fiscal.

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Agora, mesmo com a tática do BC, o dólar começa a chegar perto do fundo do poço, ainda mais após a crise internacional. No próximo ano, se terão dois fatores novos em jogo:

1. O dólar voltando a se valorizar.

2. A volta, após muitos anos, dos déficit em conta corrente (mesmo com o preço ainda elevado das matérias primas).

3. A crise internacional, que aumentará a percepção de risco, exigindo que os emergentes ofereçam mais juros para atrair o capital especulativo.

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É a partir dessa percepção de fim de festa, que analistas e operadores de mercado, como Luiz Carlos Mendonça de Barros e Armínio Fraga, começam a preparar o terreno para justificar futuras altas nas taxas de juros.


Coluna Econômica 23/12/2007 do Luiz Nassif
http://www.projetobr.com.br/blog/6.html de 23/12/07

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