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sábado, 15 de dezembro de 2007

Rio São Francisco: De Cabrobó a Sobradinho, por Dom Tomás Balduino

O jejum de dom Luís Flávio Cappio, tanto o de Cabrobó como este de Sobradinho, na Bahia, veio revelar a profunda divisão que se instalou em nosso país a propósito da transposição das águas do Rio São Francisco. Não foi o bispo de Barra (BA) que provocou esta divisão. Ele simplesmente a desnudou diante de todo o mundo. O verdadeiro autor desta divisão é o próprio presidente Lula. Ele cometeu a histórica façanha de dividir a sociedade brasileira. Dividiu também o Nordeste e até a Igreja.

Hoje podemos traçar um nítido quadro sinótico de quem está de um lado ou de outro desta divisão, de quem está pró ou contra a transposição do São Francisco. A favor está, em geral, a população nordestina, eventual receptora das águas. Contra, a população do semi-árido baiano e mineiro. A favor, o empresariado beneficiário e as empreiteiras. Contra, as organizações populares, os indígenas, os quilombolas, os camponeses reunidos na grande articulação da Via Campesina. A favor, o governo federal e seus representantes do norte e do sul do semi-árido, por intermédio do programado comando dos governadores, incluindo o ministro da Integração Nacional, cuja autoridade moral para pontificar sobre o assunto tem sido fortemente contestada. Os cientistas também se dividiram. A mídia está, ao mesmo tempo, num curioso pacto de silêncio ou pela transposição.

E a Igreja? Com relação à transposição do rio, nada menos do que 112 bispos católicos e evangélicos se pronunciaram em 30 de março de 2006 nestes termos: “Reafirmamos nossa posição contrária à transposição das águas do Rio São Francisco” ( in Os Pobres Possuirão a Terra, Cebi, Sinodal, Paulinas). Mas o mesmo número ou, quem sabe, até um número maior pode se achar do outro lado. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em nota, cobrou do governo a revitalização do rio e o respeito pelos povos da região. Quanto à transposição, reconhece que não há unanimidade na Igreja e acha isso perfeitamente compreensível. A posição fria de dom Geraldo Lyrio Rocha após a audiência com o Lula, no dia 12 deste mês, naturalmente decepcionou a muitos. Nem defendeu o irmão contra a colocação do Lula de ser a greve de fome um caso individual. Entretanto, esperar mais do que isso da direção da CNBB é sonho. Aí o cuidado é preservar a instituição eclesiástica, mesmo com perda da profecia. A presidência do Conselho Episcopal Regional Bahia e Sergipe, juntamente com o cardeal dom Geraldo Magella, foi a Sobradinho, no avião do governador Jaques Wagner (PT-BA), visitar dom Luís Cappio e propor-lhe a troca daquele jejum radical por outra penitência alimentar. O núncio apostólico, logo no início, arriscou uma intervenção, proibindo o bispo de Juazeiro (BA), dom José Geraldo da Cruz, de receber dom Luís Cappio em qualquer igreja ou capela da Diocese. Não funcionou. Na realidade, há uma dupla divisão na Igreja: uma com relação à transposição e outra com relação ao jejum do bispo. É mais comum se ouvir da parte dos bispos um posicionamento sobre a forma radical de jejum de dom Luís, o que envolve um juízo moral, do que sobre a transposição do rio, que é uma questão política. Mas por trás da argumentação contra o jejum pode estar oculta a posição a favor da transposição.

A família de sangue de dom Luís, de todos, sem dúvida, a mais apegada à vida dele, está lá em Sobradinho, ao seu lado, numa atitude de profundo respeito pelo gesto do irmão e contando esperançosamente com a vitória de sua luta.

A maior divisão, porém, é a que existe entre os dois projetos ligados ao São Francisco. O primeiro é este da transposição, que o Lula diz e repete que “não pode retirar”. Na propaganda oficial, atenderia a 12 milhões de nordestinos e custará R$ 6,6 bilhões. O segundo projeto, que o governo vem abafando sistematicamente, atenderia satisfatoriamente a 44 milhões de nordestinos, pela metade do preço, sem precisar de transposição do rio. Consta este projeto do Atlas do Semi-Árido, trabalhado pela Agência Nacional de Águas, (ANA), em ligação com a Articulação do Semi-Árido (ASA). Na verdade, há água suficiente no Nordeste, a falha grave é no agenciamento do uso. Esta proposta alternativa, ao contrário da transposição, respeita o meio ambiente e orienta a população para a salutar convivência com o semi-árido. Por que não abrir para toda a sociedade o diálogo na busca da solução para o semi-árido brasileiro? Por que impor a transposição com militarização das obras, protegidas por tanques de guerra?

No meio de todas estas divisões há uma belíssima união, que se vai criando e crescendo como uma bola de neve a partir daquelas margens ventiladas do São Francisco. Trata-se da população pobre e devota que se está dirigindo, pressurosa, à capela de São Francisco a fim de tomar a bênção de frei Luís Cappio. Juntamente com esta religiosidade natural daqueles herdeiros do padre Cícero e do Conselheiro está nascendo uma nova consciência por meio de falas, de caminhadas, de atos públicos e de romarias em torno daquele santuário. Ali ouvi reflexões ligando a transposição à maldição. Lembrei-me da reflexão de Leonardo Boff, coirmão de frei Luís: “Transposição da maldição, feita à custa da vida de um bispo santo e evangélico” (JB, 26/6).

É dispensável, finalmente, que o presidente Lula dê preferência a 12 milhões, em lugar de atender individualmente ao bispo, como vem declarando, pois o bispo já fez o dom de sua vida pelos 44 milhões de nordestinos e pela vida do Velho Chico.

Dom Tomás Balduino, bispo emérito da cidade de Goiás, é conselheiro permanente da Comissão Pastoral da Terra

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