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domingo, 5 de outubro de 2008

Ofensas e violência pela internet

Jovens enfrentam ofensas e violência no mundo virtual

Tipo de agressão via internet, o "cyberbullying" atinge 46% dos 510 jovens que responderam à enquete da ONG Safernet

Vítima de ofensas na escola, Taiguara Chagas, 20, atua em peça como jovem que é encorajado por outros na internet a cometer suicídio


Alice (nome fictício) tinha 17 anos e cursava o ensino médio no colégio Faap, em Higienópolis (zona oeste de SP). Estava havia dois anos na escola quando descobriu que haviam sido criadas anonimamente duas comunidades no Orkut contra ela: "Eu odeio a tosca da Alice" e outra com referências preconceituosas ao Estado de origem de sua mãe.
Diante dos ataques, a estudante e sua família acharam melhor mudá-la de colégio. Lá, descobriram que a história tinha se espalhado. A solução foi mandar Alice para fora do país, enquanto eram tomadas providências legais para a retirada das páginas do ar e o rastreamento do autor ou dos autores.
Alice estava no centro de um caso de "cyberbullying", fenômeno que transfere para a internet as agressões típicas que estudantes mais frágeis sofrem dentro da escola. Enquanto o clássico "bullying" acontece na sala de aula, no playground e nos arredores do colégio, a versão virtual transcende os limites da instituição de ensino. As hostilidades se potencializam na rede mundial de computadores, diante da facilidade atual de criar páginas e comunidades na internet. E-mails anônimos, mensagens de celular injuriosas, blogs ofensivos e vídeos humilhantes -todos fazem parte da violência virtual.
"No mundo real, a agressão tem começo, meio e fim. Na internet, ela não acaba, fica aquele "fantasma'", compara Rodrigo Nejm, psicólogo e diretor de prevenção da SaferNet Brasil.
O resultado preliminar de uma enquete sobre segurança na internet realizada no site da ONG assusta: 46% dos 510 adolescentes e crianças que responderam ao questionário afirmam que foram vítimas de agressões na internet ao menos uma vez; 34,8% dizem que foram agredidos mais de duas vezes. Dos participantes, 31% são do Estado de São Paulo, onde há o maior número de relatos segundo a SaferNet.
Os ataques a Alice começaram em 2005, mesmo ano em que a mãe da jovem acionou a Justiça. "A adolescente estava completamente abalada quando chegou ao escritório", recorda o advogado que a defendeu, José Luis de Oliveira Lima, 42.
A polícia conseguiu chegar ao computador que originou as comunidades, de uma colega de classe de Alice. Só havia uma relação entre as duas: Alice era a melhor amiga do então namorado da autora do "cyberbullying". Procurada pela Folha, a direção do colégio Faap não quis se manifestar.
Também vítima de agressões via web, a policial militar Nair Caliguere, 54, teve dificuldade para tomar providências diante das humilhações a que ela e a filha foram submetidas. Só conseguiu fazer um boletim de ocorrência contra o "Blog das Porcas", mantido por alunas do colégio Renovação (zona sul), em 2003, na terceira tentativa.
Na página, seis estudantes atacavam professores e outras alunas. O blog era especialmente virulento contra Mariana Caliguere, que na época era modelo e hoje tem 22 anos e é cadete da PM. "O mais pesado foi elas falarem da minha mãe", lembra a jovem.
O blog era popular pelo tom de diário com que as integrantes falavam de bebedeiras e até de detalhes da vida sexual.
Quando começaram os abusos em relação a terceiros, o que era engraçado ficou sério. Os pais das "porcas" foram chamados ao colégio.
Três das seis jovens foram "convidadas" a deixar a escola, e o blog foi apagado. "Os filhos copiam os valores dos pais", diz Cláudia Baratella, 39, vice-diretora do colégio Renovação. "O jovem não pára para pensar que a internet está no mundo. A conseqüência dos crimes contra a honra, de calúnia e injúria na internet é desproporcional ao dano", afirma Patricia Peck Pinheiro, 33, advogada especializada em direito digital.
Patricia foi uma das responsáveis em formular uma cartilha para o colégio Bandeirantes com orientações sobre a utilização da internet. O colégio São Luís também possui um projeto que visa coibir a prática do "bullying". Quem encabeça a iniciativa é a professora de português Roberta Ramos, 38.
Depois de aplicar um questionário com os estudantes para ver quem se sentia vítima de "bullying", começou um trabalho de conscientização.

Fórum "antibullying"
O blog da gaúcha Daniele Vuoto, 22, é outra fonte de consulta (http://nomorebullying.blig.ig.com.br). A estudante de pedagogia, que foi vítima de "bullying" tradicional em três das quatro escolas pelas quais passou no RS, hoje ajuda pessoas nas mesmas condições.
"O que mais me machucava era me sentir sozinha em escolas enormes, onde todos viam o que acontecia e ninguém fazia nada", diz Daniele, que passou a ser o alvo por defender alunos que eram ridicularizados. "Logo começaram a apontar defeitos em mim: muito branca, magra, notas altas." No auge de uma depressão por não ser aceita, a jovem tentou acabar com a própria vida.
A crueldade por parte da turma pode gerar diferentes reações. "As conseqüências são problemas de aprendizagem, reprovação escolar, isolamento, depressão e até mesmo suicídio", diz Cleo Fante, pedagoga pioneira nos estudos sobre o "bullying" escolar no Brasil.
Ela alerta para o surgimentos dos "bullycidas", pessoas que incentivam os jovens que sofrem "bullying" a praticar suicídio. "É algo muito recente e difícil de descobrir."
O incentivo ao suicídio virou tema de peça de teatro. "Bate Papo", do irlandês Enda Walsh, ficou em cartaz na capital paulista durante um ano e deve voltar aos palcos paulistanos no começo de 2009.
Na obra, seis adolescentes teclam na internet sobre Harry Potter, Britney Spears e suicídio. Um deles, deprimido, interpretado por Taiguara Chagas, 20, é virtualmente encorajado por outros da mesma idade, 16 anos, a se matar.
Vítima na escola, o ator se inspirou na própria história para encarnar o personagem. Ruivo, ele era alvo de chacota por causa da cor do cabelo. "Fui bastante zoado e me sentia excluído", recorda Taiguara.

Superação
É também como se sentia V., da escola Projeto Vida, na zona norte de SP. No ano passado, a aluna começou a receber bilhetinhos com insultos de C., sua colega de classe. Depois, vieram as ameaças de agressão física.
As advertências da orientadora educacional não intimidaram a agressora. Em maio, veio a descoberta de que os xingamentos e chacotas haviam migrado para o ambiente virtual.
Em seu blog, C. passou a agir com deboche. "Quando vi a página, fiquei com muita vontade de chorar. Depois, [fiquei] com muita raiva", recorda V., que era representada por uma bonequinha que explodia. "Era muita crueldade", revolta-se a mãe da adolescente.
O mesmo blog que atacava V. foi usado como arma pelos pais da menina para reagir. Com o auxílio de um advogado, fizeram chegar até a escola uma notificação extrajudicial pedindo providências. A diretora pedagógica, Mônica Padroni, 45, assumiu o caso. Chamou C. novamente para conversar. "O que a deixou mais abalada foi a possibilidade de seus pais serem processados", diz. Foi só nessa hora que a garota entendeu a proporção do seus atos. Quis se desculpar.
A diretora sugeriu que C. escrevesse uma carta. "Nunca pensei que ela pediria desculpas", afirma V., hoje com 13 anos. A vítima até tentou mandar uma reposta por escrito para a ex-amiga. Não conseguiu. O que sente em relação a tudo que passou ainda não pode ser expresso em palavras. A agressora hoje sabe que destratar alguém pela internet tem conseqüência. A vítima aprendeu que é muito difícil esquecer.

"Ficava chateada", diz namorada de ídolo adolescente

Ana Carolina Favano, 20, começou a namorar o então desconhecido Leandro Rocha, 22, em janeiro de 2006. Um ano depois, a banda de Leandro, a NX Zero, estourou e ele virou Gee. Ká, como Ana Carolina é conhecida, percebeu que a sua vida dali para frente nunca mais seria a mesma.
Começou a ser atacada na internet, em uma comunidade no Orkut que afirmava que ela estava atrás do dinheiro de Leandro. "Levei um susto. Nunca fiz nada para provocar ninguém", diz ela. Estudante de medicina em Santos, Ká ligava para a mãe, que mora em São Paulo, chorando. "Ela queria ir à delegacia", disse a mãe.
Com a ajuda de um amigo, Ana Cláudia Favano descobriu em que computador havia sido criada a comunidade contra a filha. Entrou em contato com a menina, residente em Goiânia, e conseguiu tirar a página do ar.
Mas a história de Ká no mundo virtual não parou ali. Logo começaram a surgir centenas de perfis "fakes" (falsos) dela, construídos por adolescentes fãs da banda NX Zero, que se passavam por ela. "No começo, ficava bem chateada", lembra.
Hoje, Ká tem comunidades a favor e contra ela no Orkut. "Agora, levo essa história numa boa." Já desistiu de tentar acabar com perfis falsos. Um deles chega a ter 521 participantes. "Para tirar um "fake" no Orkut, tem que juntar uma série de documentos", lamenta a verdadeira Ká, diante de um inimigo oculto: "Eles nunca mostram a cara".


COMBATE AO "CYBERBULLYING"

Reações que escolas, pais e vítimas da agressão devem ter

PAIS
Acompanhar a vítima na delegacia
Encaminhá-la para atendimento psicológico
Não deve incentivar a vingança nem ignorar a situação
Não tratar o "cyberbullying" como bobagem
Acompanhar a vida dos filhos na internet

ESCOLA
Reconhecer a existência do fenômeno
Capacitar professores para lidar com os casos
Orientar a família e os alunos sobre o "cyberbullying"
Chamar os pais da vítima e do agressor e informá-los dos casos

VÍTIMAS
Procurar a ajuda de um adulto da família
Relatar o ocorrido para um responsável na escola
Salvar e imprimir as páginas com ofensas
Procurar uma delegacia e registrar boletim de ocorrência
Pedir ao provedor que tire do ar as páginas com agressões


Texto de RAFAEL BALSEMÃO e RICARDO SANGIOVANNI
Da Folha de São Paulo de 05/10/08

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