domingo, 20 de janeiro de 2008

Muamba no anzol ou o fim dos peixes nos oceanos

Muamba no anzol

Fome européia de frutos do mar incentiva comércio ilegal de peixe, obtido por firmas multinacionais nos mares de países pobres

Caminhando pelo mercado de Brixton entre barracas de bodiões, peixes-cirurgiões e gunelos, Effa Edusie está cercada por recordações de sua infância em Gana. Pescados no dia anterior na distante costa da África ocidental, os peixes foram transportados de avião para serem servidos na Inglaterra no jantar.
A caixa de papelão marrom que contém os caranhos ostenta o logotipo improvável da China National Fisheries Corporation (CNFC -Empresa Nacional de Pescado da China), uma das maiores fornecedoras européias de pescado da África ocidental. Cada vez mais, as mesas européias vêm sendo supridas por frotas pesqueiras globais que sangram os oceanos para alimentar os consumidores ávidos.
O pescado é hoje o produto animal mais comerciado no planeta; a cada ano são vendidos cerca de 100 milhões de toneladas de peixe, tanto os pescados na natureza quanto os criados por aqüicultura. A Europa repentinamente tornou-se o maior mercado mundial de pescado, movimentando mais de 14 bilhões de euros (US$ 22 bilhões) por ano. O apetite dos europeus por peixe vem crescendo enquanto seus estoques de peixes nativos diminuem. A Europa hoje importa 60% do pescado vendido na região.
O desequilíbrio entre oferta e demanda na Europa resultou num crescente comércio ilegal. Cerca de 50% do pescado vendido na União Européia vem de países em desenvolvimento, e boa parte é "lavada", como é feito com o contrabando -pescada e transportada ilegalmente, excedendo os limites permitidos por tratados e cotas governamentais. Essa operação de contrabando é sofisticada e bem financiada, realizada por grandes frotas pesqueiras mecanizadas que conseguem pescar mais peixes que nunca, perseguindo os estoques ameaçados de oceano a oceano.
Enquanto parte da pesca dita "pirata" é feita por embarcações não ocidentais, em locais distantes da Europa, também há embarcações européias culpadas do delito, algumas das quais operam perto de casa. Estima-se que 50% do bacalhau pescado no mar Báltico seja de origem ilegal, disse Mireille Thorn, comissária de Pesca e Assuntos Marítimos da União Européia. "Sabemos que é fácil demais descarregar peixe ilegal em portos europeus."
A julgar pelo custo, o peixe não vai demorar a tornar-se o contrabando mais valorizado da Europa. Os preços vêm dobrando e triplicando em função do aumento da demanda, da escassez de peixe e das cotas impostas recentemente pela União Européia, numa tentativa desesperada de salvar suas espécies nativas. Em Londres, um quilo do humilde bacalhau, tradicional ingrediente do "fish and chips" (peixe e fritas) britânico, hoje custa até 30 libras (quase R$ 120), sendo que quatro anos atrás era 6 libras.

Conexão Canárias
Às 5h de um dia de inverno em Billingsgate, no mês passado, enquanto atacadistas tiravam das caixas peixes vindos de todas as partes do mundo, o enorme comércio internacional que alimenta a Europa era claramente visível, embora o mesmo não se pudesse dizer da origem de filés e postas.
Menos de 24 horas antes, parte desse pescado tinha passado por Las Palmas, nas Ilhas Canárias, porto que conta com cinco inspetores para fiscalizar 360 mil toneladas de pescado perecível por ano, que precisa passar por ali rapidamente. O arquipélago espanhol das Canárias, ao largo do Marrocos, tornou-se o ponto mais procurado de desembarque não apenas de imigrantes ilegais, mas também de pescado ilegítimo.
Uma vez liberado em Las Palmas, o pescado já terá ingressado na União Européia, podendo ser vendido em qualquer outra parte sem novas inspeções. "Hoje, não existe mercado ao qual não tenhamos acesso", disse Lee Fawcitt, que vende atum do Sri Lanka, salmão e bacalhau da Noruega, linguado do Canadá, tilápia da China, camarões de Madagascar e caranhos da Indonésia e do Senegal.
Diante do problema, a União Européia estuda a idéia de exigir que representantes seus nos portos europeus chequem com as autoridades dos países em que as embarcações são registradas para assegurar que sejam legalizados e possuam o direito de pescar. No curto prazo, os preços vão subir. Consumir pescado sustentável significa comprar peixe mais caro, ou então não comer peixe. "Temos agido como se o estoque fosse ilimitado", disse Steve Trent, da Fundação de Justiça Ambiental.


Reportagem de ELIZABETH ROSENTHAL DO "NEW YORK TIMES"
Tradução de Clara Allain
Fonte Folha de São Paulo de 20/01/08

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