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sexta-feira, 23 de maio de 2008

Os bons morrem cedo demais: senador Jefferson Péres

Charge de: Paixão

Homenagem ao senador Jefferson Péres

É tão estranho, os bons morrem cedo demais

Love In The Afternoon
Legião Urbana
Composição: Renato Russo


É tão estranho, os bons morrem jovens
Assim parece ser quando me lembro de você
Que acabou indo embora, cedo demais

Quando eu lhe dizia: - me apaixono todo dia
E é sempre a pessoa errada
Você sorriu e disse: - eu gosto de você também
Só que você foi embora cedo demais
Eu continuo aqui, meu trabalho e meus amigos
E me lembro de você em dias assim
dia de chuva, dia de sol
E o que sinto eu não sei dizer

- Vai com os anjos, vai em paz
Era assim todo dia de tarde, a descoberta da amizade
Até a próxima vez, é tão estranho
Os bons morrem antes
Me lembro de você e de tanta gente
Que se foi cedo demais

E cedo demais eu aprendi a ter tudo que sempre quis
Só não aprendi a perder
E eu, que tive um começo feliz
Do resto eu não sei dizer

Lembro das tardes que passamos juntos
Não é sempre, mas eu sei
Que você está bem agora

Só que este ano o verão acabou
Cedo demais.

Ouça a entrevista de Lúcia Hippolito que comenta sobre a vida e obra do senador Jefferson Péres
http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM831310-7823-MORRE+O+SENADOR+JEFFERSON+PERES,00.html

No Jornal Gente da rádio Bandeirantes José Paulo de Andrade lamentou a morte do senador e disse que "os bons morrem jovens"



Abaixo trechos de Renata Lo Prete na coluna Painel da Folha de São Paulo de 24/05/08
Testamento 1. Líder do PDT, o senador Jefferson Péres (AM), morto ontem, dedicou-se nos últimos meses a duas causas. A primeira era combater o terceiro mandato. "Essa idéia esdrúxula não vai prosperar. Ela fere um dos fundamentos da democracia", discursou em 16 de abril.

Testamento 2. A outra era criticar a demarcação contínua da reserva Raposa/Serra do Sol. "O governo brasileiro, cedendo à pressão de entidades estrangeiras, cometeu um grave equívoco. Não defendo interesses de proprietários rurais, mas dos caboclos. Há perigo de separatismo no futuro", afirmou em 22 de abril.



25/05/2008

Como deveríamos ser - Homenagem de Cristovam Buarque

Jefferson era uma rara espécie no cenário político brasileiro. E sua morte nos passa a sensação de que o Senado ficou muito menor

NA SEXTA-FEIRA de manhã morreu um pedaço da ética na política brasileira. A ética, a política, o Senado ficaram menores com a partida de Jefferson Péres. Raros homens públicos conseguiram encarnar tanto uma bandeira como ele, nenhum conseguiu encarnar tanto a bandeira da ética.
Não foi por acaso. Foi o trabalho de uma vida de coerência, discursos e comportamento. Jefferson Péres não era um político de duas palavras nem de duas caras. E fazia questão de mostrar a cara que tinha e a palavra que dizia. Não perdia oportunidade de falar na defesa das questões morais, com ênfase, sem meias palavras, sem concessões.
Quando teve a generosidade de aceitar ser candidato a vice-presidente na chapa do PDT comigo, ele disse que não sabia dar tapinhas nas costas, carregar crianças que não conhecia, rir sem vontade. Falei que políticos com aquele comportamento já temos muitos. Precisávamos exatamente da "maneira Péres" de fazer política. E sua marca foi fundamental. Onde passei, durante a campanha, escutava de todos que eu tinha o vice que orgulhava a chapa.
Recebi a notícia da sua morte pouco antes de entrar para fazer uma palestra na Universidade da Europa Central, em Budapeste (Hungria), sobre o papel do biodiesel e do etanol na reformulação da matriz energética mundial e na dinâmica da economia brasileira, seguida do lançamento da tradução de meu livro "Os Deuses Subterrâneos". Foi um choque que me fez pensar em suspender tudo e voltar para prestar minha homenagem ao companheiro de chapa, companheiro de partido, orgulho de nós senadores. Seria impossível. Foi preciso levar adiante a agenda, desabafando sobre o ocorrido com os que me escutavam. E esperar chegar ao hotel para escrever estas linhas.
Cada notícia de morte nos trás um trauma, mas Jefferson trouxe mais de um, além do desconforto da distância em que me encontrava no momento.
Ele fazia parte de um pequeno grupo de pessoas que nos passam a idéia de que não morreriam. Não sei se seu físico demonstrava saúde, se sua presença marcante nos parecia permanente, mas ele passava essa idéia.
O outro choque é pelo que ele representava. Jefferson era uma rara espécie no cenário político brasileiro.
E sua morte nos passa a sensação de que teria sido apagada uma parte da ética na nossa política. De que o Senado fica muito menor a partir de agora. Por isso, e em homenagem a ele, vai ser preciso continuar a luta usando o seu legado, transformando-o em um símbolo: o da política com ética, sem demagogia, sem falsidade. A política cujo discurso se faz enfrentando e propondo caminhos, não com o vazio de propostas e o excesso de elogios mútuos de todos os dias.
Ao lado do Jefferson da ética, perdemos também um grande senador da Amazônia. Um defensor de nossa soberania. Porque, além de decente, ele era um nacionalista. Defendia o Amazonas e a Amazônia-nossa com todo o vigor, a serviço dos brasileiros, não apenas como uma reserva paralisada no tempo. Suas últimas falas foram sobre a Amazônia que ele tanto amava e tão bem representava.
Perdemos dois anos e meio de um grande senador e homem público, porque ele vinha afirmando que não tinha pretensões de voltar ao Senado, desejava sair da vida pública, que lhe parecia sem motivação.
Não vamos saber se de fato esse sentimento de frustração o levaria a deixar a política ou se, na última hora, perceberia que não tinha o direito de deixar essa lacuna. Ele não precisou tomar a decisão ou cumpri-la, se já estava tomada no seu fórum íntimo. Quis o destino que ele nem ao menos terminasse seu mandato atual.
Fica para nós, colegas do Senado, amigos e correligionários, a obrigação de levar adiante sua luta. Retomar seus projetos de lei e fazer cada um deles ser aprovado. Ler caladamente seus discursos, para nos inspirarmos.
E lê-los na tribuna, para lembrar aos brasileiros que o país teve um político como deveríamos ser todos nós.
Para o PDT, fica um desafio enorme, porque, a cada erro nosso, seremos lembrados de Jefferson Péres. Seremos desafiados pelo exemplo positivo que tivemos. E que fica.



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CRISTOVAM BUARQUE , 64, doutor em economia, é professor da UnB (Universidade de Brasília) e senador da República pelo PDT-DF. Foi reitor da UnB (1985-1989), governador do Distrito Federal pelo PT (1995-1998) e ministro da Educação (2003-2004). Concorreu à Presidência da República nas eleições de 2006, tendo o senador Jefferson Péres como candidato a vice-presidente em sua chapa.

Da Folha de São Paulo de 25/05/2008

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