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sábado, 1 de agosto de 2009

Câncer do pênis, circuncisão e câncer do colo do útero


Câncer do pênis, circuncisão e cancer de colo do útero


AFIZ SADI



É curioso como certas patologias surgem com características endêmicas e depois, felizmente, desaparecem por completo



CURIOSO COMO determinadas patologias surgem com características endêmicas em regiões localizadas no país -às vezes epidêmicas- e, depois, felizmente, desaparecem por completo.
Tem-se a impressão de uma cura completa da patologia, vez ou outra, mas, passados anos de silêncio, ela reaparece no país, recrudescida, e requer novos estudos, novas terapêuticas e tudo o mais para a sua contenção ou quiçá o seu novo desaparecimento.
Tenho sempre admitido que tudo é novo sem deixar de ser velho. A base é sempre a mesma, o substrato não desaparece, mas surgem novas tecnologias, novas terapêuticas.
Haja vista agora a preocupação dos urologistas com o câncer do pênis.
Ora, essa patologia vem de longa data. É secular. Travou-se polêmica há mais de meio século sobre esse assunto na comparação entre judeus e muçulmanos e outras denominações.
Dizem os urologistas que a maior estatística se encontra no Estado de São Paulo. Isso pode ser verdade, mas, avaliando bem, são portadores vindos de outros Estados para tratamento em São Paulo. Deve-se aos cuidados com algumas doenças sexualmente transmissíveis, mas, principalmente, à falta de higiene com o órgão.
Sabe-se que a fimose é o principal fator de desencadeamento de doenças do pênis ou da genitália -sobretudo do câncer do órgão. Isso tudo é conhecido, verdadeiro e os especialistas aconselham essas manobras higiênicas a toda hora.
A verdade é que a fimose provoca a retenção do esmegma entre o prepúcio e a glande. A isso acrescenta-se a urina, que, nessa mistura, provoca um odor nauseante e leva à irritação frequente do prepúcio. Dessa forma surge a lesão peniana, que, não tratada, não cicatrizada em poucos dias, leva à suspeita da presença de um câncer, cujo tratamento é diferente de outras patologias.
Já escrevi dezenas de vezes e durante toda a minha vida de professor de urologia adverti os alunos sobre essa patologia e dizia que a postectomia na primeira infância é fundamental para a abolição total do câncer do pênis. E tem mais: uma mulher que teve contato sexual somente com um homem operado na infância nunca terá câncer do colo do útero.
Isso ocorre com os judeus, que circuncidam os meninos do quarto ao sétimo dia do nascimento, e com os muçulmanos, que o fazem até o sétimo ano de vida da criança -eles também não correm o risco do câncer, mas não com tanta segurança quanto os judeus. Quanto mais cedo for feita a operação, melhor.
Acho essa a única maneira de abortar o câncer do pênis na população. Sempre fui favorável à postectomia ou circuncisão na primeira infância. Mesmo porque ela auxilia a diminuir entre 50% e 60% as doenças sexualmente transmissíveis, além de proporcionar maior facilidade para a higiene do órgão.
Quanto ao homem circuncidado ou postectomizado na idade adulta, ele não está livre do câncer, como ocorre quando a operação é feita na primeira infância, mas verá diminuída -e muito- a chance de seu surgimento, bem como a chance do surgimento de doenças sexualmente transmissíveis.
Como o câncer do pênis está na ordem do dia e foi ressuscitado, de acordo com as notícias do momento, não custa corroborar, ainda que pela rama, os urologistas da atualidade, porque, embora o câncer do pênis tenha sido muito bem estudado no passado, provocando inúmeras teses sobre o seu surgimento, sua etiopatogenia, sua terapêutica clinica, cirúrgica, radiológica e química, bem como sobre ele e suas metástases ganglionares, quase sempre se esquecia da sua prevenção no sentido da circuncisão na primeira infância.
Por essas razões -e para não estender em demasia o assunto-, sugiro aos interessados que leiam um artigo básico, bem antigo, de Wolbarst, publicado no "Lancet", volume 222 (1932), na página 150, e nele então verão toda a parte clínica, científica, estatística e preventiva do câncer do pênis com muita exatidão e veracidade. Por isso eu disse que tudo é novo sem deixar de ser velho.

AFIZ SADI , médico, é professor titular aposentado de urologia da Unifesp/EPM (Universidade Federal de São Paulo/Escola Paulista de Medicina), emérito da Sociedade Brasileira de Urologia e da Academia de Medicina de São Paulo, além de membro honorário da Academia Nacional de Medicina e da Academia de Medicina de Minas Gerais.

Da Folha de São Paulo de 29/07/09

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