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sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Uma Heloísa Helena de verdade



Com sua cara de brasileirinha barrada no baile, Marina Silva é a bandeira que o mundo quer ver o Brasil hastear

A SEMANA avançou e Dilma foi ficando pelo meio do caminho. Seu prestígio, que já tinha levado um belo tombo, tomou o rumo da porta dos fundos quando os senadores governistas resolveram aceitar a versão "light" dos fatos, de que a ex-chefona da Receita, Lina Vieira, estivera, sim, com a ministra, mas que ela não havia pedido privilégios especiais à família Sarney. E acabou indo para o espaço sideral quando o presidente Lula brecou a divulgação de nota preparada pela ministra-chefe da Casa Civil, em que ela daria sua versão sobre o affair envolvendo Lina Vieira.
Não é só o fato de que Dilma agora ficou marcada como mentirosa, de que não tenha jogo de cintura ou nem mesmo carisma. Não. O que ela não parece ter é paixão, é vontade do fundo do âmago do ser íntimo de ser candidata. A impressão que dá é que ela está lá apenas desempenhando o seu papel de forma burocrática porque o presidente pediu, porque o PT não tem outra opção.
Mas veja como o mundo é redondo. Justo quando Dilma é pega numa mentira grave (aliás, duas, se contarmos a lorota do diploma), exatamente na semana em que o abscesso do PT é lancetado no julgamento de um aliado tão improvável quanto José Sarney, jorrando o pus do clientelismo para todo lado e deixando claro que o processo infeccioso chegou a níveis insuportáveis -o senador Arns que o diga-, surge a figura beatificada de Marina Silva para resgatar uma utopia que já foi monopólio do partido.
O ex-ministro dos Transportes, Mário Andreazza, costumava dizer que nunca se deve trabalhar com idealistas porque com eles não há acordo possível. Faz sentido que ele dissesse isso, não? Pois o PT se deteriorou por conta de suas próprias contradições, e das cinzas surgiu essa figura impoluta, sem posses, sem um escândalo que lhe marque a trajetória, sem fome de poder, com vontade apenas de expor seus ideais, professora e humanista que não cede ao populismo.
Com sua cara de brasileirinha barrada no baile, do ponto de vista pedagógico Marina Silva representa a bandeira que o mundo quer ver o Brasil hastear. Alfabetizada no Mobral, contaminada por metais pesados, vítima das doenças da floresta, alguém que percorreu uma estrada muito similar à de Lula, só que sem a mácula do sindicalismo, o que ela pensa sobre sustentabilidade e o ambiente faz todo o sentido em um país que possui 60% do que resta de hectares "plantáveis" no mundo.
Que se dane se santa Marina não tem um nome para o Banco Central, ideias claras (ou qualquer ideia) sobre a economia e que seja adepta do criacionismo, que nega as teorias de Darwin, não é mesmo? E, para os eleitores que andam aderindo a essa maldição da pregação purista, que está dando à lei antifumo de Serra perto de 80% de aprovação, ou para o cara-pintada dormente que não faz parte da vendida UNE e que está cheio de ficar gritando "Fora, Sarney" na internet para ninguém ouvir, Marina Silva é uma Heloísa Helena de verdade, um Cacareco não avacalhado, o voto de protesto que dignifica.
Definitivamente, não foi a melhor semana da vida da ministra Dilma ou do PT.
Texto de Barbara Gancia na Folha de São Paulo de 21/08/09

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