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quinta-feira, 25 de outubro de 2007

A revanche da esquadra espanhola

O arremate em leilão das estradas brasileiras pela empresa espanhola
OHL faz parte de uma estratégia de longo prazo de reconquista dos territórios perdidos nos últimos séculos.
Quando a esquadra de Cristóvão Colombo aportou no Caribe, a Espanha conquistou todo mundo até então não mapeado. Logo em seguida os portugueses aportaram e ocuparam a costa leste da América do Sul.
Devido às sucessivas crises do império espanhol as novas terras acabaram em mãos de portugueses, ingleses, franceses, holandeses e no final do século XIX perderam para os novos donos do mundo, os Estados Unidos, o restante das colônias (Cuba e Filipinas), depois de terem perdido as colônias sul e centro americanas.
O processo de degradação espanhola continuou e no século XXI tivemos a fratricida guerra civil e o tormento das duas guerras mundiais, enquanto o isolamento franquista fez o resto.
A morte de Franco, a volta da democracia e a restauração da monarquia marcam o início da recuperação econômica, social e política e possibilitou a corajosa estratégia de reconquista do novo mundo de Colombo.
Crédito a fundo perdido cedido pelos países ricos da União Européia para integração dos países pobres proporcionaram o enriquecimento interno e o fortalecimento das empresas de capital espanhol.
As empresas abriram seu capital, colocaram parte de seu capital à venda, mas mantiveram o controle em mãos espanholas, quer seja o estado, quer seja seus cidadãos.
Ao mesmo tempo em que se capitalizavam e se fortaleciam, o governo estabeleceu incentivos para busca de novos mercados através de subsídios generosos para as empresas que se internacionalizassem.
As primeiras compras ocorreram justamente numa ex-colônia.
A Argentina vendeu sua empresa de telefonia e quase tudo que pudesse ser usado para fazer dinheiro fácil e rápido como todo endividado costuma fazer e o FMI receita.
Dois séculos depois da vitória de Simon Bolívar, a contra ofensiva espanhola em terras sul-americanas subiu os Andes, passeou pelo Pacífico e ancoraram nas terras de onde haviam sido expulsas e estabeleceu seu quartel-general.
A revanche da derrota no Tratado de Tordesilhas começou com o desembarque na privatização da Telesp, quando fizeram a cabeça de ponte para seus fuzileiros navais.
A infantaria e todo restante da armada desembarcou de vez nas Terras de Piratininga conquistando o Banespa, o Econômico, a Vera Cruz Seguradora, as estradas paulistas e prosseguiram na retomada quarteirão por quarteirão, digo empresa por empresa.
O último lance a céu aberto foi a conquista das estradas federais.
Todos esses movimentos são parte de uma estratégia de longo prazo, onde não importa mais a conquista de territórios, o massacre das populações locais, o importante é a conquista do bolso de seus habitantes. O importante é o mercado consumidor.Importante é oferecer serviços a milhões de consumidores e garantir bons lucros e a remessa destes lucros à metrópole.
Os novos conquistadores espanhóis, não perdem tempo nos oferecendo quinquilharias, não querem comércio, não querem indústria, como se fazia nos tempos coloniais, não é necessário, espelhos, miçangas, panos vermelhos. Enquanto os americanos e outros europeus querem nos vender carros, computadores, máquinas, armas e os chineses querem nos vender quinquilharias falsificadas, eles os espanhóis querem só isso, querem nos prestar serviços, só serviços, com lucros, muitos lucros.
A remessa de lucros é o tributo pago pelos novos súditos e permitirá a acumulação de riquezas na metrópole e alavancará novas compras pelo mundo.
Desta forma, sem um só tiro, a armada espanhola reconquista as “Terras de Colombo”.

JGS


Este texto já estava escrito, quando li a entrevista do Fernando Arruda Botelho, da empreiteira Camargo Corrêa e resolvi publicá-la nos comentários.

Um comentário:

  1. "Os espanhóis vão estourar com a gente"

    Em jantar recente que reuniu alguns dos maiores empresários do país em São Paulo, Fernando Arruda Botelho, da empreiteira Camargo Corrêa, falou a um deles: "Os espanhóis vão estourar com a gente". O desabafo foi feito uma semana depois que a espanhola OHL arrematou cinco de sete trechos de rodovias licitados no governo Lula. Arruda Botelho detalhou sua opinião à coluna:

    FOLHA - O senhor faria essa afirmação publicamente?
    FERNANDO BOTELHO - É claro. Pode escrever aí: os espanhóis vão arrebentar os empresários brasileiros, que não têm condições de competir com eles.

    FOLHA - Por quê?
    BOTELHO - Eles chegam aqui com condições favoráveis [em muitos casos, o governo da Espanha dá incentivo fiscal a empresas que fazem aquisições no exterior], com condições de financiamento que nós não temos, e conseguem oferecer preços que nós não podemos.

    FOLHA - E os financiamentos do BNDES às empresas brasileiras?
    BOTELHO - É mais caro. As condições não são tão boas.

    FOLHA - A OHL diz que vai participar também do leilão de concessões das rodovias paulistas.
    BOTELHO - Vão, é claro. Os espanhóis vão comprar tudo. Eles vão estourar com os empresários brasileiros.

    Texto de Mônica Bergamo na Folha de São Paulo de 25/10/07

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